{"id":2376,"date":"2010-10-26T19:28:08","date_gmt":"2010-10-26T21:28:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2376"},"modified":"2010-10-26T19:28:08","modified_gmt":"2010-10-26T21:28:08","slug":"grenal-a-guerra-centenaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/grenal-a-guerra-centenaria","title":{"rendered":"GRENAL, A GUERRA CENTEN\u00c1RIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nGrenal \u00e9 Grenal, ou seja, guerra. Vale tudo, desde que o advers\u00e1rio perca sua louca pretens\u00e3o de existir. Tem hino, marcha, farda, bandeira, p\u00f3lvora, bomba. Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a. Nesse conflito centen\u00e1rio que ocupa gera\u00e7\u00f5es de torcedores dos dois principais times ga\u00fachos, vit\u00f3ria n\u00e3o significa armist\u00edcio. E derrota jamais \u00e9 rendi\u00e7\u00e3o. Os soldados nunca abandonam o jogo, nem voltam para casa: est\u00e3o sempre no front, vestidos para matar. A camiseta do time da voca\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um ornamento, \u00e9 a primeira pele. Depois vem a outra, a que sofre arranh\u00f5es e contus\u00f5es. No est\u00e1dio, no bar, nas ruas, nos trens, o azul do Gr\u00eamio e o vermelho do Internacional sangram mais do que os ferimentos reais.<\/p>\n<p>Por isso n\u00e3o existe Grenal amistoso, jogo que significa sempre uma decis\u00e3o. No cora\u00e7\u00e3o de cada torcedor, a verdade d\u00f3i: nenhum dos dois compartilha territ\u00f3rios, n\u00e3o convive em acordos t\u00e1citos de fronteiras. Cada um tem pleno dom\u00ednio dos espa\u00e7os. O est\u00e1dio \u00e9 um s\u00f3, o Ol\u00edmpico gremista, ou o Gigante da Beira Rio colorado. S\u00e3o realidades incomensur\u00e1veis entre si. Foram constru\u00eddos sob vaias. S\u00e3o vistos, em cada lado, como fantasias megal\u00f4manos de inimigos convencidos de que fazem parte do futebol. Neles, o que se disputa n\u00e3o s\u00e3o torneios, campeonatos, t\u00edtulos, mas a prova de que os outros n\u00e3o passam de fic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata, portanto, de um estado de esp\u00edrito definido pela divis\u00e3o, mas hegem\u00f4nico em cada minuto do dia.<\/p>\n<p>Essa certeza absoluta de que o time do cora\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00fanico e que na outra margem s\u00f3 existem lendas, n\u00e3o significa que as pessoas se trucidem quando se avistam, mesmo que isso possa ter acontecido \u00e0s vezes nesse s\u00e9culo de Hist\u00f3ria. A guerra \u00e9 no sistema de valores, no imagin\u00e1rio, na cultura esportiva, na argumenta\u00e7\u00e3o eloq\u00fcente, no discurso f\u00fanebre, na passeata ensandecida, na roda de conversa. A linguagem, pautada pela l\u00f3gica transtornada, trabalha a representa\u00e7\u00e3o da guerra.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea \u00e9 advent\u00edcio, faz parte da \u00e1rea nebulosa onde, parece, existem outras op\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se aproxime de nenhum ajuntamento envolvido na ins\u00e2nia. Primeiro, que n\u00e3o ser\u00e1 notado. Segundo, n\u00e3o adianta fingir, voc\u00ea ser\u00e1 reprovado no primeiro teste. E terceiro, porque poder\u00e1 ser visto como uma cria\u00e7\u00e3o bizarra de um universo remoto.<\/p>\n<p>CHAMAM DE PAIX\u00c3O, DIZEM QUE \u00c9 DOEN\u00c7A<\/p>\n<p>Aconteceu comigo. Perdi a chance de ser colorado quando voltei de um veraneio com primos fan\u00e1ticos. No primeiro instante em que tentei assumir a nova tend\u00eancia, fui podado por press\u00e3o familiar: ali, e eu n\u00e3o sabia, eram todos gremistas. Contra a vontade, me adaptei \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o. Mas com o tempo fui perdendo o pique, deixado para tr\u00e1s como nas marchas for\u00e7adas, em que os elementos mais aguerridos tomam a dianteira e somem numa nuvem de p\u00f3. Ficamos n\u00f3s, abandonados no ermo onde medram os outros times, todos marginais \u00e0 febre de um alistamento incompreens\u00edvel.<\/p>\n<p>Quem est\u00e1 fora, n\u00e3o consegue entender. N\u00e3o se trata de uma alegoria, met\u00e1fora ou par\u00e1bola. Nem pode ser visto como a pol\u00edtica, \u201ca guerra por outros meios\u201d, segundo o velho jarg\u00e3o de Clausewitz. \u00c9 a coisa em si. No momento em que os advers\u00e1rios se lan\u00e7am uns contra os outros, para decidir quem restar\u00e1 vivo dos escombros, n\u00e3o pode haver d\u00favida sobre o que est\u00e1 realmente acontecendo. N\u00e3o \u00e9 esporte, passatempo dos fracos. \u00c9 um mist\u00e9rio. Chamam de paix\u00e3o. Dizem que \u00e9 doen\u00e7a. Mas \u00e9 algo maior. \u00c9 a guerra, assumida por voca\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 amor ou algo parecido, mas estrat\u00e9gia. Nem divertimento, mas t\u00e1tica. Ningu\u00e9m veio ao mundo a passeio. H\u00e1 uma tarefa a cumprir e por isso o campo de batalha fica coalhado de bravos.<\/p>\n<p>As pessoas nascem coloradas ou gremistas com pleno conhecimento do lugar que ocupam em cada batalha. N\u00e3o h\u00e1 margem para a trai\u00e7\u00e3o e a defec\u00e7\u00e3o. A desist\u00eancia, a passagem para o outro lado, se \u00e9 que um dia existiu, \u00e9 tratada com pelot\u00e3o de fuzilamento. Por isso um setorista de futebol da capital ga\u00facha \u00e9 um correspondente de guerra. Ele conta as baixas, mais do que reporta os fatos. O que poder\u00e1 fazer a cr\u00f4nica esportiva diante de torcedores que comemoram por cem anos um simples campeonato? Foi o que aconteceu com o Gr\u00eamio em 1935, quando disputou com o Internacional e conquistou o t\u00edtulo de campe\u00e3o do centen\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha. Acertou-se que por cem anos haveria uma confraterniza\u00e7\u00e3o no dia 22 de setembro. Os \u00e1gapes v\u00e3o se repetir at\u00e9 2035 e talvez a decis\u00e3o de comemorar seja prorrogada.<\/p>\n<p>O Grenal Farroupilha \u00e9 ideal para definir o status da guerra. Principalmente pela presen\u00e7a de um personagem lend\u00e1rio: Eurico Lara, o \u201ccraque imortal\u201d do hino gremista composto por Lupic\u00ednio Rodrigues (que tamb\u00e9m fez o hino colorado). Lara estava em avan\u00e7ado estado de tuberculose, mas assim mesmo foi l\u00e1 fechar o gol. Era quest\u00e3o de vida ou morte. Saiu coberto de gl\u00f3rias e dois meses depois morreu. Tenho uma liga\u00e7\u00e3o profunda com a mem\u00f3ria desse jogador uruguaianense, nascido em 1897.<\/p>\n<p>Ele dava nome ao est\u00e1dio a um quarteir\u00e3o da minha casa. Encarnava todas as hist\u00f3rias her\u00f3icas dos goleiros que quebravam um bra\u00e7o e defendiam com o outro. As sa\u00eddas do est\u00e1dio Eurico Lara pertencem hoje a um c\u00e2none da mem\u00f3ria. Lembro que depois do jogo eu ficava esperando a multid\u00e3o que sa\u00eda do jogo envergando, em sua maioria, terno, gravata e chap\u00e9u. Era um programa de gala o futebol do domingo \u00e0 tarde. Perguntava sempre o resultado para todos os que passavam e n\u00e3o me contentava em saber a resposta. Precisa ouvi-la repetidas vezes. Como se treinasse para firmar a lembran\u00e7a do que hoje, \u00e9poca do desregramento da geral, parece at\u00e9 mentira.<\/p>\n<p>Lara n\u00e3o queria sair do lugar onde nasceu. Mas, ao servir no Ex\u00e9rcito, acabou transferido para Porto Alegre, por obra dos cartolas. Na nossa terra, defendia as cores amarelo e preto do E.C. Uruguaiana, fundado em 1912. \u00c9 consenso achar que o futebol foi introduzido no Brasil por um s\u00f3 caminho, o do Charles Muller. Seria engra\u00e7ado achar que em poucos anos o esporte atravessasse milhares de quil\u00f4metros a partir de S\u00e3o Paulo at\u00e9 a fronteira ga\u00facha para gerar times ancestrais como o Uruguaiana. A verdade foi decifrada na tese &#8220;A bola nas redes e o enredo do lugar: uma geografia do futebol e de seu advento no Rio Grande do Sul&#8221;, de Gilmar Mascarenhas de Jesus: os ingleses levaram o futebol via estrada de ferro de Buenos Aires e Montevid\u00e9u para as cidades sentinelas do pampa.<\/p>\n<p>UM IMENSO CAMPO DE FUTEBOL<\/p>\n<p>Foi assim que foi desenvolvido um outro tipo de postura futebol\u00edstica, mais afeita aos rigores do clima, sem cair na tenta\u00e7\u00e3o do determinismo geogr\u00e1fico. Falo do clima humano, franco e aberto dos campos sem barreiras. Pode-se dizer que o pampa \u00e9 um imenso campo de futebol, exagerando na met\u00e1fora. Espa\u00e7o \u00e9 que nunca faltou naquelas bandas, onde nasceram grandes jogadores como Gessy Lima, bem no ano do Grenal Farroupilha. Gessy era capaz de feitos impressionante, como colocar um monte de gols no Boca Juniors em Buenos Aires, depois de uma farra por ter passado no vestibular de Odontologia. Tem veterano do jornalismo esportivo que jura n\u00e3o ter visto outro jogador igual, com exce\u00e7\u00e3o de Pel\u00e9. Gessy, que se foi em 1989, abandonou o futebol para sempre quando se formou, aos 26 anos.<\/p>\n<p>Poucos anos atr\u00e1s estive em Uruguaiana na \u00e9poca de uma decis\u00e3o de campeonato. N\u00e3o lembro quem venceu, mas o que me impressionou \u2013 j\u00e1 que h\u00e1 tempos n\u00e3o visitava minha cidade \u2013 foram as familias uniformizadas, do av\u00f4 \u00e0 crian\u00e7a de colo. Sa\u00edram para a pra\u00e7a para ver o advers\u00e1rio comemorar o t\u00edtulo. N\u00e3o houve briga, nem tiro, nem nada. A guerra n\u00e3o impede a civiliza\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio: a tempera, com certezas herdadas que formam um conjunto de princ\u00edpios. A bravura colorada ou a determina\u00e7\u00e3o gremista n\u00e3o impedem que haja na\u00e7\u00e3o de uma s\u00f3 bandeira. L\u00e1, naquele continente onde se decidiu o tamanho do pa\u00eds soberano, o Grenal talvez seja o que restou de um \u00edmpeto que inventou o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por isso o Grenal \u00e9 uma guerra, mas com uma diferen\u00e7a: \u00e9 assumida por cidad\u00e3os livres, que n\u00e3o abrem m\u00e3o de suas convic\u00e7\u00f5es e n\u00e3o matam por amor. Fazem tudo para que seu lado predomine, mas possuem persist\u00eancia, qualidade dos guerreiros. Se n\u00e3o for nesta temporada, ser\u00e1 na pr\u00f3xima. Ningu\u00e9m convencer\u00e1 o inimigo a desistir. Pois, se isso acontecer, acaba o jogo, \u00e9 o fim da gra\u00e7a. O bom \u00e9 continuar pelos s\u00e9culos afora, como se cada decis\u00e3o fosse a \u00faltima e cada gol a consagra\u00e7\u00e3o de um destino.<\/p>\n<p><em>Mat\u00e9ria publicada na revista Foot-Ball<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Grenal \u00e9 Grenal, ou seja, guerra. Vale tudo, desde que o advers\u00e1rio perca sua louca pretens\u00e3o de existir. Tem hino, marcha, farda, bandeira, p\u00f3lvora, bomba. Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a. Nesse conflito centen\u00e1rio que ocupa gera\u00e7\u00f5es de torcedores dos dois principais times ga\u00fachos, vit\u00f3ria n\u00e3o significa armist\u00edcio. E derrota jamais \u00e9 rendi\u00e7\u00e3o. Os soldados [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2376"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2376"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2376\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2377,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2376\/revisions\/2377"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2376"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2376"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2376"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}