{"id":1297,"date":"2009-12-18T21:34:41","date_gmt":"2009-12-18T23:34:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1297"},"modified":"2009-12-21T00:45:45","modified_gmt":"2009-12-21T02:45:45","slug":"literatura-e-o-nome-da-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/literatura-e-o-nome-da-liberdade","title":{"rendered":"LITERATURA \u00c9 O NOME DA LIBERDADE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA literatura \u00e9 a oportunidade que a linguagem tem de se reinventar. Diferente do jornalismo ou das ci\u00eancias humanas, que obedecem a paradigmas e precisam do consenso do entendimento, de um acordo pr\u00e9vio para ser debatido e desenvolvido, a literatura caracteriza-se pela liberdade de suas falas, do desenraizamento total e da radicalidade de suas experi\u00eancias. J\u00e1 que por natureza possui amplo espectro, proporcionado por essa liberdade, ela presta-se mais a uma abordagem seletiva, pois fica dif\u00edcil abra\u00e7ar esse vasto mundo ou fazer seu invent\u00e1rio. A sa\u00edda \u00e9 definir um conjunto de c\u00e9lulas para tentar nele soprar nele um pouco de sentido.<\/p>\n<p><strong>LIMITES<\/strong> &#8211; Meu \u00e1libi para estreitar os limites dessa minha conversa tamb\u00e9m inclui uma necessidade pr\u00f3pria de trafegar pelas leituras que decidi adotar como insumos b\u00e1sicos, tanto do que produzo quanto do que costumo analisar como resenhista. Trata-se de uma delibera\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de uma desist\u00eancia diante da complexidade do tema. Por fazer parte do exerc\u00edcio da liberdade, numa \u00e9poca de transforma\u00e7\u00f5es profundas e cada vez mais r\u00e1pidas, a literatura desvencilhou-se das \u00faltimas escolas e partiu para a aventura radical. Mas isso n\u00e3o a tirou fora do jogo pol\u00edtico. A inven\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria permanente costuma refletir o desespero, pois \u00e9 do caos que ela trata, postura gerada pelo desligamento dos c\u00e2nones. Vemos isso em Kafka, para pegar o exemplo mais not\u00f3rio. Mas o narrador que \u00e9 persona do autor diante da indiferen\u00e7a e brutalidade do mundo, \u00e9 obrigado a reconstruir a linguagem numa nova ordena\u00e7\u00e3o do caos. O resultado \u00e9 uma narrativa sinistra, que faz parte do desencanto econ\u00f4mico e pol\u00edtico da Europa que gerou a barb\u00e1rie de duas guerras.<\/p>\n<p>Esse parece ser o personagem favorito da literatura brasileira de hoje. O viajante de Jo\u00e3o Gilberto Noll em v\u00e1rios dos seus livros, o pesquisador do romance Fantasma, de Jos\u00e9 Castello, o detetive Cid Espig\u00e3o de Tabajara Ruas s\u00e3o agentes dessa reordena\u00e7\u00e3o da linguagem que veio \u00e1 tona depois de assassinada. Isso se chama liberdade, mas tamb\u00e9m est\u00e1 profundamente ligado \u00e0 ditadura que nos surpreendeu, criou e ainda nos mant\u00e9m numa espiral de ins\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>DI\u00c1SPORA<\/strong> &#8211; Meu romance <em>Universo Baldio (Francis, W11 Editores, 2004)<\/em> \u00e9 a composi\u00e7\u00e3o de duas falas que tentam se complementar. A primeira \u00e9 a desse caminhante perplexo que vive o desmoronamento do mundo e rearticula sua presen\u00e7a liter\u00e1ria para n\u00e3o perder a identidade que arduamente construiu no meio do caos. Nessa primeira fase, h\u00e1 a perplexidade diante da di\u00e1spora humana que gerou aquela hist\u00f3ria, que acaba, como come\u00e7ou, na estrada, dentro de um coletivo que coleciona mon\u00f3logos.<\/p>\n<p>Na segunda parte, a persona que encarna o narrador divide-se diante dos seus fantasmas e ao tentar, desesperado, reencontrar-se, acaba descobrindo o quanto perdeu na sua trajet\u00f3ria. Pior: sabe ent\u00e3o que sua perda veio de longe e que nunca houve rem\u00e9dio para ela. Mas ainda se mant\u00e9m a esperan\u00e7a de que o tecido desfeito possa ser refeito no final, o\u00adnde o happy end seria uma forma de vingan\u00e7a, e n\u00e3o um lugar comum. Mais n\u00e3o posso dizer desse romance escrito num intervalo de vinte anos e que \u00e9 uma s\u00edntese de v\u00e1rias incurs\u00f5es na prosa liter\u00e1ria que se dispersa hoje em cr\u00f4nicas, mem\u00f3rias, contos e projetos de novos romances. O fazer liter\u00e1rio n\u00e3o basta, pois ele enfrenta primeiro a dificuldade de exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica, por motivos demais conhecidos. \u00c9 preciso aborda-lo na an\u00e1lise, fazer parte da composi\u00e7\u00e3o de falas que descem sobre a literatura como uma chuva de conceitos.<\/p>\n<p>Minha participa\u00e7\u00e3o nessa \u00e1rea tem sido constante e compreende desde autores como Rilke, Sim\u00f5es Lopes Neto, Vin\u00edcius de Moraes e Borges, como escritores que na minha gera\u00e7\u00e3o ajudam a compor um universo liter\u00e1rio pautado pela liberdade total. Na resenha, procuro incorporar a liberdade liter\u00e1ria, encarnar o verbo para ser fiel \u00e0 fala alheia. Costumo partir para lances n\u00e3o pautados na inten\u00e7\u00e3o inicial do texto, mas que felizmente transformam-se, a seu modo, parte da minha literatura<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A literatura \u00e9 a oportunidade que a linguagem tem de se reinventar. 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