{"id":1936,"date":"2010-01-03T19:24:02","date_gmt":"2010-01-03T21:24:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=1936"},"modified":"2010-01-03T19:24:02","modified_gmt":"2010-01-03T21:24:02","slug":"%e2%80%9cos-bons-comigo%e2%80%9d","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/%e2%80%9cos-bons-comigo%e2%80%9d","title":{"rendered":"\u201cOS BONS, COMIGO\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Ser bom est\u00e1 fora de moda, mas n\u00e3o em desuso. N\u00e3o \u00e9 valorizado e j\u00e1 vi gente pedindo desculpas por divulgar suas vit\u00f3rias escolares. H\u00e1 um medo geral de ser confundido com os nerds. Todos querem ser o boquinha torta da esperteza, a caricatura publicit\u00e1ria do Ligador. O grande crime \u00e9 ser flagrado como trouxa. Isso diminui as chances para o exerc\u00edcio da bondade, ou pelo menos, sua visibilidade. Esconder-se para fazer o bem \u00e9 o limbo para onde foram atiradas as pessoas boas, enquanto os vivarachos batem no peito dizendo-se paradigmas da corre\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lembro quando essa onda come\u00e7ou. \u00c9ramos bonzinhos na \u00e9poca em que se amarrava cachorro com ling\u00fci\u00e7a. Ser mau n\u00e3o pegava bem. Ningu\u00e9m admirava um canalha. Mas a\u00ed foi implantada a cultura da malandragem. No in\u00edcio era uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 falsidade geral e come\u00e7ou a ser vista como algo positivo, legal de embarcar. Mas tornou-se hegem\u00f4nica e hoje \u00e9 obrigat\u00f3ria. Ou voc\u00ea \u00e9 malandro ou voc\u00ea \u00e9 um abombado. Como em terra de escravos todo mundo quer ser senhor, em ambiente de espertos todos s\u00e3o o \u00faltimo grito da sacanagem.<\/p>\n<p>Existem sinais evidentes do sujeito que se esfor\u00e7a em ser o que n\u00e3o \u00e9. Um dos v\u00edcios mais comuns \u00e9 dirigir olhando para o lado. Enquanto o carro vai a toda velocidade, o motorista in, por dentro, torce o pesco\u00e7o e olha para as garotas na parada de \u00f4nibus, para as mulheres carregando beb\u00eas, para as senhoras ao celular, para as adolescentes indo para a escola. O sujeito pode tamb\u00e9m estar ao telefone, falando aos berros ou sussurrando alguma cantada. Ele se sente admirado, o mau da turma.<\/p>\n<p>O cara bom sente desconforto em prejudicar qualquer pessoa. Teme pela vida dos outros, \u00e9 solid\u00e1rio nos momentos mais cr\u00edticos, n\u00e3o pede reconhecimento e n\u00e3o finge que \u00e9 o grande amig\u00e3o para tirar vantagem. Ele faz o bem e n\u00e3o deixa pistas. \u00c9 poss\u00edvel que o benefici\u00e1rio, se for um cretino, e normalmente \u00e9, esque\u00e7a a fonte de sua atual fase de sucesso, coloque na gaveta oculta de desmem\u00f3ria aquele gesto salvador, achando que s\u00f3 ele conta.<\/p>\n<p>Tenho atualmente in\u00fameras manifesta\u00e7\u00f5es a meu favor e sempre tive. Fui e sou cercado por pessoas boas. Claro que topei com todo o tipo de traste, de gangsters sem limites, de falsos amigos e tudo mais. Mas a maioria se pauta pela dec\u00eancia. Sofrem na m\u00e3o dos carrascos e quando tem poder, abrem generosamente as portas. Vimos isso muitas vezes. A quantidade de aproveitadores que cercam algu\u00e9m de boa \u00edndole no poder impressiona. S\u00e3o moscas ao redor do doce. A v\u00edtima, que toma os outros por si, n\u00e3o se d\u00e1 conta. Ou quando enxerga, resolve agir estrategicamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 estrat\u00e9gia que ven\u00e7a a maldade. A \u00fanica coisa que funciona \u00e9 chute na canela. Ou voc\u00ea d\u00e1 um tranco ou deixa-se enredar pela s\u00facia. Vi v\u00e1rias vezes pessoas boas serem erradicadas de empregos sem se dar conta. Quando viram, estavam na rua. A\u00ed foram fazer a \u00faltima visita ao local de trabalho e quem estava aboletado na sua mesa? O melhor companheiro, o sujeito amigo de todas as horas. Acontece sempre.<\/p>\n<p>Mas por ser voca\u00e7\u00e3o, a bondade n\u00e3o diminui diante das decep\u00e7\u00f5es. A pessoa boa continua com sua grandeza di\u00e1ria, encantando tudo o que toca. Por ser humana, ela tamb\u00e9m comete erros, deslizes e pode at\u00e9 fazer maldades. Mas sente remorso, essa lixa ardida da consci\u00eancia. Volta atr\u00e1s, pede desculpas. E assim refor\u00e7a v\u00ednculos muitos antigos, os da amizade e at\u00e9 do amor. Porque o amor \u00e9, no fundo, o la\u00e7o eterno da bondade humana, seu fruto mais nobre.<\/p>\n<p>Que fique entre n\u00f3s essa percep\u00e7\u00e3o de que somos maioria e que n\u00e3o baixamos a guarda por mais que tentem nos transformar em soldados do outro lado. Combatemos daqui, onde nada nos derruba. Deixe que nos chamem de babaca. Nossa esperteza \u00e9 de outra natureza e tem vida longa. Renasce sempre, rodeada pela inoc\u00eancia. E voa sobre o mundo distribuindo presentes em salas iluminadas por uma alegria infantil. Esse \u00e9 o mito que alimenta a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie, num universo bruto, onde corre bala. Somos esse atalho que surge no meio do tiroteio.<\/p>\n<p>\u201cPor aqui\u201d, dizem os que existem para evitar o pior. \u201cOs bons, comigo\u201d, como diz Andr\u00e9 Falavigna quando convoca para o p\u00f4quer no \u201cCambuci profundo\u201d. Significa: os melhores, ao meu lado. Somos um tima\u00e7o. O jogo vai recome\u00e7ar. Vale at\u00e9 blefar. N\u00e3o vale \u00e9 achar que bandidagem \u00e9 um royal flush.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser bom est\u00e1 fora de moda, mas n\u00e3o em desuso. N\u00e3o \u00e9 valorizado e j\u00e1 vi gente pedindo desculpas por divulgar suas vit\u00f3rias escolares. H\u00e1 um medo geral de ser confundido com os nerds. Todos querem ser o boquinha torta da esperteza, a caricatura publicit\u00e1ria do Ligador. O grande crime \u00e9 ser flagrado como trouxa. 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