{"id":2131,"date":"2010-06-17T18:11:53","date_gmt":"2010-06-17T21:11:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2131"},"modified":"2010-06-17T18:11:53","modified_gmt":"2010-06-17T21:11:53","slug":"o-gado-ideologico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-gado-ideologico","title":{"rendered":"O GADO IDEOL\u00d3GICO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Ideologia deveria ser instrumento pol\u00edtico de pessoas esclarecidas, mas n\u00e3o passa de disputa de osso no festim da sobreviv\u00eancia. Perdeu seu encanto quando pertencia \u00e0 utopia e n\u00e3o passou no teste do poder. No fundo, a ideologia pregava o que afinal se concretizou nos governos gerados por ela. E n\u00e3o falo apenas da chamada esquerda, mas de todo o espectro do rebanho das id\u00e9ias aparelhadas, a servi\u00e7o de uma pr\u00e1xis sinistra. Ser\u00e1 incompet\u00eancia das id\u00e9ias que for\u00e7osamente abrem a m\u00e3o da \u00e9tica que tanto pregaram no momento em que sentam em qualquer trono? Ou ser\u00e1 que os indiv\u00edduos conseguem apenas passar um verniz ideol\u00f3gico na brutalidade que \u00e9 a nossa ess\u00eancia?<\/p>\n<p>Hoje a ideologia atingiu o mais alto status da cretinice. Voc\u00ea n\u00e3o pode virar para o lado que ser\u00e1 acusado de alguma coisa. A ideologia tenta formatar uma coer\u00eancia entre a causa palestina e o Chavez, ou o massacre da flotilha da paz e o imperialismo. Denunciar o mortic\u00ednio de um lado significa que voc\u00ea optou pelo advers\u00e1rio. Se bater em Dilma, te serram. Se bater em Serra, te limam. N\u00e3o \u00e9 apenas voto \u00fatil, \u00e9 vida in\u00fatil. Para que pensar se no fundo temos de obedecer \u00e0 partilha do pir\u00e3o na fogueira ancestral da obscuridade? Para que tanta forma\u00e7\u00e3o, leitura estudo se somos incapazes de nos emocionar ao vivo, na comunh\u00e3o do mesmo territ\u00f3rio?<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que somos gado da ideologia. Estamos indo para o matadouro do esp\u00edrito, porque tudo foi explicado, justificado. Todos sabem de antem\u00e3o o que qualquer evento significa, basta seguir os sinais exteriores. As evid\u00eancias de nada servem. O que vale \u00e9 o lugar onde voc\u00ea ocupa no front. Esse \u00e9 um assunto cavernoso, que fez grande estrago quando o cineasta alem\u00e3o Uli Edel lan\u00e7ou Der Baader Meinhof Komplex, que foi indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009.<\/p>\n<p>\u00c9 um tremendo filme, com produ\u00e7\u00e3o caprichada e pesada, que resgata a luta de alguns cidad\u00e3os de classe m\u00e9dia que encarnaram a vanguarda da luta anti-imperialista no final dos anos 60 e acabaram caindo para a clandestinidade da guerrilha. Foi mais ou menos o que aconteceu no Brasil e em v\u00e1rias partes do mundo, no Uruguai com os Tupamaros, entre muitos outros exemplos. Na \u00e9poca fazia sentido: todos os canais normais se fecharam com a sucess\u00e3o de ditaduras e a sa\u00edda foi apelar para a ignor\u00e2ncias. Era a guerra contra os invasores do Vietn\u00e3, os crimes do Oriente M\u00e9dio, a domina\u00e7\u00e3o da Europa pela Am\u00e9rica vitoriosa etc.<\/p>\n<p>Hoje, visto isso tudo de longe, perguntamos: existe condi\u00e7\u00f5es de mostrar como realmente foi? Senti no filme um clima de anacronismo, em que os terroristas se misturavam \u00e0 rebeli\u00e3o dos costumes, com a revolu\u00e7\u00e3o sexual cruzando com a guerrilha, o que em tese daria charme aos lutadores. Mas o cinema est\u00e1 vivo no filme. O que se v\u00ea na tela \u00e9 o mortic\u00ednio, a brutalidade, a radicaliza\u00e7\u00e3o crescente de algumas pessoas que se enfrentavam diariamente por motivos de id\u00e9ias e m\u00e9todos e que acabaram na pris\u00e3o, mortos em sua maioria.<\/p>\n<p>Houve uma rea\u00e7\u00e3o violenta contra o filme na Alemanha, em que os descendentes das vitimas do grupo se insurgiram contra o apoio dado pelo governo alem\u00e3o \u00e0 obra, que teria desvirtuado os fatos. O problema \u00e9 que jamais poderemos reproduzir os fatos, seja num filme, num livro ou por qualquer outro meio. Como cansei de falar aqui, a Hist\u00f3ria n\u00e3o pode ser vista a olho nu. Hist\u00f3ria \u00e9 fruto de pesquisa, an\u00e1lise, interpreta\u00e7\u00e3o. \u00c9 produ\u00e7\u00e3o de pensamento e n\u00e3o frame para a testemunha ocular.<\/p>\n<p>A queda do muro de Berilim em 1989, marco da mudan\u00e7a do mundo, desmoralizou toda essa luta, ou ela subsiste com a mesma embocadura? Vemos a guerrilha do narcotr\u00e1fico ativa, as radicaliza\u00e7\u00f5es imperando por todo o lado, mas aparentemente vivemos num embate de id\u00e9ias, mais do que confrontos armados, mesmo que a viol\u00eancia continue. O recente epis\u00f3dio do assassinato das pessoas que queriam romper o cerco criminoso de Gaza e a manipula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o por parte dos algozes me levam a pensar que afundamos cada vez mais nas contradi\u00e7\u00f5es e jamais seremos capaz de virar este jogo. Os ataques terroristas dos dois lados do conflito na sucess\u00e3o infinita de revides, e a mesma disposi\u00e7\u00e3o do lado palestino de querer impor percep\u00e7\u00f5es sobre as trag\u00e9dias, nos levam para a mesma conclus\u00e3o. O fato \u00e9 um s\u00f3: matou? Perdeu a raz\u00e3o, seja de que lado for.<\/p>\n<p>Resta revisitar o charme de lutas anteriores e firmar posi\u00e7\u00e3o em cima de ideologias engessadas? Ou acreditaremos que a paz na diferen\u00e7a poder\u00e1 triunfar, desde que acordemos para a necessidade de jamais apoiar o assassinato, por qualquer motivo ou justificativa. Abaixo a morte, viva o amor ao pr\u00f3ximo, alimento de um Deus que oferece o mito do corpo sagrado, impondo a conviv\u00eancia harm\u00f4nica e o esp\u00edrito habitado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Ideologia deveria ser instrumento pol\u00edtico de pessoas esclarecidas, mas n\u00e3o passa de disputa de osso no festim da sobreviv\u00eancia. Perdeu seu encanto quando pertencia \u00e0 utopia e n\u00e3o passou no teste do poder. No fundo, a ideologia pregava o que afinal se concretizou nos governos gerados por ela. 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