{"id":2474,"date":"2010-12-23T10:27:10","date_gmt":"2010-12-23T10:27:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2474"},"modified":"2010-12-23T10:27:10","modified_gmt":"2010-12-23T10:27:10","slug":"criacao-no-jornalismo-um-objeto-selvagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/criacao-no-jornalismo-um-objeto-selvagem","title":{"rendered":"CRIA\u00c7\u00c3O NO JORNALISMO: UM OBJETO SELVAGEM"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Jornalismo \u00e9 produzir (e n\u00e3o reproduzir) uma leitura dos fatos. E os fatos s\u00e3o vers\u00f5es das fontes. Produzir leitura \u00e9 identificar uma l\u00f3gica, um encadeamento nas evid\u00eancias dos acontecimentos. Estes, s\u00e3o criaturas que nascem sob dom\u00ednio de quem as emite, mas ao atingirem o status de jornalismo (a abordagem livre da manifesta\u00e7\u00e3o advent\u00edcia) se libertam de suas origem, adquirem vida pr\u00f3pria, j\u00e1 que assumem a natureza de uma outra linguagem. O relat\u00f3rio selecionado vira parte da reportagem, a conversa prolixa alcan\u00e7a a s\u00edntese da frase esclarecedora.<\/p>\n<p>Por mais \u201cconcreto\u201d que seja o acontecimento narrado pela fonte, ser\u00e1 sempre uma vers\u00e3o \u00e0 merc\u00ea do narrador. A testemunha ocular n\u00e3o faz hist\u00f3ria, \u00e9 insumo para um n\u00edvel acima, elaborado. O documento n\u00e3o \u00e9 o fato, \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o dele. O depoimento , por mais sincero, sempre \u00e9 fruto do filtro do depoente. Essas vers\u00f5es das fontes s\u00e3o os fatos. \u00c9 tamb\u00e9m uma leitura, mas n\u00e3o \u00e9 jornalismo, muito mais radical. O rep\u00f3rter\/editor\/redator\/fot\u00f3grafo mergulha, filtra, organiza e divulga. Gosto de citar o exemplo de Rota 66, o livro-bomba de Caco Barcelos. Ele descobriu uma montanha de pap\u00e9is num por\u00e3o sujo da Pol\u00edcia Militar, documentos abandonados ao longo de d\u00e9cadas de assassinatos de inocentes. Mentiu que queria organizar a bagun\u00e7a, mas seu objetivo era fazer a den\u00fancia.<\/p>\n<p>Hoje a fotografia exibe muito mais poder nas m\u00eddias em geral, n\u00e3o porque haja mais espa\u00e7o ou se manifestem muitos olhares absolutos de grande profissionais. Mas por te se intensificado a no\u00e7\u00e3o de que ler o gesto, o design do evento real, \u00e9 decisivo para entender o mundo expresso na reportagem. E isso a foto se presta aparentemente sem intermedia\u00e7\u00e3o. Faz liga\u00e7\u00e3o direta com a percep\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 tamb\u00e9m um jogo de gato e rato entre o que o fot\u00f3grafo v\u00ea, o que consegue mostrar e o que \u00e9 visto e entendido pelo leitor. H\u00e1 tamb\u00e9m a interfer\u00eancia de v\u00e1rios intertextos, que apoiam ou contrariam o que est\u00e1 sendo visto.<\/p>\n<p>Esse jogo \u00e9 mais complicado na palavra, que \u00e9 cem por cento sugest\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o enxerga nada olhando uma letra. S\u00f3 cria algo percept\u00edvel se usar a sintaxe, a l\u00edngua consolidada, o verbo aparelhado. No impresso isso \u00e9 um lugar comum, pois nesse ambiente fazemos distin\u00e7\u00e3o entre texto e imagem. Mas o texto digitalizado subverteu um pouco esse conceito, ou antes, revelou que a escrita tamb\u00e9m \u00e9 imagem. Fica mais dilu\u00edda a aliena\u00e7\u00e3o do verbo (o significado pairando sobre a f\u00edsica dos signos) pois a palavra digitalizada transmutou-se na imagem de significados, tamb\u00e9m \u00e0 merc\u00ea da leitura r\u00e1pida e definitiva. Todos escrevem e fotografam. Brinca, e todos editam, diagramam e difundem.<\/p>\n<p>\u00c9 tocante a defasagem de articulistas que \u201cpreparam\u201d o leitor para algo que vir\u00e1 depois, quando se sabe que podemos ler tudo ao mesmo tempo agora e n\u00e3o dependemos de arautos, exclusivistas ou bam bam bams. Costumo come\u00e7ar qualquer coisa, de not\u00edcia a romance policial, pelo \u00faltimo par\u00e1grafo. N\u00e3o suporto a ansiedade de saber o que est\u00e1 escrito e expl\u00edcito, e ser obrigado a, analogicamente, percorrer o fio de Ariadne do labirinto autoral. Com o desfecho sabido, a marcha das palavras fica livre do suspense.<\/p>\n<p>Desvelar camadas de conceitos que soterram o ato de reportar desmascara o poder tanto das fontes, identificados com as pr\u00f3prias informa\u00e7\u00f5es, quanto dos jornalistas, que acabam lavando as m\u00e3os em rela\u00e7\u00e3o ao que conseguem acessar. H\u00e1 uma terceiriza\u00e7\u00e3o geral, como se fazer jornalismo queimasse as m\u00e3os. Vai ver, queima mesmo. T\u00ednhamos, e temos ainda, rep\u00f3rteres calejados e corajosos. A diferen\u00e7a \u00e9 que hoje se mata mais jornalista. Estamos, como disse Greg Palast no seu c\u00e9lebre livro-den\u00fancia, na \u201cmelhor democracia que o dinheiro pode comprar\u201d, onde reina a pata possante dos poderes sobre a virtualidade das informa\u00e7\u00f5es. Do nosso lado, tudo se dissolve no ar. Do lado de l\u00e1, s\u00f3 vem chumbo grosso.<\/p>\n<p>Mas temos uma vantagem: o talento, gra\u00e7a de quem cria, que lida com um objeto selvagem no mundo domesticado, onde a linguagem virou um balc\u00e3o de neg\u00f3cios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Jornalismo \u00e9 produzir (e n\u00e3o reproduzir) uma leitura dos fatos. E os fatos s\u00e3o vers\u00f5es das fontes. Produzir leitura \u00e9 identificar uma l\u00f3gica, um encadeamento nas evid\u00eancias dos acontecimentos. Estes, s\u00e3o criaturas que nascem sob dom\u00ednio de quem as emite, mas ao atingirem o status de jornalismo (a abordagem livre da manifesta\u00e7\u00e3o advent\u00edcia) [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2474"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2474"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2474\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2475,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2474\/revisions\/2475"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}