{"id":2158,"date":"2010-07-09T17:41:13","date_gmt":"2010-07-09T20:41:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2158"},"modified":"2010-07-09T17:41:13","modified_gmt":"2010-07-09T20:41:13","slug":"maracanazo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/maracanazo","title":{"rendered":"MARACANAZO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>Sem talento para o drible, fui afastado para a fun\u00e7\u00e3o de goleiro, onde permaneci at\u00e9 ficar taludo o suficiente para descobrir que n\u00e3o conseguiria peitar a carga dos atacantes daqueles tempos, em que os marmanjos eram criados a leite com nata e carne rec\u00e9m abatida.<\/p>\n<p>Quando o antibi\u00f3tico ainda era novidade e a vacina causava revolta, n\u00e3o existia todo esse aparato de salvar petizes sem condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia. A sele\u00e7\u00e3o natural colocava no pedregulho a brutalidade das chuteiras. Diante de um tropel de cavalaria, o arqueiro em d\u00favida sobre sua voca\u00e7\u00e3o para o esporte s\u00f3 tinha mesmo que tirar o time de campo.<\/p>\n<p>Antes disso, quando ainda \u00e9ramos franzinos, era poss\u00edvel exibir-se em lances favoritos, como catar no \u00e2ngulo ou interceptar o chute vindo da ponta, encaixando no ar o v\u00f4o arisco que iria cair na cabe\u00e7a de algu\u00e9m postado para matar. Mas a concorr\u00eancia, principalmente nos torneios oficiais do col\u00e9gio, n\u00e3o permitia que sa\u00edssemos da reserva, onde amarg\u00e1vamos tardes inteiras vendo os outros jogar. Duplamente exclu\u00eddos, s\u00f3 nos restava o ex\u00edlio absoluto: o futebol de sal\u00e3o, desprezado pelos mais fortes.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei por que chamam esse jogo hoje de futsal, que parece nome de purgante. Na \u00e9poca foi uma solu\u00e7\u00e3o honrosa, pois aos poucos os reflexos treinados na velocidade da pequena cancha chamavam a aten\u00e7\u00e3o das plat\u00e9ias, atra\u00eddas pelos craques que surgiam na nova modalidade. Sobrou ent\u00e3o para mim a honrosa posi\u00e7\u00e3o de defensor da sele\u00e7\u00e3o do col\u00e9gio, j\u00e1 que dev\u00edamos levar as cores nacionais para territ\u00f3rio estrangeiro, no outro lado do rio Uruguai.<\/p>\n<p>L\u00e1, los hermanos exerciam o chamado futebol su\u00ed\u00e7o, ou society, que tinha em comum o espa\u00e7o limitado e o n\u00famero reduzido de jogadores. A diferen\u00e7a estava no piso: o deles era gramado, o nosso de cimento. E tamb\u00e9m, na bola: em vez da pesada, fofa e cl\u00e1ssica que tinha formatado nossa arte, t\u00ednhamos uma esp\u00e9cie de jabulani de couro, pequena, leve , arisca e trai\u00e7oeira, que nos foi apresentada s\u00f3 no torneio, no momento decisivo.<\/p>\n<p>O resultado foi o desastre. Como acontece hoje na \u00c1frica, a desgra\u00e7ada batia no meu peito e voltava para o p\u00e9 argentino ou escapava das m\u00e3os, caindo no fundo do gol. Fui substitu\u00eddo de maneira humilhante. Tinha experimentado o meu maracanazo, aquele momento em que nossa vaidade pr\u00e9-vitoriosa se transforma numa derrota indefens\u00e1vel.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no dia 22 de junho de 2010, no caderno Variedades, do Di\u00e1rio Catarinense.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Sem talento para o drible, fui afastado para a fun\u00e7\u00e3o de goleiro, onde permaneci at\u00e9 ficar taludo o suficiente para descobrir que n\u00e3o conseguiria peitar a carga dos atacantes daqueles tempos, em que os marmanjos eram criados a leite com nata e carne rec\u00e9m abatida. 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