{"id":2146,"date":"2010-06-17T18:25:25","date_gmt":"2010-06-17T21:25:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2146"},"modified":"2010-06-17T18:25:25","modified_gmt":"2010-06-17T21:25:25","slug":"a-numero-cinco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-numero-cinco","title":{"rendered":"A N\u00daMERO CINCO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>A bola de couro n\u00famero 5 era o Rolls-royce das pelejas esportivas dos tempos idos. Tinha o tamanho e o peso certo, toda costurada a m\u00e3o, pe\u00e7a de artesanato que servia de par\u00e2metro para campeonatos, torneios e amistosos. Era preciso reformular um campo inteiro para abrigar jogos com aquele objeto caro, raro e s\u00f3 acess\u00edvel aos endinheirados, filhinhos de papai ou obsessivos em geral. Era como passar no vestibular: quem aplicasse um chute certeiro no biro\u00e7o de ouro j\u00e1 era considerado craque do selecionado.<\/p>\n<p>O grosso solado de sua curvatura exibia a resist\u00eancia dos produtos intermin\u00e1veis daquela \u00e9poca, quando carro, geladeira, pul\u00f4ver, casaco ou sapato eram para toda a vida. Menos para n\u00f3s, petizes em fase de crescimento ostensivo, que tornavam obsoleto todo esfor\u00e7o de perenidade. A \u00fanica coisa que permanecia para sempre era a bola n\u00famero cinco, que exibia o carisma dos Stradivarius ou dos licores cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p>Era uma obra renascentista a ser exibida para olhos arregalados de garotos de rua aos molambos, os que ainda estavam na fase de bola de meia e no m\u00e1ximo ganhavam algo intermedi\u00e1rio, uma n\u00famero tr\u00eas, por exemplo, que n\u00e3o exigia respeito. Quando uma n\u00famero cinco aparecia nas redondezas, havia a suspens\u00e3o imediata de toda atividade para uma sess\u00e3o de admira\u00e7\u00f5es exclamativas.<\/p>\n<p>O grande perigo era algu\u00e9m muito ruim no drible ou no gol ganhar de presente, de modo imerecido, o que era desejado pelos bambas de todos quadrantes. O ritual ent\u00e3o era sempre o mesmo: o jogador med\u00edocre, mas abonado, era paparicado at\u00e9 afrouxar a guarda e soltar a belezura no meio do gado. Era o batismo de fogo, que tinha por objetivo estra\u00e7alhar, por vingan\u00e7a, o presente t\u00e3o ansiado. S\u00f3 quando todo o couro estava esfolado e os gomos se soltando nas costuras \u00e9 que devolviam, quase murcha, aquilo que outrora tinha conquistado o olhar guloso da turma.<\/p>\n<p>Era quando, em choro desatado, o chamb\u00e3o corria para debaixo da cama, a acariciar o que imaginara ser seu passaporte para a inclus\u00e3o. Mas tudo n\u00e3o passava de uma tarde de ilus\u00f5es. Porque a voca\u00e7\u00e3o e o destino eram coisas que escapavam de qualquer numera\u00e7\u00e3o e pertenciam a quem nascia para isso. Para quem dispunha daquele esp\u00edrito soberbo de um centroavante diante do goleiro em p\u00e2nico. Isso n\u00e3o se comprava na loja da esquina.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no dia 15 de junho de 2010, no caderno Variedades, do Di\u00e1rio Catarinense<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A bola de couro n\u00famero 5 era o Rolls-royce das pelejas esportivas dos tempos idos. Tinha o tamanho e o peso certo, toda costurada a m\u00e3o, pe\u00e7a de artesanato que servia de par\u00e2metro para campeonatos, torneios e amistosos. Era preciso reformular um campo inteiro para abrigar jogos com aquele objeto caro, raro e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2146"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2146"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2146\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2147,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2146\/revisions\/2147"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2146"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2146"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2146"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}