{"id":241,"date":"2005-05-31T22:03:07","date_gmt":"2005-06-01T00:03:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=241"},"modified":"2009-12-20T22:54:12","modified_gmt":"2009-12-21T00:54:12","slug":"monstros-e-cavaleiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/monstros-e-cavaleiros","title":{"rendered":"MONSTROS E CAVALEIROS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><br \/>\nH\u00e1 dois tipos de atores. Os monstros, como Othon Bastos, Marlon Brando e Miguel Ramos, que se transformam em criaturas assustadoras, como, respectivamente, Corisco, o Coronel Kurz ou o vil\u00e3o correntino do novo filme de Beto Souza, <em>Cerro do Jarau<\/em> (interpreta\u00e7\u00e3o premiada recentemente em Recife)\u00a0. E os cavaleiros, os que jamais deixam de ser o que s\u00e3o, mas nos convencem ao montar em personagens inesquec\u00edveis, como o Tiradentes sem barba do Jos\u00e9 Wilkerem Os Incofidentes, de Joaquim Pedro de Andrade, ou todos aqueles seres que James Dean imortalizou no cinema. Entre os dois, h\u00e1 uma infinidade de grada\u00e7\u00f5es, com Tom Hanks, Nick Nolte e Steve McQueen, mais pr\u00f3ximos do segundo grupo, ou Robert Duval e Monty Clift, grudados na elite do primeiro.<\/p>\n<p><strong>ARFANTES<\/strong> &#8211; Na periferia desse trabalho, l\u00e1 onde nossa paci\u00eancia tem limites, h\u00e1 os profissionais que acham a respira\u00e7\u00e3o um passaporte para a grande atua\u00e7\u00e3o. Existem os arfantes, que sugerem grandes emo\u00e7\u00f5es ao se deparar com alguma revela\u00e7\u00e3o que deveria ser impressionante, como a Suzana Vieira do cap\u00edtulo de ontem da novela das nove, que respirou tanto que acabou desmaiando artificialmente em cena, pois todo o exagero inicial precisa de um grand finale. Lembro Henry Miller em <em>Tr\u00f3pico de C\u00e2ncer<\/em>, que se retirou de um concerto de Ravel porque come\u00e7ava com tambores. Se algu\u00e9m come\u00e7a com tambores vai ter que terminar com canh\u00f5es, argumentou o c\u00e9lebre vagabundo em Paris. H\u00e1 tamb\u00e9m os canastr\u00f5es que d\u00e3o respiradinhas r\u00e1pidas para definir determina\u00e7\u00e3o em seus personagens, como Tony Ramos, que vi em in\u00edcio de carreira numa pe\u00e7a de teatro e jamais me convenceu em cena. Seu coronel Boanerges na novela das seis abusa tanto da respiradinha que acaba sendo uma marca do personagem o estado catat\u00f4nico de quem n\u00e3o sabe para onde respirar. Fica parecendo charme, mas \u00e9 pura l\u00f3gica: quem d\u00e1 a respiradinha fica assim mesmo quando se depara com alguma emo\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pode transmitir. O truque \u00e9 n\u00e3o transmitir nada. Lembro T\u00f4nia Carrero dizendo que atuar \u00e9 fingir, o que \u00e9 de um equ\u00edvoco atroz. Os verdadeiros atores n\u00e3o fingem em cena, ou eles se transformam no que pedem para ser ou eles cavalgam a criatura sem piedade.<\/p>\n<p><strong>EXCESSOS<\/strong> &#8211; Mulher \u00e9 outro departamento. Os homens utilizam o excesso para impor seu trabalho. Nada mais excessivo, e convincente, do que o bandido paraguaio de Miguel Ramos no j\u00e1 cl\u00e1ssico <em>Netto perde sua alma<\/em>,de Tabajara Ruas e Beto Souza. E o que dizer de Marlon Brando gritando com as m\u00e3os na cabe\u00e7a Steeeeela em <em>Um bonde chamado desejo<\/em>? Um par\u00eantese: descobri porque o Arnadldo Jabor chamou o Brando de Marl\u00f4n nas suas invectivas quando o ator maior morreu: como um dia foi diretor de cinema, Jabor acha que pode tratar Marlon Brando pelo primeiro nome, como se fosse \u00edntimo e tivesse cacife para manipul\u00e1-lo, como fez com in\u00fameros atores. Jabor teve a sorte de contar com Paulo C\u00e9sar Pereio em seus filmes e deu a impress\u00e3o de bom cineasta. Mas Pereio \u00e9 o excesso de um monstro que cavalga a si mesmo. Ele \u00e9 sempre o mesmo, gostem ou n\u00e3o. \u00c9 uma mistura dos dois grupos principais, j\u00e1 que esta \u00e9 uma classifica\u00e7\u00e3o unilateral, que tirei da cartola. Normalmente achamos o m\u00e1ximo o que Pereio faz no teatro e no cinema e nas vozes que empresta aos comerciais (aquele som gutural criado em Alegrete, cidade que um dia foi capital, por isso gera esses brasileiros definitivos como Pereio ou seu irm\u00e3o, o tremendo ator Pingo? Pingo detonou na montagem brasileira da pe\u00e7a de Peter Brooks, <em>Marat-Sade<\/em>. Quando entrei na plat\u00e9ia do teatro em Porto Alegre nos anos 60, Pingo j\u00e1 se apresentava todo de branco, com aquele olhar que assusta at\u00e9 drag\u00e3o).<\/p>\n<p><strong>MULHERES<\/strong> &#8211; Mulher \u00e9 conten\u00e7\u00e3o m\u00e1xima em cena. Quando explodem, normalmente n\u00e3o funcionam. A maior atriz do mundo \u00e9 Vivian Leigh em <em>E o vento levou<\/em>. Ningu\u00e9m ficar\u00e1 livre daquela cria\u00e7\u00e3o, Scarlet O&#8217;Hara, enquanto estiver vivo. Bastou ela ficar em frente a um inc\u00eandio, sem dizer nada, para que o diretor Victor Fleming tivesse certeza que era ela quem procurava h\u00e1 mais de um ano, num concurso que movimentou os Estados Unidos (j\u00e1 que o livro era best-seller absoluto), mas n\u00e3o deu em nada. Vivien n\u00e3o disse nada para ganhar o papel e desliza no filme para comer com farinha todos os atores desse grande filme, desde Leslie Howard at\u00e9 Clark Gable (um ator-cavaleiro magn\u00edfico).<\/p>\n<p>Eva Wilma chega perto, na obra-prima de Luis Sergio Person, <em>S\u00e3o Paulo S\/A<\/em> (um dos tr\u00eas maiores filmes brasileiros de todos os tempos, junto com <em>Deus e o Diabo<\/em>, de Glauber e <em>O Pagador de Promessas<\/em>, de Anselmo Duarte). Sua cena com Walmor Chagas (que tinha tudo para ser um monstro), em que detona numa separa\u00e7\u00e3o irrevers\u00edvel do casal em crise, \u00e9 inesquec\u00edvel. Mas quem imita Vivian Leigh o tempo todo \u00e9 Elizabeth Taylor, que s\u00f3 se contradisse em <em>Quem tem medo de Virginia Wolf<\/em>, quando precisou virar monstro para enfrentar o cavaleiro Richard Burton. Quem pode com a for\u00e7a da conten\u00e7\u00e3o absoluta de Merryl Streep contracenando com o cavaleiro Clint Eastwood? Ou com a conten\u00e7\u00e3o que desaba em Geraldine Page, a atriz maior que nos arrebata quando aparece em cena? Ao saber se conter, a atriz se excede em atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>GESTO<\/strong> &#8211; James Dean fez o caminho do avesso: sua intensa conten\u00e7\u00e3o o leva para o excesso masculino, que \u00e9 o seu nicho verdadeiro. L\u00e1 ele arrasa. Quem viu James Dean fazendo aquele gesto com a m\u00e3o espalmada e os dedos juntos, para Rock Hudson em <em>Giant<\/em>, sabe do que se trata. Seu bigodinho fino, seu chap\u00e9u de texano, seu cabelo grisalho constroem com esse gesto(que parece o desenho de um v\u00f4o definitivo)um momento sem igual nessa arte incompar\u00e1vel que \u00e9 a atua\u00e7\u00e3o. Que de t\u00e3o grandiosa e diversificada, nos escapa em qualquer tipo de classifica\u00e7\u00e3o. Mas qualquer m\u00e9todo serve para fincar algumas balizas no caos. Por isso arriscamos dizer o que nos ocorre, para homenagearmos esses seres que acabam nos transformando em pessoas muito melhores do que um dia sonhamos ser.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 dois tipos de atores. Os monstros, como Othon Bastos, Marlon Brando e Miguel Ramos, que se transformam em criaturas assustadoras, como, respectivamente, Corisco, o Coronel Kurz ou o vil\u00e3o correntino do novo filme de Beto Souza, Cerro do Jarau (interpreta\u00e7\u00e3o premiada recentemente em Recife) . 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