{"id":200,"date":"2005-05-26T22:56:34","date_gmt":"2005-05-27T00:56:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=200"},"modified":"2009-12-21T20:11:40","modified_gmt":"2009-12-21T22:11:40","slug":"o-vigia-do-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-vigia-do-mar","title":{"rendered":"O VIGIA DO MAR"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A realidade do pescador \u00e9 a brusca mudan\u00e7a, o rochedo que aflora, o sumidouro, o ro\u00e7ar de um monstro, a mistura do vento, o peixe maior do que os bra\u00e7os. Ele vive diante da oportunidade perdida, da hist\u00f3ria afundada no tempo, na curva da onda batizada de Iemanj\u00e1, na tenta\u00e7\u00e3o sonora em forma de sereia. O pescador perde a forma para adaptar-se \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es mutantes da paisagem. Sua percep\u00e7\u00e3o sofre com esse penoso exerc\u00edcio e por isso n\u00e3o \u00e9 convincente para quem vive fora do seu mundo. Mas ele sabe o quanto pode se enganar, principalmente quando fica de olho na \u00e1gua para vislumbrar a presa. Sua salva\u00e7\u00e3o \u00e9 contar com o apoio do mais preparado dos seus pares, aquele que vive no alto do morro, s\u00f3 e desperto. \u00c9 o vigia do mar. Ele v\u00ea cardume no escuro e d\u00e1 o alarme quando todos est\u00e3o dormindo. Visitei um velho vigia um dia desses, no Muqu\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Ch\u00e1cara<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p>O homem cultiva orqu\u00eddeas e me contou v\u00e1rias hist\u00f3rias do tempo em que detectava tainha para os pescadores das praias de ingleses, Mo\u00e7ambique, Santinho. Tinha esperan\u00e7a que eu levasse alguma de suas raridades, mas a ilha \u00e9 prudente na circula\u00e7\u00e3o da moeda e todos vivem no aperto, aguardando a chegada de turistas. Ele nos mostrou sua cole\u00e7\u00e3o, que vai florir no ver\u00e3o e que chega at\u00e9 o p\u00e9 do morro. Sua ch\u00e1cara come\u00e7a bem rente \u00e0 rua, num velho engenho onde vive. L\u00e1 impera o grande forno e o fog\u00e3o de pedra, alto. Sua esposa varre o ch\u00e3o com vassoura de folhas catadas no quintal e faz caf\u00e9 de chaleira amassada, com gosto e aroma fortes. Os olhinhos apertados do velho me fuzilavam enquanto desfiava suas hist\u00f3rias. Fala r\u00e1pido demais e n\u00e3o d\u00e1 bola se o interlocutor n\u00e3o tem a m\u00ednima id\u00e9ia de v\u00e1rias palavras e express\u00f5es que usa para descrever seu of\u00edcio. Garante que v\u00ea cardume de tainha em noite sem lua e n\u00e3o \u00e9 o barulho ou a forma diferente da superf\u00edcie do mar que d\u00e1 a pista. \u00c9 algo muito mais profundo, que s\u00f3 o vigia sabe, e que n\u00e3o conta para ningu\u00e9m, pois esse \u00e9 o segredo mais bem guardado desses mestres tratados com rever\u00eancia pelos outros pescadores. Uma col\u00f4nia de pesca depende da habilidade do seu vigia e se ele for bom \u00e9 poss\u00edvel colher toneladas num s\u00f3 arrast\u00e3o. A palavra mais usada pelo velho \u00e9 peixe. Ele diz peixe para tudo, usando-a como costura de causos sem fim, quando costumava surpreender os incr\u00e9dulos que viviam dizendo que ele j\u00e1 estava ultrapassado, n\u00e3o enxergava mais nada. Mas o vigia n\u00e3o enxerga, ele simplesmente sabe.<\/p>\n<p><strong>Mestre<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p>O velho ri ao lembrar que um desses incr\u00e9dulos estava falando asneira enquanto o peixe amea\u00e7ava ro\u00e7ar a perna dele. O cardume se alvoro\u00e7ava perto do rochedo e a assombra\u00e7\u00e3o da sua presen\u00e7a era notada pelo vigia bem na beira. \u00c9 a cor do mar que muda? pergunto, e ele ri. O mar fica marrom, vermelho, borbulhante, dizem os leigos. O vigia, entretanto, v\u00ea o cardume de tainha quando o mar est\u00e1 calmo e tudo parece normal. Por isso h\u00e1 respeito na voz dos que se referem ao mestre. Fomos mais tarde procurar outros vigias e abordamos um grupo sentado em frente a um barraco que guardava barcos. Pergunto mas ningu\u00e9m me responde. Invoco ent\u00e3o o nome pr\u00f3prio da pessoa procurada e digo a senha: pronuncio o nome do mestre, que me deu a dica. Todos levantam o olhar e as caras mudam. Imediatamente apontam com todos os dedos o vigia deles, o que est\u00e1 atualmente na ativa, e que fica de olho no mar ao lado de outro companheiro . S\u00e3o dois de plant\u00e3o. O mestre era solit\u00e1rio. Pegava uma garrafa pequena de \u00e1gua e ia para o seu posto. O sr. era um bom pescador? pergunto novamente. Nunca pesquei, diz ele, mas sempre comi peixe. Sou da lavoura, planto para comer. Ou pelo menos plantava. Hoje est\u00e1 tudo proibido, n\u00e3o se pode nem colher um p\u00e9 de mandioca. Esses dias um menino foi vender mandioca num carrinho de m\u00e3o e um fiscal do Ibama disse que era proibido. Antigamente a gente plantava feij\u00e3o, comia e guardava. Mas n\u00e3o durava tr\u00eas meses. Antes de estragar, a gente fervia e dava para os porcos. Hoje voc\u00ea compra um quilo de feij\u00e3o no armaz\u00e9m e o gr\u00e3o pode durar anos. Est\u00e1 tudo envenenado. Precisamos pagar pelo alimento e ainda comemos veneno.<\/p>\n<p><strong>Riso<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p>Em cima da porta que d\u00e1 para o orquid\u00e1rio, h\u00e1 uma tainha aberta ao meio, secando ao sol. Ele recebe presentes dos pescadores ainda agradecidos. \u00c0s vezes chega um rep\u00f3rter e fotografa suas orqu\u00eddeas. Ou um estudioso alem\u00e3o que nunca viu coisa igual e sai feliz com as novas esp\u00e9cies. Ele \u00e9 famoso, mas continua simples, jamais humilde. O velho vigia \u00e9 o especialista em sua arte, o olho enfeiti\u00e7ado que enxerga assombra\u00e7\u00e3o. Fa\u00e7a perguntas e veja como ele ri. Um mestre n\u00e3o aceita perguntas, ele sabe o que falar. Por isso fala sem parar e eu escuto por horas. Saio ent\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao mar. As gaivotas ficam de sentinela. O mar est\u00e1 para peixe? Quem sabe \u00e9 o vigia e seus aprendizes. \u00c9 poss\u00edvel aprender o of\u00edcio? O velho ri. Essas pessoas fazem cada pergunta&#8230; Quer mais um caf\u00e9? Vai levar uma orqu\u00eddea?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A realidade do pescador \u00e9 a brusca mudan\u00e7a, o rochedo que aflora, o sumidouro, o ro\u00e7ar de um monstro, a mistura do vento, o peixe maior do que os bra\u00e7os. 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