{"id":1974,"date":"2010-02-10T18:56:42","date_gmt":"2010-02-10T20:56:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=1974"},"modified":"2010-02-10T18:56:42","modified_gmt":"2010-02-10T20:56:42","slug":"quem-sabe-ensina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/quem-sabe-ensina","title":{"rendered":"QUEM SABE, ENSINA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 chato falar dessas coisas, pois j\u00e1 tem muito assunto mala exigindo nossa aten\u00e7\u00e3o. Mas pensar sobre nossa profiss\u00e3o deve fazer parte da atividade, sob pena de deixarmos um vazio que logo \u00e9 preenchido pelos oportunistas, que acabam ganhando os tubos para pontificar obviedades. Quem faz, sabe, e deve dizer. E quem sabe e diz, ensina. Aprende quem tem ju\u00edzo.<\/p>\n<p>O jornalismo sozinho n\u00e3o faz ver\u00e3o. Isso n\u00e3o significa que deva ser desconstru\u00eddo em fun\u00e7\u00e3o do faturamento. Manter a ess\u00eancia da atividade \u2013 que \u00e9 reportar fatos selecionados pela edi\u00e7\u00e3o \u2013 sem se transformar num circo de cavalinhos, \u00e9 o caminho seguro para a sobreviv\u00eancia dos ve\u00edculos. Mas isso n\u00e3o tem sido levado em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O motivo principal n\u00e3o \u00e9 apenas a cretinice \u2013 embora isso influa bastante \u2013 ou o marketing equivocado (o imediatismo e a necessidade de fazer caixa rapidamente), mas o entorno das reda\u00e7\u00f5es: as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, amea\u00e7adas pelo continu\u00edsmo pol\u00edtico e a crescente a\u00e7\u00e3o da censura; a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds, em que o endividamento \u00e9 hegem\u00f4nico (at\u00e9 as grandes redes do varejo se transformaram em agentes financeiros), os direitos da cidadania, em baixa, basta ver o resultado da falta de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Sem o entorno s\u00f3lido, n\u00e3o adianta querer ser jornalista. Numa hora ou outro, te pegam. A\u00ed tudo fica reduzido ao que vemos diariamente. Quando o bairro inunda, o jornalista n\u00e3o tem que arrancar declara\u00e7\u00f5es de como as pessoas perderam tudo ou lamentar em pitacos editorialistas a trag\u00e9dia que se repete cada vez com mais intensidade. Tamb\u00e9m n\u00e3o tem de ficar convocando especialista. O sabich\u00e3o tem por objetivo confinar a l\u00f3gica longe do jornalismo, num curral identific\u00e1vel, que passe lotado pela sucess\u00e3o de mortes e da incompet\u00eancia dos jornais. O que ent\u00e3o \u00e9 preciso fazer?<\/p>\n<p>Dou um exemplo. Sumiram seis jovens em um m\u00eas em Luizi\u00e2nia, Goi\u00e1s. O notici\u00e1rio disse isso, que morreram misteriosamente seis garotos num curto espa\u00e7o de tempo. N\u00e3o segui o assunto, mas na \u00e9poca em que eu li ficaram esperando a pr\u00f3xima declara\u00e7\u00e3o das autoridades. Ou seja, o rep\u00f3rter n\u00e3o foi l\u00e1 fazer a reportagem. Quem eram realmente as v\u00edtimas, o que existia de comum entre elas, qual o depoimento de vizinhos e parentes, se houve antecedentes, o que diz a investiga\u00e7\u00e3o policial, se \u00e9 que houve ou est\u00e1 havendo.<\/p>\n<p>O jornal precisa cobrir o evento diariamente, ir em cima, fazer o servi\u00e7o completo. N\u00e3o pode \u00e9 ficar dependurado nos releases como os velhos inadimplentes que se arrastavam na bol\u00e9ia dos bondes antigos para escapar do cobrador. Um jornalismo a reboque das vers\u00f5es oficiais dos fatos se reflete nos textos, que est\u00e3o cheios de \u201cno entender\u201d de fulano. Quem escreve \u201cno entender\u201d participa do cerco da mediocriade. Para romp\u00ea-lo, s\u00f3 com jornalista competente, o que inclui f\u00f4lego, preparo e talento.<\/p>\n<p>N\u00e3o exigem mais nada porque o espa\u00e7o editorial est\u00e1 prenhe de inutilidades. Concursos de beleza de adolescentes sub-nutridas, farto notici\u00e1rio sobre o vai e vem da publicidade, links nos shoppings em dia de compras, separa\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o de Jolie e Brad Pitt, o fen\u00f4meno Lady gaga. A\u00ed o espertalh\u00e3o do Steve Jobs lan\u00e7a o mil\u00e9simo badulaque eletr\u00f4nico, cada vez maior (daqui a pouco chegam ao cinemascope) e todos acham o supra-sumo da cocada preta.<\/p>\n<p>O jornalismo n\u00e3o pode ficar nas m\u00e3os do Steve Jobs ou da Microsoft. Mas sim nas m\u00e3os do jornalista que luta o bom combate. A emerg\u00eancia de novas ferramentas n\u00e3o elimina o acervo acumulado na profiss\u00e3o. Mas idade n\u00e3o \u00e9 virtude e a an\u00e1lise pode partir de todo tipo de jornalista. Instaure-se a interlocu\u00e7\u00e3o para exercemos um papel nas mudan\u00e7as<\/p>\n<p>A experi\u00eancia precisa ser convocada para a an\u00e1lise. N\u00e3o basta passar uma vida nas reda\u00e7\u00f5es e retirar-se.O jornalismo precisa de informa\u00e7\u00e3o sobre si mesmo. N\u00e3o se pode deixar esse trabalho na m\u00e3o de quem n\u00e3o sabe o que \u00e9 uma reda\u00e7\u00e3o. A atividade jornal\u00edstica deve ser objeto da investiga\u00e7\u00e3o de quem produz. A an\u00e1lise emp\u00edrica do of\u00edcio faz falta. Chega de comunic\u00f3logos e consultores .<\/p>\n<p>O desafio \u00e9 grande. Um texto nunca fica pronto. Sempre \u00e9 poss\u00edvel reescrever. Antes, as vers\u00f5es iam para o lixo. Agora elas coexistem, simult\u00e2neas, na internet. O prazer da leitura s\u00f3 voltar\u00e1 aos jornais quando o talento for hegem\u00f4nico e a mediocridade perder todo o poder.<\/p>\n<p>A ferramenta mais poderosa do jornalismo ainda \u00e9 a alfabetiza\u00e7\u00e3o. Quem usa &#8220;por conta, sinaliza, dia desses&#8221; n\u00e3o tem iPad que conserte. Precisamos nos livrar de alguns v\u00edcios que tomaram conta da atividade jornal\u00edstica. Por exemplo: o andar da reportagem ao lado da fonte at\u00e9 o n\u00facleo do tema \u00e9 falso, combinado antes. Quando o (a) rep\u00f3rter de TV convida a fonte a caminhar junto at\u00e9 o assunto, \u00e9 sinal que a narrativa linear ainda domina, entre n\u00f3s, a m\u00eddia visual.<\/p>\n<p>\u00c9 como o cumprimento entre apresentadores. Eles j\u00e1 se encontraram v\u00e1rias vezes antes, mas se dizem bom dia quando v\u00e3o ao ar. O notici\u00e1rio come\u00e7a a mentir a\u00ed.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s \u00c9 chato falar dessas coisas, pois j\u00e1 tem muito assunto mala exigindo nossa aten\u00e7\u00e3o. Mas pensar sobre nossa profiss\u00e3o deve fazer parte da atividade, sob pena de deixarmos um vazio que logo \u00e9 preenchido pelos oportunistas, que acabam ganhando os tubos para pontificar obviedades. Quem faz, sabe, e deve dizer. 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