{"id":2500,"date":"2011-01-15T12:44:07","date_gmt":"2011-01-15T12:44:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2500"},"modified":"2011-01-15T12:44:07","modified_gmt":"2011-01-15T12:44:07","slug":"metalingua-o-segredo-da-pedra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/metalingua-o-segredo-da-pedra","title":{"rendered":"METAL\u00cdNGUA: O SEGREDO DA PEDRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nPoesia sofre de solid\u00e3o, por isso se cumprimenta, aperta a pr\u00f3pria m\u00e3o num ritual aparentemente insano. Ou, como diz o poeta Alexandre Brito (Porto Alegre, 1959) no seu livro Metal\u00edngua (\u00c9blis, 29 pgs.): \u201cMorde a si mesma com as gengivas de um velho diabo\u201d. A met\u00e1fora \u00e9 perfeita: desde as vanguardas do s\u00e9culo 20, da ling\u00fc\u00edstica, do estruturalismo, do concretismo, pr\u00e1xis etc. a poesia deixou de ser ve\u00edculo de sentimentos, aventuras, discursos para ser apenas palavra diante do espelho. O h\u00e1bito gastou os dentes da m\u00e1gica, que insiste na pergunta: existe algu\u00e9m mais bela do que eu? Sim, diz a imagem, existe, mas voc\u00ea, l\u00edngua can\u00f4nica, que se imagina completa pois abarca tamb\u00e9m as transgress\u00f5es, n\u00e3o tem acesso.<\/p>\n<p>\u00c9 l\u00e1, na \u201cfissura, a fresta, o desvio\u201d, que a imprecis\u00e3o do branco aguarda o lusco-fusco da escrita, compondo um \u201ccrepuscular alvorecer\u201d. Na porta entre os mundos, o poeta tenta capturar o que n\u00e3o existe, e que n\u00e3o oferece enigmas. L\u00e1, onde \u201co cerne de um talvez\u201d \u00e9 \u201cfeito de sil\u00eancio e sal\u201d. Miss\u00e3o imponder\u00e1vel? Seria, se o poeta emudecesse com o desafio. Como professa, se entrega confiando que possa sentir al\u00e9m dos cinco sentidos, ele rasura uma \u201cpo\u00e9tica de arestas\u201d, que funciona como \u201cprotuber\u00e2ncia viva no desmesuradamente plano\/a parte invis\u00edvel do infinitamente dentro\/ o quinto lado do tri\u00e2ngulo\u201d.<\/p>\n<p>Qual o resultado dessa investida, quando o poeta cruza o umbral do imposs\u00edvel de ser percebido, apenas imaginado ( \u00fanica liberdade da percep\u00e7\u00e3o)? Acontece o encontro do que n\u00e3o busca, ou seja \u201ca palavra exata\u201d ou \u201ca liberdade selvagem do lobo\/ instinto que se quer arte\/perfei\u00e7\u00e3o do ovo\u201d. Como pode encontrar sem buscar? Porque seria uma farsa procurar o que se espera nesse jogo bruto da palavra mordendo a pr\u00f3pria cauda. \u00c9 preciso abrir m\u00e3o inclusive da surpresa, que em tese faria parte da \u201ccaligrafia do imagin\u00e1rio\u201d. E palmilhar a sobra do mapa, onde o mist\u00e9rio mistura harpia e f\u00f3sforo.<\/p>\n<p>Alguns poemas atingem o alvo desse carrossel em buraco negro, permitindo que o poeta siga a pista dos \u201csulcos da caneta na p\u00e1gina em branco\u201d para resgatar o poema posto fora. Obra feita de aus\u00eancias, que encarnam o indiz\u00edvel no ato de \u201cvirar uma esquina pelo avesso\u201d, Metal\u00edngua cont\u00e9m sua pr\u00f3pria auto-realiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o apenas nos poemas que pendem entre a pensata e o achado, mas tamb\u00e9m no posf\u00e1cio, a cargo de outro militante dessa transvanguarda do s\u00e9culo 21, Ronald Augusto. Ronald, autor de obra po\u00e9tica significativa, v\u00ea sincronicidade num trabalho que deixou de ser h\u00e1 tempos diacr\u00f4nico, deixou de pertencer ao tempo para ocupar o espa\u00e7o, simultaneamente com a escassez e o derramamento, sem a inten\u00e7\u00e3o de resgatar o que foi perdido ou deixado de lado na saga da poesia contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 complicado. Basta ler o pequeno livro mais de uma vez e deixar-se envolver por \u201ccertos poemas\u201d, que \u201cs\u00e3o as pegadas de um naufr\u00e1gio\/nas areias do deserto de uma\/ampulheta\u201d. Trata-se de poesia aut\u00f3ctene, que n\u00e3o faz parte de esp\u00f3lios, mas apresenta-se encantada por uma linhagem, a do autor que n\u00e3o sossega e foi \u201ccravar sua letra\/ na pele de uma p\u00e1gina\/na bala de um obus\/ no lombo de um desassossego\u201d. Autor que enxerga a l\u00edngua como uma \u201cpedra feita de letras\u201d, isolada, silenciosa, irregular, im\u00f3vel, indiferente.<\/p>\n<p>\u00c9 um objeto n\u00e3o catalog\u00e1vel, que n\u00e3o serve para \u201cpeso sobre papel\u201d, nem \u201cquebrar\u00e1 vidra\u00e7as\u201d. Mas conv\u00e9m, avisa o poeta, n\u00e3o subestim\u00e1-la.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Poesia sofre de solid\u00e3o, por isso se cumprimenta, aperta a pr\u00f3pria m\u00e3o num ritual aparentemente insano. Ou, como diz o poeta Alexandre Brito (Porto Alegre, 1959) no seu livro Metal\u00edngua (\u00c9blis, 29 pgs.): \u201cMorde a si mesma com as gengivas de um velho diabo\u201d. 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