{"id":1225,"date":"2009-12-18T20:38:47","date_gmt":"2009-12-18T22:38:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1225"},"modified":"2009-12-20T21:08:00","modified_gmt":"2009-12-20T23:08:00","slug":"gols-do-magico-mandrake","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/gols-do-magico-mandrake","title":{"rendered":"GOLS DO M\u00c1GICO MANDRAKE"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A rodada do Brasileir\u00e3o do dia 7 de setembro de 2005 foi de arrepiar, mas vi pouco futebol, porque a TV aberta esconde os fatos de prop\u00f3sito para for\u00e7ar a popula\u00e7\u00e3o a pagar para ver o que gosta. Como tenho outras despesas mais importantes, me limitei a ver o excelente Fluminense e Cruzeiro e alguns lances esparsos. Seleciono tr\u00eas momentos: o gol de falta de Ricardinho no Santos x Atl\u00e9tico Paranaense e os dois gols de Petkovic, do Flu, todos tirados da cartola de Mandrake, o m\u00e1gico dos quadrinhos que virou sin\u00f4nimo de jogada imposs\u00edvel nos tempos em que gibi era nosso videogame.<\/p>\n<p>COMANDO &#8211; O de Ricardinho foi mais sensacional. A bola subiu para a arquibancada, mas a uma meia altura perigosa, paradoxo que nosso olho n\u00e3o suporta e v\u00ea apenas com um chute magistral em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1rea que fica muito acima do goleiro. Este fica paralisado, pois acredita no que imagina (e naquilo que o chute trai\u00e7oeiro sugere). Mas a bola foi tocada pelo craque, portanto tem outros endere\u00e7os. Ela bate furiosamente no travess\u00e3o, vai com for\u00e7a para o ch\u00e3o e volta para cima, para bater de novo no pau que limita a parte de cima da goleira. S\u00f3 quando se choca pela segunda vez no travess\u00e3o, antes de entrar para o fundo da rede, o goleiro se mexe.<\/p>\n<p>\u00c9 incr\u00edvel esse milissegundo em que o goleiro, paralisado, ordena seu corpo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 bola, que j\u00e1 sa\u00eda do ch\u00e3o para al\u00e7ar v\u00f4o novamente rumo \u00e0 trave de cima. O comando que movimentou o arqueiro chegou um s\u00e9culo atrasado. Era o que o corpo queria fazer antes do desenlace, mas emperrou na certeza obscura de que a bola iria se perder para sempre. \u00c9 de arrepiar ver o goleiro totalmente im\u00f3vel olhando para cima (s\u00f3 o olho acompanha a velocidade do chute) e a bola batendo, despencando para o solo, voltando para cima, para quicar e entrar, enquanto o goleiro tenta investir contra o irrepar\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ricardinho ainda fez outro gol, de corrida, em que colocou a bola no canto esquerdo usando o lado do p\u00e9 para dar o chute. Mas esse gol, tamb\u00e9m maravilhoso, n\u00e3o foi Mandrake.<\/p>\n<p>LEGI\u00c3O &#8211; Mandrake foram os dois de Petkovic. O primeiro consistiu na travessia da pequena \u00e1rea. Os narradores sempre erram, dizem que ele venceu dois advers\u00e1rios para chegar no gol. Para mim o grande craque atravessou o canal da Mancha, cruzou a linha Maginot, enfrentou a Legi\u00e3o Estrangeira, passou por dez mil combatentes, superou os espartanos de Le\u00f4nidas e no final da jogada, diante do goleiro que se atirava em seu encal\u00e7o, ele teve a manha de encontrar um espa\u00e7o qu\u00e2ntico onde deu um tot\u00f3zinho que elevou suavemente a bola.<\/p>\n<p>Petkovic \u00e9 absolutamente imposs\u00edvel. No seu segundo gol, ele limpa a \u00e1rea ao fazer a bola rolar para a esquerda, ocupar um ponto em que a percep\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio imagina que dali jamais sair\u00e1 algo que preste. Petkovic engana todo mundo ao chutar a bola para os eucaliptos, aquele limite antigo (agora imagin\u00e1rio) dos gramados da periferia e que simbolizava o fim do mundo irreal do futebol e o in\u00edcio da desgra\u00e7a, a vida normal de todos os dias. Pois a bola \u00e9 assim chutada, numa dire\u00e7\u00e3o tomada pelo desespero, sem nenhum poder de entrar em qualquer lugar plaus\u00edvel e eis que, diante do cansa\u00e7o do olhar, a bola entra na gaveta, no \u00e2ngulo supremo do nosso encantamento. \u00c9 assim o jogo de futebol. Um programa rid\u00edculo em que pensamos encontrar o Mesmo, mas nos defrontamos com um coelho que salta da cartola e imita Louis Armstrong.<\/p>\n<p>ARBITRAGEM &#8211; Um jogo de futebol tem v\u00e1rias vers\u00f5es. Uma para cada tipo de torcedor, jogador ou jornalista. Quem define a realidade \u00e9 o \u00e1rbitro, que diz se foi ou n\u00e3o gol, falta ou impedimento, ou se o jogo realmente terminou. Mas isso n\u00e3o basta. \u00c9 preciso ter o comentarista de \u00e1rbitro, um aliado corporativo de quem est\u00e1 decidindo os lances da partida. \u00c9 uma inven\u00e7\u00e3o da Globo em que um ex-\u00e1rbitro d\u00e1 for\u00e7a para seu colega. \u00c9 que existem in\u00fameras probabilidades de o futebol fazer cair a ficha dos telespectadores. Ei, as coisas podem ser diferentes, podem mudar, podem ter mais de uma vers\u00e3o. Isso \u00e9 um perigo pol\u00edtico e cultural. N\u00e3o pode. Ent\u00e3o vem o Arnaldo C\u00e9sar Coelho, o Jos\u00e9 Roberto Wrigth ou aquele outro da Record que fala carimba, Luciano, carimba, que o gol foi legal, aquele chato insuport\u00e1vel, para dar voz de pris\u00e3o ao olhar que corre solto pelos p\u00e9s dos craques.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 incr\u00edvel esse milissegundo em que o goleiro, paralisado, ordena seu corpo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 bola, que j\u00e1 sa\u00eda do ch\u00e3o para al\u00e7ar v\u00f4o novamente rumo \u00e0 trave de cima. O comando que movimentou o arqueiro chegou um s\u00e9culo atrasado. Era o que o corpo queria fazer antes do desenlace, mas emperrou na certeza obscura de que a bola iria se perder para sempre. \u00c9 de arrepiar ver o goleiro totalmente im\u00f3vel olhando para cima (s\u00f3 o olho acompanha a velocidade do chute) e a bola batendo, despencando para o solo, voltando para cima, para quicar e entrar, enquanto o goleiro tenta investir contra o irrepar\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1225"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1225"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1225\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1426,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1225\/revisions\/1426"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}