{"id":2466,"date":"2010-12-23T10:21:34","date_gmt":"2010-12-23T10:21:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2466"},"modified":"2010-12-23T10:21:34","modified_gmt":"2010-12-23T10:21:34","slug":"a-essencia-do-jornalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-essencia-do-jornalismo","title":{"rendered":"A ESS\u00caNCIA DO JORNALISMO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o. Se fosse, seria espionagem ou diplomacia. A ess\u00eancia do jornalismo \u00e9 a divulga\u00e7\u00e3o, a transpar\u00eancia da informa\u00e7\u00e3o. Divulgar n\u00e3o est\u00e1 na agenda da espionagem, que trabalha com o segredo, ou da diplomacia, que trabalha com segredo de estado. O jornalismo \u00e9 o anti-segredo. \u00c9 isso que pega. Seu \u00fanico segredo \u00e9 a pr\u00f3pria fonte. Pode ser divulgada ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>O jornalismo cria uma rela\u00e7\u00e3o entre a abund\u00e2ncia da fonte e a escassez da s\u00edntese, da sele\u00e7\u00e3o. D\u00e1 trabalho. Mata cedo. \u00c9 profiss\u00e3o de risco, como cortador de luz na favela ou alimentador de ursos fora da temporada de salm\u00e3o. Mesmo no wikileaks, que joga toneladas de informa\u00e7\u00e3o no ar, h\u00e1 edi\u00e7\u00e3o. Quando o jornalista consegue, causa um terremoto. Por isso o jornalismo virou uma vernissage. Divulgar informa\u00e7\u00e3o editada \u00e9 muito perigoso.<\/p>\n<p>N\u00e3o fosse o Washington Post, Watergate seria apenas um edif\u00edcio, e n\u00e3o fosse Caco Barcelos a Rota, prima-irm\u00e3 do Bope, seria apenas uma mil\u00edcia her\u00f3ica e n\u00e3o uma matadora serial de inocentes, como foi provado no livro \u201cRota 66\u201d. Quem est\u00e1 na cola do Bope? Jornalista sacudidor de cabe\u00e7a afirmativamente enquanto a fonte discorre a resposta \u00e9 que n\u00e3o. O jornalismo n\u00e3o \u00e9 para sabich\u00f5es, isso \u00e9 outra atividade, a consultoria da auto-ajuda.<\/p>\n<p>A abordagem das fontes implica dois enfoques. Um \u00e9 a fidelidade das falas, quando declara\u00e7\u00f5es ou solu\u00e7\u00f5es de narrativa de quem emite a informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o utilizadas no texto do jornalista. Outra \u00e9 a trai\u00e7\u00e3o das falas originais, um recurso eficiente para evitar que a prolixidade da fonte, suas descosturas ou falta de objetividade, atrapalhem a reportagem. \u00c9 preciso ent\u00e3o mudar, tecnicamente, o que foi dito, para que o resultado n\u00e3o traia a pauta.<\/p>\n<p>Fica dif\u00edcil de entender para quem n\u00e3o \u00e9 do ramo. Muitas vezes, voc\u00ea precisa modificar a maneira como foi dito para que haja fidelidade ao que foi realmente dito. Nem sempre o que \u00e9 falado ou escrito representa ou reproduz fielmente a inten\u00e7\u00e3o da fonte. \u00c9 preciso modificar para respeitar a fonte. A n\u00e3o ser quando ela n\u00e3o mere\u00e7a respeito. Tivemos exemplos recentes com Dilma e Lula. Dilma acusou o meio ambiente de prejudicar o desenvolvimento sustent\u00e1vel e Lula, ao defender (na fachada) o Wikileaks, exigiu que as pessoas se manifestassem contra a liberdade de express\u00e3o. Deitei e rolei sobre isso porque n\u00e3o vou dar vez para esses mal intencionados que tomaram conta do poder. Mas o fato \u00e9 que eles quiseram dizer o contr\u00e1rio. Os jornais, subservientes, fizeram a corre\u00e7\u00e3o sem se referir ao erro, eu n\u00e3o. Encarei como ato falho: disseram o que realmente pensavam.<\/p>\n<p>Quando uma fonte comete algum desastre na sua narrativa e isso \u00e9 reproduzido \u201cfielmente\u201d pode causar estrago. Quando necess\u00e1rio, deve-se &#8220;trair&#8221; a fonte para n\u00e3o contrariar suas inten\u00e7\u00f5es. Essas coisas passam por desvio de conduta, mas fazem parte da ess\u00eancia do jornalismo. Quando as reda\u00e7\u00f5es tinham gente qualificada, isso era tirado de letra. Hoje, \u00e9poca de legenda para cego, de reprodu\u00e7\u00f5es de BOs no lugar de reportagens e de transcri\u00e7\u00f5es de falas oficiais, coisas que inundam os ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, fica dif\u00edcil saber onde a coruja pia.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 saber que o jornalista n\u00e3o pode ser o tosco reprodutor de falas selecionadas nas fontes pelas assessorias de imprensa, nem o pauteiro de frescuras e amenidades, nem o assassino do verbo, nem o trucidador de solu\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas da l\u00edngua, nem o perseguidor de madonas ou o farejador de perfumes das celebridades. \u00c9 preciso resgatar a ess\u00eancia do jornalismo, quando t\u00ednhamos apenas uma caneta e um bloco de papel dobrado no bolso da cal\u00e7a.<\/p>\n<p>Nem precisa ipad, ipod, ipud ou iped. Basta saber fazer, j\u00e1 que os caminhos, digitais ou n\u00e3o, sobram por toda parte. O que vale \u00e9 conseguir a informa\u00e7\u00e3o, acess\u00e1-la, edit\u00e1-la e divulg\u00e1-la, com qualquer recurso. E todo mundo quer uma boa reportagem, como a premiada \u201cArtur tem um problema\u201d, de Jo\u00e3o Moreira Salles, sobre o matem\u00e1tico brasileiro Artur Avila e que foi publicado na revista Piau\u00ed. \u00c9 assim que se faz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o. Se fosse, seria espionagem ou diplomacia. A ess\u00eancia do jornalismo \u00e9 a divulga\u00e7\u00e3o, a transpar\u00eancia da informa\u00e7\u00e3o. Divulgar n\u00e3o est\u00e1 na agenda da espionagem, que trabalha com o segredo, ou da diplomacia, que trabalha com segredo de estado. O jornalismo \u00e9 o anti-segredo. \u00c9 isso que pega. 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