{"id":1940,"date":"2010-01-03T19:32:51","date_gmt":"2010-01-03T21:32:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=1940"},"modified":"2010-01-03T19:34:10","modified_gmt":"2010-01-03T21:34:10","slug":"pablo-neruda-historia-geral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/pablo-neruda-historia-geral","title":{"rendered":"PABLO NERUDA: HIST\u00d3RIA GERAL"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nNeruda perdeu a terra e tenta recuper\u00e1-la atrav\u00e9s da poesia. Mas o que aparece neste livro (*), primeiro dos cinco volumes do seu &#8220;Memorial de Ilha Negra&#8221;. escrito aos 60 anos, n\u00e3o \u00e9 apenas o Chile (e por extens\u00e3o, a Am\u00e9rica Latina), mas principalmente a destrui\u00e7\u00e3o da sua identidade pessoal. O poeta se debru\u00e7a sobre sua inf\u00e2ncia, sobre sua cidade, e reconstitui esse processo de destrui\u00e7\u00e3o para se redescobrir e recuperar o fio, apesar de saber que nunca ser\u00e1 o mesmo e que est\u00e1 condenado, como todos, a uma viagem sem volta. No seu caso, essa viagem o levaria ao breve tempo de esperan\u00e7a no governo Allende e depois \u00e0 morte, nos dias terr\u00edveis de setembro de 1973.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que Neruda n\u00e3o deixou, como heran\u00e7a, apenas uma descri\u00e7\u00e3o de sua terra, mas sua caminhada, sua tentativa de humanizar o homem destru\u00eddo pela press\u00e3o social, sua vontade de recompor o mundo \u00e0 imagem pura das matas de Temuco, onde &#8220;do machado e da chuva foi crescendo a cidade madeireira rec\u00e9m-cortada como nova estrela com gotas de resina&#8221;.<\/p>\n<p>Descobertas \u2014 O livro \u00e9 sobre a descoberta do mundo, os primeiros passos do poeta, suas revela\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da dor, sua passagem para novos estados de consci\u00eancia que, ao mesmo tempo, o afastavam de suas ra\u00edzes. Esse mundo nasce da cidade madeireira. da descoberta emocionada dos pais, da experi\u00eancia de terror e lucidez nas matas e no mar, da adolesc\u00eancia t\u00edmida que descobriu o sexo, o col\u00e9gio, o livro, e o levou \u00e0 poesia, ao medo na capital e \u00e0 rotina na pens\u00e3o da rua Maruri.<\/p>\n<p>Pelos olhos de Neruda passeiam as assombra\u00e7\u00f5es do seu Tio Genaro que veio das montanhas, as paisagens da terra \u2014 como nos poemas &#8220;Lago dos Cisnes&#8221; e &#8220;A Terra Austral&#8221; \u2014 e do povo, como em &#8220;A Injusti\u00e7a&#8221; e &#8220;O Trem Noturno&#8221;. E, principalmente, a mudan\u00e7a do seu rosto, como neste trecho de &#8220;O Menino Perdido&#8221;: &#8220;E de repente apareceu em meu rosto um rosto de estrangeiro c era tamb\u00e9m eu mesmo: era eu que crescia, eras tu que crescias, era tudo,. e mudamos e nunca mais soubemos quem \u00e9ramos, e \u00e0s vezes recordamos aquele que viveu em n\u00f3s e lhe pedimos algo, talvez que nos recorde, que saiba pelo menos que fomos ele, que falamos com sua l\u00edngua, mas desde as horas consumidas nos olha e n\u00e3o nos reconhece&#8221;.<\/p>\n<p>Mem\u00f3ria social \u2014 Talvez s\u00f3 a poesia possa redimir o ex\u00edlio, pois joga com a mem\u00f3ria afetiva, redescobrindo o clima dos acontecimentos e as dimens\u00f5es do homem nas suas viagens pelo furac\u00e3o. Recomp\u00f5e assim a hist\u00f3ria pessoal de uma coletividade, procura um rosto que permane\u00e7a e reine acima da perda, do eterno sentimento de derrota, dos foragidos que trocam de mundo tamb\u00e9m por que s\u00e3o empurrados, e n\u00e3o somente por sua sede de aventura. Neruda, apesar de eterno passageiro desse trem que nunca p\u00e1ra, procura a mem\u00f3ria social atrav\u00e9s de sua exist\u00eancia individual, recuperando a terra perdida apenas cumprindo seu destino de poeta e cidad\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Neruda, por sorte, \u00e9 a hist\u00f3ria do povo. Nascido da chuva, da madeira, do p\u00e3o e do vinho, ele \u00e9 capaz de se identificar com os movimentos da terra e do tempo, retratando a aventura numa \u00e9poca de dispers\u00e3o e mis\u00e9ria. Por ter descoberto a identifica\u00e7\u00e3o do seu destino com o destino do Chile, que por certo renascer\u00e1, pode-se dizer que Neruda, como todos os grandes poetas, \u00e9 a p\u00e1tria procurada pelos abandonados, pelos que foram varridos da sua terra, tanto pelo tempo como pela guerra. Felizmente, a tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Nejar conserva essa m\u00e1gica experi\u00eancia, atrav\u00e9s de um bom senso criativo, sem pretens\u00f5es e exato. E h\u00e1 a vantagem de ser uma edi\u00e7\u00e3o bil\u00edng\u00fce, onde Nejar mostra-se \u00fatil at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>(*) MEMORIAL DE ILHA NEGRA \u2014 VOL. I: DONDE NASCE A CHUVA, de Pablo Neruda; tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Nejar; Salamandra; 86 p\u00e1ginas; 50 cruzeiros.<\/p>\n<p><em>Resenha publicada na se\u00e7\u00e3o de Livros da revista Veja em 1976.<br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Neruda perdeu a terra e tenta recuper\u00e1-la atrav\u00e9s da poesia. 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