{"id":2534,"date":"2011-02-09T14:29:22","date_gmt":"2011-02-09T14:29:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2534"},"modified":"2011-02-09T14:29:22","modified_gmt":"2011-02-09T14:29:22","slug":"indignacao-e-linguagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/indignacao-e-linguagem","title":{"rendered":"INDIGNA\u00c7\u00c3O \u00c9 LINGUAGEM"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A explos\u00e3o da indigna\u00e7\u00e3o popular no Egito e na Tun\u00edsia n\u00e3o pertence \u00e0s oposi\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, \u00e0s ONGs, ao fundamentalismo e nem \u00e0s m\u00eddias sociais ou \u00e0 internet. Isso n\u00e3o significa que esteja desvinculada do real. S\u00f3 que essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 mais profunda do que aparenta e projeta o futuro das revoltas. O que existe s\u00e3o linguagens individuais sintonizadas num poder coletivo de press\u00e3o contra os governos. Porque tudo \u00e9 linguagem e nada existe fora dela. Se voc\u00ea reproduz a fala do poder, de qualquer lado, do governo ou n\u00e3o, voc\u00ea est\u00e1 aparelhado. Se voc\u00ea desmascara, descostura, denuncia e gera outras solu\u00e7\u00f5es de linguagem fora desse circuito voc\u00ea tem chance de ser livre.<\/p>\n<p>O indiv\u00edduo se insurge quando gera uma fala de insurg\u00eancia. N\u00e3o algo quem remeta a metas, a grandes objetivos, ao para\u00edso terrestre, \u00e0 utopia ou \u00e0 mudan\u00e7a. A indigna\u00e7\u00e3o, como se apresenta atualmente, \u00e9 a quebra do jugo imposto pela linguagem. Uma ditadura \u00e9 um conjunto de leis, normas, h\u00e1bitos, tradi\u00e7\u00f5es e planos. Se manifesta pela for\u00e7a, mas hegemonicamente pela linguagem, muito menos do que pela a\u00e7\u00e3o f\u00edsica. As pessoas est\u00e3o confinadas a uma situa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o conseguem romper o c\u00edrculo que ela forma ao redor de todos.<\/p>\n<p>Vemos isso na situa\u00e7\u00e3o brasileira. Temos uma ditadura, um sistema pol\u00edtico engessado, que valoriza o voto do grot\u00e3o para derrotar a opini\u00e3o p\u00fablica concentrada nas grandes aglomera\u00e7\u00f5es urbanas. Os quadros pol\u00edticos n\u00e3o mudam e anexam novos contingentes para repartir o butim, o dinheiro p\u00fablico. Para o eleitor, \u00e9 oferecido duas op\u00e7\u00f5es: ou voc\u00ea vota no Sarney ou ent\u00e3o no Sarney. Como voc\u00ea anula o voto ou vota a favor ou contra o Sarney, d\u00e1 Sarney na ficha. N\u00e3o tem erro. Tem algu\u00e9m batendo em voc\u00ea nesta ditadura? N\u00e3o. Mas o circulo se fecha cada vez mais. N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda. \u00c9 porque a linguagem toma conta de tudo.<\/p>\n<p>As revoltas antigas tinham a percep\u00e7\u00e3o de que \u00e9 a\u00ed que mora o perigo e onde o conflito se resolve. N\u00e3o \u00e9 por nada que os comunistas inventaram o agitprop, sigla de Agita\u00e7\u00e3o e Propaganda, para convencer as massas de suas teses. As ditaduras imp\u00f5em suas realidades por meia da publicidade massiva, como acontecia no tempo de Hitler e como acontece hoje no Brasil. Carros em estradas vazias comprados a presta\u00e7\u00f5es a perder de vista \u00e9 um exemplo. A campanha Brasil para Tolos \u00e9 outro. Ou aquela antiga do Brasil grande. E se h\u00e1 uma erup\u00e7\u00e3o da revolta, tome mais linguagem: caras pintadas, plano cruzado, ficha limpa, tudo cai no rema-rema da palavra e da imagem.<\/p>\n<p>No Egito,o governo cortou os la\u00e7os com a internet, mas parece que o Google encontrou uma janela para continuar havendo comunica\u00e7\u00e3o. O celular, o twitter, o facebook s\u00e3o importantes para a revolu\u00e7\u00e3o das ruas, mas n\u00e3o \u00e9 a ess\u00eancia dela. O n\u00facleo do drama \u00e9 a indiv\u00edduo rompendo com o circulo de poder imposto pela linguagem ditatorial. Esse la\u00e7o se rompe por meio de uma decis\u00e3o pessoal ou pelo exemplo alheio, na busca de pontes com os contempor\u00e2neos. Como vivemos numa sociedade de massas, conectada, o fogo se espalha de um dia para outro. Os jovens migrantes de Paris, quando incendiaram por meses os carros, tamb\u00e9m se comunicavam assim. Mas a insurg\u00eancia n\u00e3o estava nos bits e bytes, mas nessa rela\u00e7\u00e3o conflituosa entre a linguagem imposta e a linguagem que quer se libertar.<\/p>\n<p>Fico sabendo de movimentos de indigna\u00e7\u00e3o nacional que est\u00e3o se agrupando. Se fizerem como no final da d\u00e9cada de 70, quando a revolta gerou o PT, ir\u00e1 tudo por \u00e1gua abaixo de novo. A insurrei\u00e7\u00e3o precisa ser radical e profunda: dentro de n\u00f3s e junto com todos os que procuram rasgar as vestes que nos impuseram. Vale tudo: piada, sarcasmo, poesia, artigo, blog ou recontrablog. Pois somos o que dizemos. O que fazemos fora da linguagem percept\u00edvel n\u00e3o existe, n\u00e3o conta para a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O perigo \u00e9, feito o movimento, um grupo aguerrido ditatorial tomar as r\u00e9deas da indigna\u00e7\u00e3o e impor outra ditadura. Por isso a briga precisa ser feia: dentro do cora\u00e7\u00e3o bruto da palavra e seus desdobramentos. \u00c9 onde se corporifica o mundo em que vivemos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A explos\u00e3o da indigna\u00e7\u00e3o popular no Egito e na Tun\u00edsia n\u00e3o pertence \u00e0s oposi\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, \u00e0s ONGs, ao fundamentalismo e nem \u00e0s m\u00eddias sociais ou \u00e0 internet. Isso n\u00e3o significa que esteja desvinculada do real. 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