{"id":2687,"date":"2011-05-30T13:27:46","date_gmt":"2011-05-30T16:27:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2687"},"modified":"2011-05-30T13:27:46","modified_gmt":"2011-05-30T16:27:46","slug":"o-estado-em-1972-jornalismo-do-mundo-perdido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-estado-em-1972-jornalismo-do-mundo-perdido","title":{"rendered":"O ESTADO EM 1972: JORNALISMO DO MUNDO PERDIDO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Fiquei alguns meses em S\u00e3o Paulo morando de favor e fazendo uma mat\u00e9ria por m\u00eas no Jornal de Investimentos, editado pelo Celso Ming, e que era um dos ve\u00edculos do grupo da Gazeta Mercantil. Meu tema eram empresas que tinham acabado de entrar nas Bolsa de Valores. Ming esmigalhava meu texto sem d\u00f3 e me obrigava a reescrever um monte de vezes. Cansado daquela vida, resolvi viajar para Florian\u00f3polis, onde amigos meus tinham alugado uma casa. No primeiro churrasco, fui avisado por Ayrton Kanitz que Jorge Escosteguy trabalhava em O Estado e precisava de um redator. Era minha especialidade: o copy.<\/p>\n<p>Sempre admirei rep\u00f3rteres mas n\u00e3o estava talhado para a fun\u00e7\u00e3o. Nas primeiras mat\u00e9rias me colocavam no copy. Aproveitavam meu texto para corrigir o dos outros. E nisso fiquei,praticamente a vida toda, com algumas incurs\u00f5es nas reportagens e na edi\u00e7\u00e3o. Quando cheguei na reda\u00e7\u00e3o, Scotch brincou escondendo-se atr\u00e1s da Olivetti. Nos conhec\u00edamos do tempo da Folha da Tarde, dois anos antes, da Caldas Junior de Porto Alegre. Acabamos morando perto e remando sem parar no jornal, fechando os notici\u00e1rios de Nacional e Internacional. L\u00e1 estava o Aluisio Amorim, tamb\u00e9m copy do Scotch.<\/p>\n<p>Lembro que choveu demais aquele ano de 1972 e nos pergunt\u00e1vamos quando ter\u00edamos a ilha da magia. Scotch era um d\u00ednamo e vivia em conflito com a chefia da reda\u00e7\u00e3o, a cargo do gentil Marcilio Medeiros, filho. Havia pessoas pacatas como Laudelino Sard\u00e1, que jamais se metia em brigas, jovens talentos como Cesar Valente e outros mais animados, que gostavam de implicar com nossa biografia e se perguntavam o que faz\u00edamos ali na terra deles. Na \u00e9poca da repress\u00e3o braba, todos n\u00f3s est\u00e1vamos sob suspeita. O problema era a pol\u00edtica, mas meu cabelos compridos denunciavam aliena\u00e7\u00e3o. Eu, pelo menos, n\u00e3o aparentava perigo. N\u00e3o iria pegar em armas, j\u00e1 que tinha ainda o agravante de fazer poesia. J\u00e1 o Scotch, sempre disseram que ele era do partid\u00e3o, mas nunca vi isso confirmado. Para mim, era um esp\u00edrito livre, anti-ditadura, como todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Um belo dia o Matusal\u00e9m Comelli, que era dono de O Estado, convidou o Kanitz para trabalhar l\u00e1. Mario Medaglia, bamba do notici\u00e1rio esportivo e &#8220;jornalista desde que nasceu&#8221; tamb\u00e9m viera do JSC a convite de O Estado, assim como eu e Virson Holderbaum, amigo certo desde os anos 60. Ayrton Kanitz dava show na sucursal do Jornal de Santa Catarina na capital e fazia concorr\u00eancia pesada. Foi convidado para determinada fun\u00e7\u00e3o, n\u00e3o lembro qual, mas depois de ter pedido demiss\u00e3o, foi informado que seu cargo era outro. Faria coisa diferente do combinado. Foi o que fiquei sabendo, n\u00e3o tenho detalhes de quem partiu a decis\u00e3o. Isso causou estranheza entre a gauchada, que resolveu pressionar a dire\u00e7\u00e3o para cumprir a palavra. Em v\u00e3o. Resultado: a maioria saltou fora e foi assim que se deu o quiproc\u00f3 de O Estado. Acabei indo mais tarde para S\u00e3o Paulo, onde pousei na reda\u00e7\u00e3o da Folha de S\u00e3o Paulo e depois em outras, como canso de repetir nas minhas mem\u00f3rias precoces (j\u00e1 esgotei todos os assuntos, nada mais me resta a fazer na terceira idade; posso ir sestear).<\/p>\n<p>Os fatos assim se deram e acabamos saindo da cidade que t\u00ednhamos escolhido para viver (acabei voltando,primeiro em 1981 e depois em 2003; a\u00ed, fiquei). Ainda rodei algum tempo desempregado, mas a barra pesou. Migrei primeiro para Vit\u00f3ria do Esp\u00edrito Santo, onde trabalhei no novo jornal A Tribuna, voltei a Porto Alegre para a Folha da Manh\u00e3 da Caldas Junior em 1974 e finalmente S\u00e3o Paulo novamente, onde passei por v\u00e1rios lugares. Para que servem essas lembran\u00e7as, t\u00e3o prosaicas? S\u00f3 para dizer que fa\u00e7o parte da proto-hist\u00f3ria do jornalismo brasileiro, aquele que nem \u00e9 mais lembrado, j\u00e1 que saudade hoje se sente dos anos 80 para c\u00e1. Para tr\u00e1s, j\u00e1 \u00e9 o mundo perdido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Fiquei alguns meses em S\u00e3o Paulo morando de favor e fazendo uma mat\u00e9ria por m\u00eas no Jornal de Investimentos, editado pelo Celso Ming, e que era um dos ve\u00edculos do grupo da Gazeta Mercantil. Meu tema eram empresas que tinham acabado de entrar nas Bolsa de Valores. 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