{"id":2100,"date":"2010-05-17T22:16:22","date_gmt":"2010-05-18T01:16:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2100"},"modified":"2010-05-17T22:16:22","modified_gmt":"2010-05-18T01:16:22","slug":"obrigacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/obrigacoes","title":{"rendered":"OBRIGA\u00c7\u00d5ES"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 obrigat\u00f3rio que o filme infantil cl\u00e1ssico tenha pelo menos um urso. Assim como n\u00e3o h\u00e1 thriller sem que um caminh\u00e3o ba\u00fa se atravesse no caminho de um carro em fuga. Ou terror sem vampiro light, desses com caninos de silicone fazendo volume no l\u00e1bio superior. Ou ainda com\u00e9dia rom\u00e2ntica que n\u00e3o inclua a corridinha no final, quando cai a ficha de um dos amantes. Drama, todo mundo j\u00e1 viu: algu\u00e9m sabe como o outro se sente. Faroeste sem duelo final no meio das pedras tamb\u00e9m n\u00e3o se admite. E quando o g\u00eanero n\u00e3o se define, pode apostar: tudo acaba no tribunal.<\/p>\n<p>Literatura de auto-ajuda sem a palavra voc\u00ea em cada frase \u00e9 inadmiss\u00edvel. Best-seller sem escritor em crise s\u00f3 na pr\u00f3xima encarna\u00e7\u00e3o. Poesia que n\u00e3o seja de vanguarda e contenha pelo menos um trocadilho merece o anonimato. E cr\u00f4nica que n\u00e3o discuta o desafio do papel ou tela em branco \u00e9 o mesmo que nada. Tamb\u00e9m n\u00e3o deve deixar passar trabalho acad\u00eamico que n\u00e3o seja apenas cita\u00e7\u00e3o do que j\u00e1 foi escrito. Ou debate que n\u00e3o respeite a opini\u00e3o alheia enquanto todos se abaixam para pegar as ferramentas.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois tipos de retorno quando voc\u00ea escreve sua opini\u00e3o e publica. Um \u00e9 a indiferen\u00e7a, que dura at\u00e9 o limite do insuport\u00e1vel. Outro \u00e9 a bola quadrada, que devolve distorcido tudo o que \u00e9 dito. Por isso tanto cuidado na hora de produzir alguma coisa. \u00c9 preciso seguir os tr\u00e2mites, cumprir com as obriga\u00e7\u00f5es para n\u00e3o ter problemas. Ningu\u00e9m vai reclamar de um lugar comum, a n\u00e3o ser os implicantes.<\/p>\n<p>Vi esses tempos uma seleta de clich\u00eas no cinema. Um deles \u00e9 que o carro nunca pega de primeira quando o abismo se aproxima devorando tudo e s\u00f3 resta a fam\u00edlia do her\u00f3i numa camioneta velha. H\u00e1 outros como a conversa fiada no desfecho da trama, quando o bandido perde tempo dando explica\u00e7\u00f5es para a v\u00edtima. Em vez de atirar, ele bate papo. Acaba dan\u00e7ando.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que existem poucas solu\u00e7\u00f5es de narrativa. Quando vejo produ\u00e7\u00f5es antigas, acabo descobrindo a origem de uma s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es reproduzidas hoje. E se for mais fundo, as sementes est\u00e3o no velho preto e branco mudo. Que, por sua vez, tomou emprestado dos folhetins dos s\u00e9culos anteriores.<\/p>\n<p>Cria\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa rara e, de tanto ser repetida, acaba frustrando o espectador ou leitor. \u00c9 terr\u00edvel: a emo\u00e7\u00e3o acaba n\u00e3o pegando, rateia. Eu sei como voc\u00ea se sente.<\/p>\n<p><em> Cr\u00f4nica publicada no\u00a0 dia 11 de maio de 2010, no caderno Variedades, do Di\u00e1rio Catarinense<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s \u00c9 obrigat\u00f3rio que o filme infantil cl\u00e1ssico tenha pelo menos um urso. Assim como n\u00e3o h\u00e1 thriller sem que um caminh\u00e3o ba\u00fa se atravesse no caminho de um carro em fuga. Ou terror sem vampiro light, desses com caninos de silicone fazendo volume no l\u00e1bio superior. 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