{"id":2530,"date":"2011-02-09T14:26:38","date_gmt":"2011-02-09T14:26:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2530"},"modified":"2011-02-09T14:26:38","modified_gmt":"2011-02-09T14:26:38","slug":"a-rede-social-dinheiro-e-o-melhor-amigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-rede-social-dinheiro-e-o-melhor-amigo","title":{"rendered":"A REDE SOCIAL: DINHEIRO \u00c9 O MELHOR AMIGO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Um sujeito enriquece ao se vingar da ex-namorada, trair o melhor amigo, n\u00e3o dar cr\u00e9dito para quem lhe ajudou a montar um imp\u00e9rio e anular s\u00f3cios inoportunos. Acaba em frente \u00e0 tela do micro implorando para recuperar o amor perdido. Mesmo pagando indeniza\u00e7\u00f5es para quem atropelou pelo caminho, fica bilion\u00e1rio, junto ao dinheiro, \u00fanico relacionamento fiel e duradouro. Diante deste enredo de A rede social (2010), de David Fincher ( do celebrado e para mim execr\u00e1vel \u201cO Clube da Luta\u201d), e que recebeu uma chuva de indica\u00e7\u00f5es para o Oscar, o povo j\u00e1 pergunta com maldade: onde est\u00e1 a amizade, palavra chave do site de relacionamentos Facebook, avaliado hoje em 50 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, gra\u00e7as a uma inje\u00e7\u00e3o de U$ 500 milh\u00f5es do banco Goldman &amp; Sachs?<\/p>\n<p>Amizade \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o que o filme manipula com compet\u00eancia. Os insepar\u00e1veis Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) e Eduardo Saverin, paulistano criado nos EUA (Andrew Garfield), unem for\u00e7as para formatar na internet um clube onde cada membro faz sua rede exclusiva de contatos. Uma id\u00e9ia nascida em Harvard focada na conquista amorosa e que se expandiu para outras atividades e universidades, at\u00e9 atingir os cinco continentes, sendo hoje uma network de 500 milh\u00f5es de usu\u00e1rios. O la\u00e7o se rompe quando surge Sean Parker (Justin Timberlake ), co-fundador da Napster, empresa que baixa m\u00fasica e que perdeu judicialmente para as grandes gravadoras. Conquistador, ped\u00f3filo e cocain\u00f4mano, o novo personagem racha o n\u00facleo original marginalizando o amigo da primeira hora de Zuckerberg, mas acaba tamb\u00e9m ficando fora do circuito, apesar de ainda possuir uma pequena parte das a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o sobre a funda\u00e7\u00e3o do Facebook e considerado longe da realidade pelos protagonistas reportados nele. N\u00e3o importa. O que vale \u00e9 o filme, que acaba sendo a imagem pelo avesso do que lhe faz a fama. Na rede virtual de \u201camigos\u201d (na vida fora do filme), tudo corre bem entre os interlocutores, j\u00e1 que voc\u00ea pode escolher, bloquear, aplaudir, conversar, xingar etc. Em \u201cA Rede Social\u201d, o que h\u00e1 \u00e9 briga entre mastins. O ponto de inflex\u00e3o \u00e9 a monetiza\u00e7\u00e3o da id\u00e9ia. Primeiro, era preciso registrar o site sem que os outros envolvidos soubessem. Para isso, foram ludibriados (acabaram levando, na justi\u00e7a, U$ 65 milh\u00f5es).<\/p>\n<p>Depois, era preciso arrancar do melhor amigo um dinheiro b\u00e1sico para as primeiras despesas (milo d\u00f3lares inicialmente, depois U$ 19 mil, sa\u00eddos do bolso do pai do brasileiro, que emigrou nos anos 90 porque a fam\u00edlia estava na lista dos seq\u00fcestr\u00e1veis). Mais tarde, decidir entre anunciantes ou investidores, para intensificar a empresa at\u00e9 chegar a um status de multiplica\u00e7\u00e3o de capital, o que de fato ocorreu. E, finalmente, diluir as a\u00e7\u00f5es do segundo s\u00f3cio (o brasileiro Eduardo) para abocanhar a maior parte do butim. Deu certo. Gerou processos, mas o saldo foi positivo. Venceu a boa velha amizade com a bufunfa.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma postura racista no filme, que foca em pequenos g\u00eanios milion\u00e1rios brancos fazendo jogo de gente grande e tirando sarro de outras paragens, como Brasil (sempre n\u00f3s) ou Caribe, e de \u201casi\u00e1ticas\u201d, boas para a cama. Fort\u00f5es loiros que s\u00e3o ludibriados por nerds fracotes tamb\u00e9m entram na dan\u00e7a. No fundo, \u00e9 tudo vingan\u00e7a, pois o garoto n\u00e3o tinha chance com a namorada, exausta das conversas intensas e fascinada pelos atletas remadores, os que levaram a rasteira do micreiro.<\/p>\n<p>\u00c9 de se perguntar, a partir deste filme: os sites de relacionamento expandiram, reinventaram ou substitu\u00edram a amizade, espichando-a como se fosse massa de doce portugu\u00eas, que a partir de um n\u00facleo pode cobrir uma sala, tornando a massa t\u00e3o fina que chega a ser transparente? O fato \u00e9 que a amizade j\u00e1 n\u00e3o andava bem das pernas, pelo menos a tradicional, devorada quando as cidades deixaram de ser espa\u00e7os identific\u00e1veis de conv\u00edvio social, e a fidelidade aos lugares se desmanchou devido \u00e0 mobilidade exigida pelas migra\u00e7\u00f5es e as atividades de sobreviv\u00eancia. A superficialidade das rela\u00e7\u00f5es sociais acabou sendo pautada pelo lazer e o consumo e n\u00e3o mais por princ\u00edpios e valores permanentes, como se acreditava. Ou \u00e9 poss\u00edvel que esses princ\u00edpios nunca foram hegem\u00f4nicos de fato, pois sempre houve fingimento ou trai\u00e7\u00e3o. E os facebook da vida vieram reativar a velha ilus\u00e3o de que podemos conviver com nossas diferen\u00e7as entre tanto conflito.<\/p>\n<p>J\u00e1 existia apenas a amizade de ocasi\u00e3o ou resultados, gerida por interesses profissionais e limitada aos ambientes corporativos. Vizinhan\u00e7a e nacionalidade sumiram do mapa e no v\u00e1cuo pol\u00edtico dessa mudan\u00e7a o Facebook, o Twitter e o Orkut, entre outros, se destacaram como reguladoras e formadoras de redes de contatos afins entre pessoas dispersas, separadas radicalmente por vidas que jamais se tocam de verdade.<\/p>\n<p>Os sites de relacionamento funcionam porque trabalham fic\u00e7\u00f5es que clonam necessidades reais. Voc\u00ea precisa de amigos, mas sabe que n\u00e3o pode contar com ningu\u00e9m. Por isso mant\u00e9m um perfil no Facebook onde consegue interagir com desconhecidos, que com o h\u00e1bito tornam-se t\u00e3o pr\u00f3ximos como se fossem da fam\u00edlia. Sabemos que n\u00e3o s\u00e3o, mas na sociedade do espet\u00e1culo vale a representa\u00e7\u00e3o. E aqui, a composi\u00e7\u00e3o de elementos audiovisuais, pontuados por di\u00e1logos certeiros, faz do filme um candidato capaz de levar muito Oscar para casa. Se n\u00e3o levar, tudo bem. Vale ver. Voc\u00ea embarca na vida dos empreendimentos da tecnologia, nas comunidades unversit\u00e1rias, nos lances decisivos dos neg\u00f3cios e sai sabendo um pouco sobre esse rolo mundial que afeta a todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Um sujeito enriquece ao se vingar da ex-namorada, trair o melhor amigo, n\u00e3o dar cr\u00e9dito para quem lhe ajudou a montar um imp\u00e9rio e anular s\u00f3cios inoportunos. Acaba em frente \u00e0 tela do micro implorando para recuperar o amor perdido. 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