{"id":2442,"date":"2010-12-06T19:38:29","date_gmt":"2010-12-06T21:38:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2442"},"modified":"2010-12-06T19:38:29","modified_gmt":"2010-12-06T21:38:29","slug":"um-estranho-caso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/um-estranho-caso","title":{"rendered":"UM ESTRANHO CASO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Cachorro-Em- P\u00e9 era visado pelos maus da vizinhan\u00e7a. Com um tronco desproporcional aos pequenos bra\u00e7os e pernas, que sacudiam no andar desengon\u00e7ado, o rapaz virou alvo f\u00e1cil logo que chegou de mudan\u00e7a na rua, junto com a fam\u00edlia. Al\u00e9m de bizarro, era de outra cidade. Parece que de Santiago ou Cachoeira, lugares distantes, s\u00f3 alcan\u00e7ados em longas viagens de jipe ou trem. Como n\u00e3o tinha irm\u00e3os que lhe \u201ctirassem a cara\u201d, como se dizia na fronteira, que evitassem o massacre, nem um pai vis\u00edvel, j\u00e1 que a casa era habitada praticamente s\u00f3 por mulheres, o ataque era uma quest\u00e3o de dias, talvez horas.<\/p>\n<p>O plano j\u00e1 estava esbo\u00e7ado. No momento em que ele, bab\u00e3o, passasse cumprimentando todo mundo com seu ar de idiota, olhar perdido, queixo proeminente, grande papada e um cabelinho preto enrodilhado no cocuruto da cabe\u00e7a ovalada e enorme, bastava dar um grito para provocar o susto. Depois, era s\u00f3 divers\u00e3o: roubar-lhe os t\u00eanis vistosos comprados talvez naquelas lojas rica\u00e7as da capital, a camiseta de grife estrangeira, a pulseira, que parecia de ouro, entre outras atra\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m de completamente inofensivo, Cachorro Em P\u00e9 ainda exibia grande volume no bolso de tr\u00e1s da cal\u00e7a, de onde costumava tirar uma carteira recheada de notas.<\/p>\n<p>Com ela, o infeliz fazia as compras para a fam\u00edlia s\u00f3 de mulheres. Ia na padaria, na farm\u00e1cia, no mercadinho e de l\u00e1 vinha carregado de coisas in\u00fateis, de cosm\u00e9ticos a p\u00e3o integral, e ainda se arrastava pesadamente sob os mandados como se o bolso lhe tivesse pesando ainda mais depois de tantos gastos.<\/p>\n<p>A petizada era formada de gente ruim. Rato, baixinho e peludo, com cicatriz no rosto, comandava. Gringo, alto, parrudo, pronto para entrar para os fuzileiros, obedecia. Bolo Fofo aparentava pregui\u00e7a mas na hora de roubar era o mais r\u00e1pido e ladino. Al\u00e9m de outros, quase an\u00f4nimos, todos brutos. A id\u00e9ia era roubar e esconder rapidamente, puxar para a briga, tudo em poucos segundos. Seria moleza. Mas n\u00e3o contavam com um fato extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Logo que sentiu a aproxima\u00e7\u00e3o dos meliantes, o inocente grandalh\u00e3o tirou a carteira do bolso de tr\u00e1s, deixando cair um pote de gel\u00e9ia, um pacote de frutas variadas e outras miudezas sem import\u00e2ncia. Parece que ria apontando a prenda, como se estivesse convidando para que a levassem. Os bandidinhos se entreolharam e se jogaram no butim. Mas no mesmo instante, viram o objeto de desejo se transformar de repente num p\u00e1ssaro preto enorme, que come\u00e7ou a dar bicadas na turma. Apavorados, tentaram fugir, mas o bicho, sob as ordens dos gritos do imbecil, sabia transform\u00e1-los em gado, obrigando-os a ficar contra a parede. Um deles parece que se mijou. Talvez o Bimbo, magro e comprido e com uma boca rasgada de orelha a orelha, que desandou num choro humilhante para a quadrilha.<\/p>\n<p>Logo que estavam todos sob as ordens do bicharoco, eis que as asas se recolheram e o animal se projetou para os bra\u00e7os do Bahaunde (esse era o nome verdadeiro do Cachorro-em-P\u00e9). Sorrindo, ele recolheu de novo a carteira para o bolso de tr\u00e1s, pegou as compras esparramadas no ch\u00e3o e foi-se, cumprimentando todos os que passavam.<\/p>\n<p>Essa estranha hist\u00f3ria me foi soprada por um duende. Ser\u00e1 que aconteceu?<\/p>\n<p><em>Conto publicado no jornal Momento de Uruguaiana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Cachorro-Em- P\u00e9 era visado pelos maus da vizinhan\u00e7a. Com um tronco desproporcional aos pequenos bra\u00e7os e pernas, que sacudiam no andar desengon\u00e7ado, o rapaz virou alvo f\u00e1cil logo que chegou de mudan\u00e7a na rua, junto com a fam\u00edlia. 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