{"id":2144,"date":"2010-06-17T18:23:35","date_gmt":"2010-06-17T21:23:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2144"},"modified":"2010-06-17T18:23:35","modified_gmt":"2010-06-17T21:23:35","slug":"copa-2010-adidas-e-fifa-mudam-o-futebol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/copa-2010-adidas-e-fifa-mudam-o-futebol","title":{"rendered":"COPA 2010: ADIDAS E FIFA MUDAM O FUTEBOL"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Conseguiram enfim. N\u00e3o bastou jogar todo o poder no futebol no colo da publicidade, que coloca marca at\u00e9 na bunda dos jogadores no Brasileir\u00e3o. N\u00e3o bastou implantar uma pol\u00edtica extrativista de recursos naturais sugando craques prontos ou em potencial de todo mundo para abastecer os shows milion\u00e1rios na Europa. N\u00e3o bastou transformar o amor \u00e0 camisa em fideliza\u00e7\u00e3o de produtos ou inflar o valor dos craques dentro da l\u00f3gica da especula\u00e7\u00e3o financeira pirata e predat\u00f3ria. Tamb\u00e9m n\u00e3o bastou abafar esc\u00e2ndalos sucessivos de arbitragem, eternidade de cartolas nos cargos e monopoliza\u00e7\u00e3o total do jogo sob as ordens da Fifa. Precisou fazer mais. Precisou iniciar a desconstru\u00e7\u00e3o definitiva do futebol por meio da bola Jabulani.<\/p>\n<p>A Adidas fabrica a bola Jabulani na China (o nome africano \u00e9 s\u00f3 marketing), com m\u00e3o-de-obra escrava. Por custarem quase nada, os oper\u00e1rios chineses mant\u00eam o enriquecimento crescente de maganos como os donos da Nike, Adidas e outras multinacionais (n\u00e3o h\u00e1 corrup\u00e7\u00e3o na China? Toda essa bufunfa n\u00e3o azeita cargos importantes na ditadura chinesa?). Agora come\u00e7a a haver greve no imp\u00e9rio das quinquilharias e produtos fajutos.<\/p>\n<p>\u00c9 a maior tralha, porqueira, ou o que se diga dessa bola de pl\u00e1stico de supermercado ou de praia que caiu como um petardo no miolo da mais importante competi\u00e7\u00e3o de futebol do mundo. Vejam os frangos, o gol contra, a bola disparando miseravelmente com qualquer toque, voando para fora dos limites, atingindo arquibancadas, cruzando o campo com facilidade. Lembram como Pel\u00e9 deslumbrou a todos chutando a gol da linha intermedi\u00e1ria? Era dif\u00edcil fazer um lance desses com uma bola decente. Com a Jabulani, virou brincadeira.<\/p>\n<p>Adidas e Fifa querem que o futebol seja s\u00f3 show e n\u00e3o mais um jogo tradicional, com fundas ra\u00edzes no imagin\u00e1rio e identidade das na\u00e7\u00f5es, que \u00e9 a maior riqueza desse esporte e, paradoxalmente, est\u00e1 sendo jogado no lixo. Mudaram o peso, fizeram a bola com oito gomos e n\u00e3o 32 para mudar o itiner\u00e1rio dos chutes. Todo mundo vai ter que se adaptar. O tiro est\u00e1 saindo pela culatra: como ningu\u00e9m consegue dominar o tro\u00e7o, s\u00e3o poucos os gols. Por enquanto, a atual gera\u00e7\u00e3o de jogadores virou um bando de peladeiros, errando tudo, porque a porcaria escapa, por ser outra coisa, menos uma bola oficial de futebol. Mas notem o desprezo que vai atingir a forma\u00e7\u00e3o dos craques. Crian\u00e7as crescer\u00e3o com a merda da bola e s\u00f3 saber\u00e3o jogar com ela. Que tipo de jogadores ser\u00e3o? Facilmente manipul\u00e1veis, j\u00e1 que o futebol vai virar loteria, ganha quem tiver mais sorte tocando na quinquilharia.<\/p>\n<p>O desplante com que colocaram o principal objeto do jogo, a bola, numa Copa sem avisar ningu\u00e9m, sem que ningu\u00e9m soubesse o que aconteceria, \u00e9 um esc\u00e2ndalo sem precedentes. N\u00e3o adiantou os jogadores chiarem. Foram acusados de serem empregados da Nike, da\u00ed a reclama\u00e7\u00e3o. N\u00e3o foi levado em conta que nosso goleiro Julio C\u00e9sar tinha raz\u00e3o ao reclamar primeiro, Robinho sabia o que estava falando ao dizer que ela n\u00e3o prestava. Vemos o resultado nos jogos. A bola faz o que quer e todo mundo faz papel de palha\u00e7o. Ok, o goleiro ingl\u00eas Green j\u00e1 tinha tomado frango antes. Mas vejam como ele foi com seguran\u00e7a na bola e acabou sendo tra\u00eddo por ela.<\/p>\n<p>A Copa do Mundo \u00e9 um confronto entre nacionalidades. O que se usa nas arquibancadas e nas comemora\u00e7\u00f5es s\u00e3o as imagens que os pa\u00edses fazem de si mesmo e uns dos outros. Mas em campo vemos pessoas id\u00eanticas de qualquer pa\u00eds, com algumas varia\u00e7\u00f5es raciais, mas nem tanto, j\u00e1 que tem pele diferente em quase todos os times (com exce\u00e7\u00e3o das eugenias asi\u00e1ticas). A Copa, al\u00e9m de ser um up-grade, uma atualiza\u00e7\u00e3o sobre o esporte, \u00e9 tamb\u00e9m a prova de que n\u00e3o h\u00e1 mais diferen\u00e7as significativas. Tudo foi reduzido ao mesmo estilo de vida, apesar de serem nacionalidades bem marcadas, ditadas por fronteiras consolidadas, o que nos salva da barb\u00e1rie, por enquanto.<\/p>\n<p>Os povos diferem nas suas identidades nacionais, mas n\u00e3o no estilo de vida. Leis, bandeiras, h\u00e1bitos, geografias de um lado. Fast-food, internet, roupas esportivas de outro. No futebol as coisas se misturam. A modernidade mant\u00e9m tudo sob o mesmo jugo, repetindo inclusive as diversidades internas (popula\u00e7\u00f5es com v\u00e1rias etnias, por exemplo). Mas a cultura, a mem\u00f3ria e a viv\u00eancia em espa\u00e7os diferentes trabalham uma outra diversidade. \u00c9 complicado. Nas sele\u00e7\u00f5es, existem equipes que s\u00e3o legi\u00f5es estrangeiras. Isso diminui ainda mais as diferen\u00e7as dentro de campo.<\/p>\n<p>Mas a cr\u00f4nica esportiva, sem ter por onde pegar, e agarra a conceitos equivocados como caracter\u00edstica e detalhe. \u00c9 uma avalanche de caracter\u00edsticas e detalhes nas narra\u00e7\u00f5es e coment\u00e1rios. Os estilos de jogar se parecem, mas a percep\u00e7\u00e3o da m\u00eddia for\u00e7a a barra de que existem diferen\u00e7as gritantes. Para mim a base do que se joga hoje \u00e9 uma s\u00f3: prud\u00eancia, um s\u00f3 toque por jogador, sintonia radical nos passes, chuveirinho na \u00e1rea, contra-ataques. O que diferencia n\u00e3o \u00e9 o detalhe da jogada, mas o talento e a individualidade dos craques, que podem surgir em qualquer lugar. Mas n\u00e3o se pode centrar muito em determinadas estrelas. Ronaldinho Ga\u00facho n\u00e3o aconteceu em 2006, nem Eto\u00b4o estreou bem contra o Jap\u00e3o. Messi se saiu bem, mas n\u00e3o foi essa coisa toda que se esperou dele, por enquanto.<\/p>\n<p>Talvez nem Kak\u00e1 ou Robinho se destaquem. Minha aposta \u00e9 num reseva. Nilmar, mas isso \u00e9 s\u00f3 um palpite. O que me invoca \u00e9 a insist\u00eancia dos jornalistas em ficar medindo altura dos jogadores, como se futebol fosse basquete ou v\u00f4lei. Um deles chegou a dizer que o atacante alto nem precisou saltar para o cabeceio contra o gol. O cara se abaixou para cabecear! Esqueceram do Rom\u00e1rio, baixinho entre gringos altos, que levava a melhor.<\/p>\n<p>A Copa vai rolando. \u00c9 sempre bom ver, apesar do cornetismo militante, uma falsa tradi\u00e7\u00e3o na \u00c1frica do Sul, pois a moda da vuvuzuela foi inventada em 2001. Para mim, \u00e9 esp\u00edrito de porco ficar soprando o tro\u00e7o durante o jogo todo, atordoando geral. Muitos sul-africanos s\u00e3o contra, n\u00e3o apenas os estrangeiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Conseguiram enfim. N\u00e3o bastou jogar todo o poder no futebol no colo da publicidade, que coloca marca at\u00e9 na bunda dos jogadores no Brasileir\u00e3o. N\u00e3o bastou implantar uma pol\u00edtica extrativista de recursos naturais sugando craques prontos ou em potencial de todo mundo para abastecer os shows milion\u00e1rios na Europa. 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