{"id":2137,"date":"2010-06-17T18:18:19","date_gmt":"2010-06-17T21:18:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2137"},"modified":"2010-06-17T18:18:19","modified_gmt":"2010-06-17T21:18:19","slug":"africa-adeus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/africa-adeus","title":{"rendered":"\u00c1FRICA, ADEUS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O que emociona na \u00c1frica do Sul \u00e9 a luta pela forma\u00e7\u00e3o da nacionalidade, expressa nas manifesta\u00e7\u00f5es do povo nas ruas e nas figuras do bispo Tutu e Mandela. Os cantos que estimularam e ilustram essa saga s\u00e3o como os blues americanos, a a\u00e7\u00e3o em busca da sobreviv\u00eancia e da supera\u00e7\u00e3o. Pena que no lugar deles o show de apresenta\u00e7\u00e3o da Copa destacou o rapismo pop global e a celebra\u00e7\u00e3o fake de uma \u00c1frica que n\u00e3o existe mais. O que h\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a hegemonia de etnias, mas a conviv\u00eancia entre os aparentemente desiguais, os que n\u00e3o podem mais se dividir pela apar\u00eancia, j\u00e1 que compartilham a mesma ess\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 nem a evoca\u00e7\u00e3o da ancestralidade, mas a expl\u00edcita apresenta\u00e7\u00e3o da modernidade em territ\u00f3rio outrora m\u00edtico.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo que escolhi para esta edi\u00e7\u00e3o \u00e9 o mesmo de um document\u00e1rio sobre o fim da era colonialista da \u00c1frica, quando as pot\u00eancias europ\u00e9ias se retiraram de l\u00e1. Mas agora ele significa outra coisa: esta Copa marca o fim da \u00c1frica como a perceb\u00edamos, a do Continente uno e indivis\u00edvel, com um s\u00f3 rosto. O que existem agora s\u00e3o pa\u00edses, com cidad\u00e3os de todas as ra\u00e7as e n\u00e3o tribos. O bispo Desmond Tutu disse no seu discurso na inaugura\u00e7\u00e3o da Copa que somos todos africanos. Simp\u00e1tico e uma quase verdade. Nem ele \u00e9 \u201cafricano\u201d no sentido antigo, mas sim sul-africano. Pertence a um pa\u00eds multi\u00e9tnico, consolidado depois de longo sofrimento e pelas m\u00e3os do seu grande l\u00edder Mandela, que tem nesta Copa seu emocionante canto de cisne.<\/p>\n<p>Nos despedimos da \u00c1frica dos saf\u00e1ris, dos elefantes, le\u00f5es e hipop\u00f3tamos, das tribos e tarzans, nos despedimos de uma imagin\u00e1rio obsoleto e mergulhamos nesse enigma de pa\u00edses como o da sede da Copa, al\u00e9m da Tanz\u00e2nia, Zimbabwe, Egito, Gana, Nig\u00e9ria e tudo o mais. L\u00e1 tem negro, mesti\u00e7o, branco, asi\u00e1tico. O negro predomina e continuar\u00e1 assim, definindo muita coisa, mas n\u00e3o da mesma forma. O que importa agora s\u00e3o as fronteiras e aquilo que emocionou nosso Professor Parreira, quando a multid\u00e3o saiu \u00e0s ruas na quarta-feira, dia 9 de junho, para celebrar a Copa: o sentimento de perten\u00e7a, o orgulho da nacionalidade, insumo principal da sobreviv\u00eancia de um povo como na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Adeus \u00c1frica dos rifles e lan\u00e7as, dos dentes de sabre, dos marfins e savanas. Ainda sobrevivem as guerras intermin\u00e1veis, de guerreiros que desrespeitam acordos, mas tudo isso est\u00e1 condenado ao passado. Ol\u00e1 \u00c1frica das grandes avenidas e metr\u00f3poles, da misturas de ra\u00e7as e credos, dos autom\u00f3veis e das cornetas. Adeus \u00c1frica que servia para tudo, para dizer que nossas ra\u00edzes est\u00e3o l\u00e1, quando nossas ra\u00edzes est\u00e3o em outro lugar, na cria\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es em que nos dividimos e nos abrigamos, como tendas de um infinito deserto. Mais do que no fundo do ermo, nascemos dessa mesma luta de construir um pa\u00eds. Adeus olhares formatados apenas em tambores, ol\u00e1 abra\u00e7o nesse espa\u00e7o que se mostra ao mundo com toda sua complexidade.<\/p>\n<p>Esse banzo de uma utopia africana n\u00e3o faz mais sentido, pois o que existe \u00e9 esse monte de gente invadindo sua tela, essa na\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m verde e amarela, a \u00c1frica do Sul, que da Africa antiga tem muita coisa, mas \u00e9 algo novo que nos traz de carona uma percep\u00e7\u00e3o fora dos preconceitos e v\u00edcios. \u00c9 com ela que teremos de lidar durante um m\u00eas e daqui para frente. \u00c1frica do Sul gelada, barulhenta, urbana. N\u00f3s, os brasileiros, com nossos Robinhos e Kak\u00e1s, Maicons e Gomes, com nosso perfil e forte sentimento de perten\u00e7a, que desenvolvemos ao logo do tempo para evitar a fragmenta\u00e7\u00e3o do pa\u00eds continente.<\/p>\n<p>\u00c1frica, adeus. Ol\u00e1, \u00c1frica do Sul, Tanz\u00e2nia, Gana, Nig\u00e9ria. Na\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o etnias. Culturas e n\u00e3o gens. Comportamentos e n\u00e3o destinos tra\u00e7ados. Aqui, o Brasil, territ\u00f3rio e conv\u00edvio, \u00e9, como esses pa\u00edses que entram em campo no nosso imagin\u00e1rio, o come\u00e7o de um outro mundo. Pertencemos a um pa\u00eds e n\u00e3o a um continente. Somos na\u00e7\u00f5es e vestimos a camisa para que nos identifiquem. Queremos o mesmo para os palestinos, os curdos, todos os povos que perderam seus pa\u00edses. Queremos que todos tenham esse privil\u00e9gio e esse direito: fronteiras, paz na diferen\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O que emociona na \u00c1frica do Sul \u00e9 a luta pela forma\u00e7\u00e3o da nacionalidade, expressa nas manifesta\u00e7\u00f5es do povo nas ruas e nas figuras do bispo Tutu e Mandela. 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