{"id":204,"date":"2009-05-27T23:00:03","date_gmt":"2009-05-28T01:00:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=204"},"modified":"2009-12-21T00:50:33","modified_gmt":"2009-12-21T02:50:33","slug":"o-dragao-de-jade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-dragao-de-jade","title":{"rendered":"O DRAG\u00c3O DE JADE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Um mergulhador desenterrou do fundo do mar uma j\u00f3ia m\u00e1gica, o Drag\u00e3o de Jade. Tem o tamanho de um punho fechado e \u00e9 todo esculpido na gema preciosa. O drag\u00e3o est\u00e1 sobre um pedestal e no espa\u00e7o entre essa base e a barriga cabe os dedos de uma pessoa. Foi um pux\u00e3o bem nesse v\u00e3o que arrancou o objeto de onde estava, cravado numa rocha, mas que, n\u00e3o se sabe bem o motivo, se soltou facilmente . O resultado foi o terremoto que jogou o mar contra a \u00c1sia. S\u00f3 quem conhecia o segredo era um velho moribundo, v\u00edtima do maremoto. Ele n\u00e3o queria morrer e decidiu falar o que sabia para dois desclassificados, que o amea\u00e7avam e estavam divertindo-se saqueando hot\u00e9is destru\u00eddos, turistas mortos, vilas abandonadas, ilhas fantasmas.<\/p>\n<p><strong>O ENCONTRO<\/strong> &#8211; Tamil e Kailash ficaram amigos gra\u00e7as ao consumo de drogas pesadas. Afundaram-se na hero\u00edna e no \u00f3pio. Foram retirados do torpor pela trag\u00e9dia, que fez quase 200 mil mortos. Animaram-se com as possibilidades de enriquecimento e sa\u00edram a campo. Tinham escapado porque gostavam de ficar isolados em morros e, como foram testemunhas do horror quando estavam bem altos, decidiram que aquele era um evento de sorte. Ca\u00edram direto nas ru\u00ednas onde os turistas se amontoavam e l\u00e1 come\u00e7aram a recolher tudo que \u00e9 tipo de cacareco: brincos sujos, celulares rotos, restos de c\u00e2maras digitais, algum dinheiro, mas n\u00e3o o suficiente. Tamil estava com 17 anos, mas aparentava trinta. Andava aos andrajos, tinha vasta cicratiz na cara e nascera em fam\u00edlia muito pobre. Por um tempo participou da gera\u00e7\u00e3o de subempregos do turismo internacional carregando senhoras gordas na garupa, quando era tratado como elefante de bolso. Riam, as canalhas, e foi por isso que ele resolveu dar um tempo para dedicar-se ao consumo do que havia de mais potente. Foi f\u00e1cil: como era uma esp\u00e9cie de avi\u00e3o para endinheirados cheiradores e fumadores, guardava algo para si e n\u00e3o dividia com ningu\u00e9m. Fez uma exce\u00e7\u00e3o para Kailash, filho de potentados locais que aos 15 anos revoltou-se contra uma puni\u00e7\u00e3o escolar e partiu para algo mais divertido, como fugir da pol\u00edcia junto com Tamil e repartir o mesmo sonho de um golpe definitivo que mudaria o destino. Isso aconteceu quando encontraram o velho moribundo. Queriam saque\u00e1-lo tamb\u00e9m, mas algo naquele olhar fez os dois vagabundos parar.- Eu sei de uma coisa que far\u00e1 de voc\u00eas ricos, disse o velho.Os dois escutavam de boca aberta.- Mas voc\u00eas precisam me poupar.- N\u00e3o te mataremos, mentiu Tamil. Diga o que tem. Se for coisa boa, te deixaremos aqui. Se for fria, te jogaremos um caminh\u00e3o de lixo em cima.<\/p>\n<p><strong>LENDA<\/strong> &#8211; O velho ent\u00e3o contou a lenda do Drag\u00e3o de Jade e como a trag\u00e9dia foi desencadeada. O mergulhador tirou a j\u00f3ia do fundo do mar e voltou para seu barco. Estava admirando a maravilha quando a tsunami pegou-o em cheio. A j\u00f3ia, que valia milh\u00f5es, perdeu-se na floresta, em algum ponto alto do pa\u00eds.- Onde, onde? perguntaram os dois bandidos.- N\u00e3o sabemos, disse o velho. Precisamos encontr\u00e1-la para devolver ao lugar que pertence. Sen\u00e3o novo terremoto vir\u00e1 e tudo ser\u00e1 destru\u00eddo.- Conversa fiada, disse Tamil. Para que serve essa hist\u00f3ria? Ningu\u00e9m sabe onde est\u00e1 a j\u00f3ia e se a gente encontrar vamos ter que colocar no lugar de origem. Quem vai pagar para uma bosta dessas?O velho levantou a m\u00e3o tr\u00eamula:- Quem encontrar o Drag\u00e3o de Jade ter\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o todos os tesouros do mundo.Kailash caiu na gargalhada.- Que besteira! O mergulhador est\u00e1 aonde hoje? Sumiu no meio da merda e da lama.E os dois come\u00e7aram a bater no velho. Iam mat\u00e1-lo.- Depois que o Drag\u00e3o \u00e9 retirado a primeira vez, disse o velho, e essa foi a primeira vez que aconteceu em muitos milhares de anos, quem ach\u00e1-lo ter\u00e1 a riqueza e a felicidade. O primeiro pux\u00e3o \u00e9 a Hidra, o segundo \u00e9 a Fortuna. Mas para ter direito a essa montanha de ouro \u00e9 preciso colocar o Drag\u00e3o de volta, sen\u00e3o a morte os amea\u00e7ar\u00e1.Os dois ficaram ent\u00e3o em sil\u00eancio.- E como vamos saber qual \u00e9 o lugar? perguntaram.- O drag\u00e3o dir\u00e1, disse o velho, e morreu.<\/p>\n<p><strong>MAR\u00c9<\/strong> &#8211; Tamil e Kailash empreenderam longa viagem pa\u00eds adentro, inclusive montando em lombo de elefante, para achar o precioso objeto. No caminho, chegaram a se apaixonar pela mesma camponesa. Mas nenhum dos dois ganhou a parada. Eles abandonaram o amor por uma pista falsa e foram parar num templo budista encravado no teto do mundo. L\u00e1, Kailash encontrou seu tio e decidiu virar monge. Tamil ficou furioso e acusou o amigo de obrig\u00e1-lo a fazer aquela viagem s\u00f3 porque ele queria encontrar a salva\u00e7\u00e3o na religi\u00e3o, quando o certo era encontrar o drag\u00e3o.- Essa merda nunca existiu, gritou para o traidor. Voc\u00ea comprou aquele velho para mentir.Kailash n\u00e3o respondia, s\u00f3 juntava as m\u00e3os e se curvava, em tom de despedida. Tamil fez ent\u00e3o a longa viagem de volta \u00e0 praia e l\u00e1 ficou remoendo seu \u00f3dio enquanto olhava a \u00e1gua azul celeste se espraiar at\u00e9 o horizonte. De repente, o mar encolheu. Peixes saltavam no leito seco do mar e, misturado na areia que se descortinava em p\u00e2nico, surgiu o brilho fixo de uma pequena estrela enterrada parcialmente. Tamil correu at\u00e9 l\u00e1. Tinha encontrado enfim o Drag\u00e3o de Jade. Sabia o que significava o encolhimento do mar: o efeito funda, em que a \u00e1gua toma f\u00f4lego para virar uma grande onda gigante, ou v\u00e1rias delas. Mas n\u00e3o teve d\u00favidas: deu um safan\u00e3o e saiu correndo, enquanto a \u00e1gua do mar se precipitava atr\u00e1s dele. Tamil foi jogado contra a praia com viol\u00eancia e, agarrado ao seu tesouro, viu que estava aos p\u00e9s de um pequeno lord, de t\u00fanica at\u00e9 os p\u00e9s, tran\u00e7a atr\u00e1s da cabe\u00e7a raspada, chapeuzinho redondo no alto. O menino sorria.- Encontraste meu drag\u00e3ozinho, disse o garoto.Tamil, abobalhado, entregou a j\u00f3ia de vidro verde na m\u00e3o do pequeno nobre, j\u00e1 que vislumbrava as grossas botas dos seguran\u00e7as ao redor. Levantou-se e viu que toda a comitiva, com o pr\u00edncipe \u00e0 frente, sorria para ele.- A mar\u00e9 te escangalhou todo, disse o menino, provocando gargalhada geral.Tamil, tr\u00f4pego, bobo, puxando uma perna e com o olho direito completamente tapado pela cicatriz inflamada foi seguindo aquela troupe, que a toda hora voltava a cabe\u00e7a para encar\u00e1-lo e sorrir. Foi a primeira vez que sorriram para Tamil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um mergulhador desenterrou do fundo do mar uma j\u00f3ia m\u00e1gica, o Drag\u00e3o de Jade. Tem o tamanho de um punho fechado e \u00e9 todo esculpido na gema preciosa. O drag\u00e3o est\u00e1 sobre um pedestal e no espa\u00e7o entre essa base e a barriga cabe os dedos de uma pessoa. Foi um pux\u00e3o bem nesse v\u00e3o que arrancou o objeto de onde estava, cravado numa rocha, mas que, n\u00e3o se sabe bem o motivo, se soltou facilmente . 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