{"id":1203,"date":"2009-12-18T19:53:37","date_gmt":"2009-12-18T21:53:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1203"},"modified":"2009-12-20T20:43:00","modified_gmt":"2009-12-20T22:43:00","slug":"a-hierarquia-dos-gestos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-hierarquia-dos-gestos","title":{"rendered":"A HIERARQUIA DOS GESTOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Na literatura, o movimento do corpo \u00e9 descrito e imaginado. No cinema e na TV, o gesto expl\u00edcito \u00e9 a vitrine dos nossos erros, j\u00e1 que os acertos n\u00e3o dependem do desenho feito pelo andar, linhas do rosto e trejeitos: a sinceridade vira pelo avesso a m\u00e1xima de que somos o que parecemos. Somos o que somos quando n\u00e3o queremos parecer alguma coisa &#8211; nesse caso, o gesto faz parte do nosso encanto. Quando fingimos, for\u00e7amos os gestos, nos transformamos num conjunto de posturas artificiais. O mais tr\u00e1gico \u00e9 quando os gestos denunciam a posi\u00e7\u00e3o social que cada um ocupa na pir\u00e2mide das exclus\u00f5es.<\/p>\n<p>LITTLE BROTHER &#8211; O programa da Globo, Big Brother, \u00e9 uma pequena loja de horrores. Um grupo \u00e9 escolhido para exibir uma sucess\u00e3o de gestos did\u00e1ticos, que ensinam as pessoas a gozar a vida e a n\u00e3o trabalhar. Eles se deitam, se agridem e se fuzilam: toda hora tem &#8220;pared\u00e3o&#8221;. \u00c9 como se fossem ratos de laborat\u00f3rio, a provar a pesquisa cient\u00edfica dos idealizadores desse pesadelo, de que brasileiro \u00e9 mesmo vagabundo, gosta de mordomia, odeia o pr\u00f3ximo e s\u00f3 quer se dar bem na vida. Esse conjunto de conceitos \u00e9 refor\u00e7ado pelas cenas doentias, todas elas ostentando um falso improviso, quando est\u00e1 na cara que foram escritas, tanto \u00e9 que tem personagem que n\u00e3o consegue dizer a fala direito (como no caso das crian\u00e7as nos comerciais com aquela voz for\u00e7ada, pois a meninada n\u00e3o est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de articular toda a complexidade e oportunismo da mensagem, o que inclui estrutura de frase, entona\u00e7\u00e3o etc). Costuma-se dizer que o povo gosta mesmo disso tudo, pois o Ibope (qu\u00e1!) est\u00e1 alto. Me coloquem em hor\u00e1rio nobre falando abobrinhas numa rede poderosa que terei Ibope alto. \u00c9 tudo uma quest\u00e3o de oportunidade e hor\u00e1rio. Sempre tenho a impress\u00e3o que os programadores esperam dar tra\u00e7o na pesquisa (l\u00e1 pela uma da manh\u00e3) para ent\u00e3o colocar um belo document\u00e1rio (como Roger and me, de Michael Moore, que passou na madruga do SBT) ou algum cl\u00e1ssico (como acontece uma vez por semana na Bandeirantes, que ainda tem a manha de corromper a obra retaliando-a em blocos o\u00adnde os intervalos s\u00e3o preenchidos com m\u00eddia interna, propaganda exaustivamente repetida sobre as outras atra\u00e7\u00f5es da rede). O p\u00fablico n\u00e3o tem op\u00e7\u00e3o, tem porcarias na hora em que tenta ver alguma coisa- e ainda \u00e9 chamado jocosamente de &#8220;\u00f4 da poltrona&#8221; ou &#8220;voc\u00ea a\u00ed do sof\u00e1, que fica parado&#8221;. A malandragem costuma se deitar quando tem algum trabalhador pela frente. Principalmente quando est\u00e1 no poder.<\/p>\n<p>OMBROS, CARAS E BOCAS O entusiasmo de estar diante das c\u00e2maras falando qualquer coisa costuma deixar marcas, como o fren\u00e9tico sacudir de ombros, quando h\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o de refor\u00e7ar o que est\u00e1 sendo dito (normalmente um conjunto de redund\u00e2ncias ou de informa\u00e7\u00f5es plantadas). \u00c9 o recado claro do exibicionismo, falta de assunto e desimport\u00e2ncia da reportagem. Outro gesto \u00e9 o leve inclinar para a frente, que acontece no final das frases do atual jornalismo de breque &#8211; aquele que tamb\u00e9m faz uma paradinha no meio frase para fazer suspense ou preparar o pobre do telespectador para a emiss\u00e3o do cr\u00e9dito. Acho at\u00e9 que, para os rep\u00f3rteres de TV (de todo o mundo) o mais importante \u00e9 dizer o pr\u00f3prio nome. N\u00e3o importa a informa\u00e7\u00e3o, o que vale \u00e9 &#8220;Fulano de Tal, de Caixa Prego&#8221;. O recado tamb\u00e9m \u00e9 claro: &#8220;Eu sou o maior, o mais importante. Dane-se a reportagem. Voc\u00ea a\u00ed da poltrona, admire-me.&#8221; Pois o mundo, caro leitor (voc\u00ea e eu) existe para admir\u00e1-los. E cuidado, sen\u00e3o voc\u00ea toma o lugar daquelas criaturas que vivem alcan\u00e7ando coisas ou aturando quem est\u00e1 hierarquicamente acima. O cara que alcan\u00e7a a toalhinha para o campe\u00e3o de t\u00eanis, o lavrador que fica virando a forragem enquanto o rep\u00f3rter, de microfone na m\u00e3o, explica como a coisa funciona, sem falar na pl\u00eaiade de empregadas nas novelas, todas uniformizadas e aturando desaforo das starlets. Isso chama-se reitera\u00e7\u00e3o permanente dos pap\u00e9is sociais.<\/p>\n<p>O CORPO TODO &#8211; O gesto favorito dos nossos estadistas de est\u00e1dio (como diria Ulysses Guimar\u00e3es) \u00e9 virar a cabe\u00e7a junto com o tronco. Sinal que sugere integridade f\u00edsica, ou seja, n\u00e3o se torce o pesco\u00e7o para olhar ningu\u00e9m, vira-se inteiramente como a proclamar autoridade e expressar com esse gesto que se est\u00e1 ali para mandar e ensinar, e jamais para escutar. Nisso FHC e Lula tamb\u00e9m se parecem. A rigidez de ombros que ostentam significa que s\u00e3o rochedos. Em volta deles, pululam como o\u00adndas os ombros fren\u00e9ticos da m\u00eddia, a lamber-lhes as ostras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O gesto favorito dos nossos estadistas de est\u00e1dio (como diria Ulysses Guimar\u00e3es) \u00e9 virar a cabe\u00e7a junto com o tronco. Sinal que sugere integridade f\u00edsica, ou seja, n\u00e3o se torce o pesco\u00e7o para olhar ningu\u00e9m, vira-se inteiramente como a proclamar autoridade e expressar com esse gesto que se est\u00e1 ali para mandar e ensinar, e jamais para escutar. Nisso FHC e Lula tamb\u00e9m se parecem. A rigidez de ombros que ostentam significa que s\u00e3o rochedos. 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