{"id":2229,"date":"2010-08-17T15:53:24","date_gmt":"2010-08-17T18:53:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2229"},"modified":"2010-08-17T15:53:24","modified_gmt":"2010-08-17T18:53:24","slug":"memoria-e-identidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/memoria-e-identidade","title":{"rendered":"MEM\u00d3RIA E IDENTIDADE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>Mem\u00f3ria incomoda quando o conterr\u00e2neo se afasta da cidade e depois se refere \u00e0 sua origem entre suspiros de saudade. Para quem fica, \u00e9 desconfort\u00e1vel ver seu ambiente ser identificado com o passado, desconectado completamente do mundo, como se este pertencesse apenas ao saudoso e n\u00e3o ao que continua no mesmo lugar, mas numa outra realidade. H\u00e1, claro, sobreviv\u00eancia de h\u00e1bitos, de pr\u00e9dios, de ruas, mas permanecer na cidade natal \u00e9 um assunto penoso abordado pelos que emigraram, os que n\u00e3o vivem mais ali e se enchem de mesuras para o que n\u00e3o entendem mais.<\/p>\n<p>Quando resgatamos o que se foi, \u00e9 preciso ter o cuidado de n\u00e3o identificar as lembran\u00e7as com a cidade de hoje, bem no miolo do movimento universal e contempor\u00e2nea em tudo e, em alguns casos, bem mais avan\u00e7ado no seu aspecto civilizat\u00f3rio. Hoje, cidades m\u00e9dias para pequenas s\u00e3o as j\u00f3ias da urbanidade, pois com a tecnologia estamos conectados com tudo e vivemos o fim daquele isolamento obrigat\u00f3rio que nos confinava no ermo. N\u00e3o \u00e9 mais preciso emigrar.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 fundamental se relacionar de alguma forma com a mem\u00f3ria, desde que n\u00e3o criemos ilus\u00f5es sobre ela nem, num golpe de anacronismo, fizermos transfer\u00eancias equivocadas entre o que vivemos e a realidade do lugar onde nascemos. A cidade mudou junto com o mundo e \u00e9 vizinha a tudo o que o outro acha ser exclusivo dele. O fato \u00e9 que a mem\u00f3ria se refere a um universo paralelo, o que convive conosco como uma presen\u00e7a determinante e n\u00e3o sabemos avaliar seu impacto no presente.<\/p>\n<p>No meu caso, fico invocado com os primeiros quatro anos de vida, dos quais tenho imagens n\u00edtidas de cenas que permanecem. Sonhei esses tempos com uma pra\u00e7a em Uruguaiana que n\u00e3o existia. Quando estive numa das feiras do livro, me apresentaram as imagens desse local que mudou, deixou de ser pra\u00e7a e virou outra coisa. A cena estava enterrada em mim como um tesouro inacess\u00edvel. Lembro de di\u00e1logos inteiros na minha fam\u00edlia e eu era ainda de colo. E misturo mudan\u00e7a de casa, cronologias, imagens reais que talvez tenham sido apenas imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que fazer desse acervo a n\u00e3o ser transformar em literatura, j\u00e1 que n\u00e3o domino a psicologia? \u00c9 o que tenho feito. Aos poucos, aquilo que ficou forma um mosaico intacto, onde emerge a cidade em seu esplendor vista pela inf\u00e2ncia. Os desfiles, as roupas, os gestos, as personagens, as hist\u00f3rias, tudo conflui para uma grande celebra\u00e7\u00e3o interna, muito mais rica do que qualquer romance. Esse \u00e9 o lugar onde moramos sempre? Ou tudo n\u00e3o passa de inven\u00e7\u00e3o do texto, da cr\u00f4nica que procura cumprir sua tarefa, da vontade de compartilhar com os conterr\u00e2neos o muito que perdemos nos fios entrela\u00e7ados de uma vida longa?<\/p>\n<p>Mem\u00f3ria, emo\u00e7\u00e3o, vida: o tempo \u00e9 a palavra cora\u00e7\u00e3o. Nela carregamos o que h\u00e1 de mais precioso e n\u00e3o se trata de bairrismo ou saudade, mas de identidade, a que expomos todos os dias. Nela nos reconhecem, n\u00f3s os habitantes da cidade que sumiu no tempo e convive com a existente hoje, como duas faces do mesmo rosto.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica originalmente publicada no jornal Momento de Uruguaiana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Mem\u00f3ria incomoda quando o conterr\u00e2neo se afasta da cidade e depois se refere \u00e0 sua origem entre suspiros de saudade. 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