{"id":2472,"date":"2010-12-23T10:26:00","date_gmt":"2010-12-23T10:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2472"},"modified":"2010-12-23T10:26:00","modified_gmt":"2010-12-23T10:26:00","slug":"o-cozinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-cozinheiro","title":{"rendered":"O COZINHEIRO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO Cozinheiro \u00e9 aquele que faz certo o que todos os outros fazem errado. Sua maneira peculiar de torcer a colher em que mexe os temperos acompanha o esgar de pouco caso desenhado no canto do nariz. \u00c9 uma esp\u00e9cie de pr\u00e9-espirro que puxa um pouco o l\u00e1bio superior, deixando entrever alguns dentes de desprezo. Ningu\u00e9m acerta o ponto sen\u00e3o ele. Ningu\u00e9m sabe o ingrediente raro, trazido de helic\u00f3ptero dos Balc\u00e3s Centrais, dos bosques da Baviera, ou da planta\u00e7\u00e3o ex\u00f3tica de Tia Chica, a que tem 130 anos e mora na serra e s\u00f3 \u00e9 acess\u00edvel de bote de borracha importado da Su\u00ed\u00e7a por \u00edngremes fios de \u00e1gua encachoeirados.<\/p>\n<p>Seu olhar sampacu perscruta qualquer aspirante a tentar cozinhar na sua frente. Demolidor, venenoso. Abra alas para ele, que sabe, o resto se mortifica. N\u00e3o \u00e9 que se considere um Deus, j\u00e1 que Deus nunca entendeu de cozinha, tanto \u00e9 que preferia os hortis crus de Abel aos assados de cabrito de Caim. N\u00e3o se acha superior a Bocuse, j\u00e1 que Bocuse ou qualquer outra notoriedade culin\u00e1ria simplesmente n\u00e3o existe. Nas conversas que antecedem as refei\u00e7\u00f5es, s\u00f3 usa grifes famosas quando precisa desmoralizar algu\u00e9m.<\/p>\n<p>A v\u00edtima pode ser um chef qualquer (formado na cozinha de um mestre que O Cozinheiro despreza brandindo um concorrente). Se for franc\u00eas, melhor. Ou um parente rico ou o melhor amigo do seu irm\u00e3o, penetra numa reuni\u00e3o familiar. O Cozinheiro vinga-se dos advent\u00edcios pontificando, com gestos e caras, sobre o que todos n\u00e3o tem a m\u00ednima condi\u00e7\u00e3o de apreciar por falta absoluta de ber\u00e7o ou destino.<\/p>\n<p>E n\u00e3o guarde elogios que ele n\u00e3o faz a m\u00ednima quest\u00e3o. O Cozinheiro sabe qual altura do calor da brasa que pode crestar uma paleta de cervo dos Alpes. E tem no\u00e7\u00e3o exata do que significa uma trufa. Para mim, que sou leigo no assunto, e n\u00e3o sirvo, como o resto da humanidade, para comer as especiarias preparadas por O Cozinheiro, sempre achei que trufa fosse um jeito de me esnobarem . Pois para mim era certo que queriam dizer trutas. Quando soube, ou imaginei saber, que era um cogumelo raro s\u00f3 encontr\u00e1vel nos dias 30 e 31 de fevereiro em terras molhadas de h\u00famus de percevejos ancestrais no interior dos Pirineus, fiquei chocado.<\/p>\n<p>Mas decorei a fala ouvida de algu\u00e9m e cheguei a fazer algum sucesso diante de outros panacas como eu. At\u00e9 encontrar O Cozinheiro pela frente, que me humilhou dizendo que trufas, ao contr\u00e1rio do que eu pensava, eram chocolates fin\u00edssimos que s\u00f3 mestres do deserto espanhol s\u00e3o capazes de conceber em noites batidas pelo vento Siroco. Emudeci para sempre depois dessa, mas n\u00e3o evito entrar em p\u00e2nico quando algu\u00e9m se refere a trufas, com seu efe cortante a retalhar amadores. Esse \u00e9 s\u00f3 um exemplo da desmoraliza\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 acostumado a comer coisas banais e n\u00e3o aquilo que O Cozinheiro prepara e degusta, aguardando elogios dos assustados comensais.<\/p>\n<p>\u00c9 quando ent\u00e3o, todos satisfeitos e se derramando em loas, ele faz pouco do que fez dizendo que ao cozinhar na Corte da Baviera para Iluminattis adolescentes, aquela gororoba estava infinitamente superior.<\/p>\n<p>Quando algum rei visita o Brasil e, claro, jamais convidam O Cozinheiro, pois os patrocinadores tem medo quem ele cometa alguma grosseria contra o sangue azul, O Cozinheiro ent\u00e3o prepara um \u00e1gape exatamente no mesmo dia e hora em que os coroados v\u00e3o atacar o fiambre. Assim, enquanto torce o nariz com seu esgar favorito, mexendo a colher daquele jeito que faz com que ervas finas atinjam o esplendor do Olimpo, ele pontificar\u00e1 sobre a vida sexual airada de algum ancestral da fam\u00edlia real.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 O Cozinheiro. D\u00ea gra\u00e7as a Deus se voc\u00ea n\u00e3o o conhece. E contente-se com uma linguicinha de frango picada em rodelas, frita com cebola em fogo baixo no azeite de oliva, arroz branco soltinho e lentilha natural, borrifada de farinha saborosa e fresca, tudo acompanhado por um suco honesto de uva produzido no Cear\u00e1. Atole-se na sua ignor\u00e2ncia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O Cozinheiro \u00e9 aquele que faz certo o que todos os outros fazem errado. 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