{"id":1945,"date":"2010-01-03T19:38:12","date_gmt":"2010-01-03T21:38:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=1945"},"modified":"2010-01-03T19:39:09","modified_gmt":"2010-01-03T21:39:09","slug":"uma-viagem-de-volta-a-terra-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/uma-viagem-de-volta-a-terra-natal","title":{"rendered":"DE VOLTA \u00c0 TERRA NATAL"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nOs 45 poemas de A Escola das Facas, de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto (lan\u00e7ado cinco anos depois de &#8220;Museu de Tudo&#8221;) mergulham no que existe de mais caro ao poeta pernambucano: as li\u00e7\u00f5es de sua terra natal. Nos diversos confrontos da natureza nordestina, entre o sert\u00e3o e o litoral, entre a cana e o coqueiral, entre o vento e a chuva, ele retira, como sempre, sua poesia aguda e vertical, que de t\u00e3o &#8220;antibrasileira&#8221; foi confundida, no in\u00edcio, como anti-l\u00edrica.<\/p>\n<p>\u201cA Escola das Facas&#8221;, que traz um poeta memorialista e inclina\u00addo a descobrir o a\u00e7\u00facar de uma regi\u00e3o de calamidades, prova como nenhum outro de seus livros que a geometria cabralina foi apenas uma rea\u00e7\u00e3o contra as formas tradicionais do lirismo brasileiro.<\/p>\n<p>Sua luta \u00edntima, entretanto, provocou um dos mais graves erros de nossa hist\u00f3ria liter\u00e1ria. Enquanto Cabral inaugurava sua obra, a partir de \u201cPedra de Sono&#8221;, em 1946, com um enfoque totalmente in\u00e9dito e demolidor diante da melosa dramaticidade nacional, muitos dos seus seguidores transferiram-se para a nova &#8220;escola&#8221; com todos os seus equ\u00edvocos. Aproveitando palavras como pedra, cal, rel\u00f3gio, vidro, faca, usadas por Cabral para dissecar a linguagem e o sentimentalismo est\u00e9ril, os \u201calunos&#8221; acabaram por depositar um entulho monumental no j\u00e1 confuso universo po\u00e9tico do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por largos anos, a cr\u00edtica ajudou a cristalizar o erro e em conseq\u00fc\u00eancia houve um per\u00edodo onde a esterilidade po\u00e9tica era confundida com o rigor e a exatid\u00e3o. \u00c9 por isso que &#8220;A Escola das Facas\u201d, publicado nos seus 60 anos, chega em boa hora para uma reavalia\u00e7\u00e3o de sua obra. Originalmente intitulado &#8220;Poemas Pernambucanos&#8221;, o livro passeia pelos engenhos, os rios do Recife, as casas de Olinda, o cordel. Al\u00e9m disso, fornece detalhes de sua inf\u00e2ncia, confirmando a observa\u00e7\u00e3o de Carlos Drummond de Andrade de que as impress\u00f5es mais profundas s\u00e3o as que mais custam a vir \u00e0 tona.<\/p>\n<p>&#8220;A Escola das Facas&#8221; serve como um emocionado roteiro de seus amigos, como Ariano Suassuna, Joaquim Cardozo e C\u00edcero Dias, com poemas que acusam o esquecimento de pessoas importantes e, em cada um, descobre \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre a personalidade e as paisagens urbanas. Cabral tamb\u00e9m prova que apren\u00addeu li\u00e7\u00f5es amargas no seu duro exerc\u00edcio po\u00e9tico.<\/p>\n<p>Nos poemas finais, \u201cDe Volta ao Cabo de Santo Agostinho&#8221; e &#8220;Autocr\u00edtica&#8221;, ele confessa a inutilidade de sua den\u00fancia sobre o sofrimento do nordeste (popularizada principalmente depois da transposi\u00e7\u00e3o de &#8220;Morte e Vida Severina&#8221; para o teatro) e conclui que sua poesia se alimenta de apenas duas realidades: Pernambuco (de onde veio) e Andaluzia (para onde foi como diplomata).<\/p>\n<p>Do sert\u00e3o para Sevilha. Cabral agora empreende a doce viagem de volta, num gesto profundamente l\u00edrico, ant\u00edtese perfeita para a esterilidade que ajudou inconscientemente a desencadear.<\/p>\n<p><em>Resenha publicada na revista Veja, 24\/12\/1980 , edi\u00e7\u00e3o 642 pgs. 77 e 78.<br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Os 45 poemas de A Escola das Facas, de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto (lan\u00e7ado cinco anos depois de &#8220;Museu de Tudo&#8221;) mergulham no que existe de mais caro ao poeta pernambucano: as li\u00e7\u00f5es de sua terra natal. 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