{"id":2426,"date":"2010-11-24T19:43:54","date_gmt":"2010-11-24T21:43:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2426"},"modified":"2010-11-24T19:43:54","modified_gmt":"2010-11-24T21:43:54","slug":"pequenos-e-pioneiros-chao-bruto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/pequenos-e-pioneiros-chao-bruto","title":{"rendered":"PEQUENOS E PIONEIROS : CH\u00c3O BRUTO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Um bom neg\u00f3cio pode ser feito a partir do que se gosta, mas nem sempre. Meu tio adorava carne de frango, que naquela \u00e9poca e naquele lugar, primeira metade do s\u00e9culo 20 no interior do Rio Grande do Sul, era chamado de galinha (que \u00e9 o frango sa\u00eddo da adolesc\u00eancia). Suas hist\u00f3rias de revolu\u00e7\u00f5es dos anos 1920 resumiam-se a determinadas situa\u00e7\u00f5es. Uma era a aplica\u00e7\u00e3o de vacina antipiog\u00eanica nos soldados feridos e tamb\u00e9m de abundantes por\u00e7\u00f5es de mertiolate para a cicatriza\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, j\u00e1 que o front era escasso de bravos. E a outra era a busca compulsiva por galinha nas investidas que fazia com seu pequeno destacamento (ele foi cabo e aposentou-se como sargento da Brigada Militar, a for\u00e7a p\u00fablica ga\u00facha).<\/p>\n<p>Pois esse tio lend\u00e1rio um dia resolveu montar um neg\u00f3cio: uma cria\u00e7\u00e3o de galinhas! Claro que n\u00e3o durou tr\u00eas meses. Qualquer visita era motivo para o abate das penosas, sofregamente devoradas mais pelo anfitri\u00e3o do que pelos convidados. Ele n\u00e3o conseguia romper a linha divis\u00f3ria entre o investimento e a comercializa\u00e7\u00e3o, pois no fundo tinha feito o neg\u00f3cio dos seus sonhos: n\u00e3o precisava mais comprar seu repasto favorito (naquele tempo, carne de frango n\u00e3o tinha antibi\u00f3ticos nem qu\u00edmicas de preserva\u00e7\u00e3o; era recomendado, por isso, para convalescentes).<\/p>\n<p>O ator Walmor Chagas tamb\u00e9m caiu nessa armadilha. \u201cGosto de gente\u201d, pensou ele e l\u00e1 se foi serra acima para pendurar uma pousada no ermo. Fracasso total, confessou, pois um ator gosta \u00e9 de encarnar criaturas e ser reconhecido pelo p\u00fablico e n\u00e3o ficar posando ao lado dos h\u00f3spedes que o atormentavam pedindo aut\u00f3grafos a tr\u00eas por quatro.<\/p>\n<p>S\u00f3 o gosto n\u00e3o deveria servir de par\u00e2metro para a inicia\u00e7\u00e3o no mundo empresarial. N\u00e3o se monta um armaz\u00e9m, restaurante ou um 1,99 para satisfazer nossos caprichos. \u00c9 para multiplicar o dinheiro investido e isso exige dedica\u00e7\u00e3o total e absoluta, e pragmatismo. Emo\u00e7\u00f5es atrapalham e aquela paix\u00e3o, com o tempo, se torna amarga \u00e0 medida em que surgem as contas e as coisas n\u00e3o andam t\u00e3o bem como no in\u00edcio, quando a capitaliza\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o sofreu nenhum rev\u00e9s. Isso n\u00e3o significa que transformar voca\u00e7\u00e3o em lucro seja um tiro na \u00e1gua. Muitas vezes d\u00e1 certo. Mas a mortalidade das empresas, gigantesca no Brasil, aponta para outra realidade.<\/p>\n<p>\u00c9 como a hist\u00f3ria dos golfinhos, decifrada certa vez, se n\u00e3o me engano, pelo Luis Fernando Ver\u00edssimo. Todos diziam que os fofos animaizinhos costumavam levar os n\u00e1ufragos s\u00e3o e salvos par as praias. Sim, mas aqueles que foram empurrados para o alto mar n\u00e3o tiveram a chance de dar seu testemunho sobre os inteligentes e espertos bicharocos. Empresa que morre n\u00e3o deixa muita hist\u00f3ria para contar. N\u00e3o d\u00e1 sorte, dizem.<\/p>\n<p>Mas os fracassos rendem as melhores hist\u00f3rias. N\u00e3o que eu me dedique a elencar o que n\u00e3o deu certo. Mas quando vejo o grande esfor\u00e7o das pessoas em tirar o p\u00e9 da lama montando algo que deveria ser um sucesso e n\u00e3o \u00e9, fico sensibilizado. Gosto de quem tenta e o relato humano dessas tentativas forma um acervo de mem\u00f3ria e humor dif\u00edcil de ser substitu\u00eddo.<\/p>\n<p>Como o galinheiro do empreendedor voraz, ou a pousada que ficou vazia por estar inacess\u00edvel depois de uma estrada barrenta, existe muita coisa a ser passada nos ser\u00f5es familiares. Se \u00e9 que eles ainda existem. Acredito que sim, nos black-outs, ou ent\u00e3o quando a internet cai e ningu\u00e9m mais tolera ver novela ou notici\u00e1rio. \u00c9 o momento em que as pessoas lembram daquela vez em que venderam tudo para apostar numa coisa que hoje provoca risadas a dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p><em> Este \u00e9 um dos textos do meu livro in\u00e9dito Cr\u00f4nicas de Neg\u00f3cios. &#8220;Pequenos e pioneiros&#8221; \u00e9 o t\u00edtulo do primeiro capitulo. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Um bom neg\u00f3cio pode ser feito a partir do que se gosta, mas nem sempre. Meu tio adorava carne de frango, que naquela \u00e9poca e naquele lugar, primeira metade do s\u00e9culo 20 no interior do Rio Grande do Sul, era chamado de galinha (que \u00e9 o frango sa\u00eddo da adolesc\u00eancia). 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