{"id":2693,"date":"2011-05-30T13:31:58","date_gmt":"2011-05-30T16:31:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2693"},"modified":"2011-05-30T13:31:58","modified_gmt":"2011-05-30T16:31:58","slug":"perder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/perder","title":{"rendered":"PERDER"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Vemos tanta gente cantando vit\u00f3ria na ind\u00fastria do espet\u00e1culo que chegamos a nos perguntar,como \u00c1lvaro de Campos, se \u201cn\u00e3o h\u00e1 mais gente no mundo\u201d. S\u00e3o multid\u00f5es em f\u00faria comemorando campeonatos, com seq\u00fcelas conhecidas e repetidas, na\u00e7\u00f5es vibrando com a morte alheia, como se a vingan\u00e7a apagasse a m\u00e1cula, vaidades pincelando atitudes sem import\u00e2ncia, entre outras manifesta\u00e7\u00f5es suspeitas. O conv\u00edvio pac\u00edfico implica aceitar a perda, sob pena de virarmos todos uns cretinos. Todo punho cerrado para o alto atinge algu\u00e9m, enquanto as m\u00e3os postas a todos beneficia.<\/p>\n<p>Perder \u00e9 o pre\u00e7o que pagamos pela civiliza\u00e7\u00e3o, que por natureza \u00e9 criada em cima de vit\u00f3rias pesadas, celebradas em monumentos e datas hist\u00f3ricas. Depois da carnificina que \u00e9 a funda\u00e7\u00e3o de cidades e na\u00e7\u00f5es, a humanidade se retira para a paz, que \u00e9 o resultado dos conflitos sob controle. N\u00e3o se pode continuar querendo vencer a todo pano, sem negocia\u00e7\u00e3o,como se estiv\u00e9ssemos ainda em forma\u00e7\u00e3o.No esporte, quando o resultado estiver definido, vencedores e vencidos devem trabalhar mais o bom humor do que a frustra\u00e7\u00e3o. \u00c9 para isso que existem jogos e campeonatos: para levar as diferen\u00e7as a um territ\u00f3rio onde n\u00e3o haja sangue nem morte. Mas n\u00e3o \u00e9 isso o que se v\u00ea em muitos casos.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma cultura implantada de tirar vantagem sobre a competi\u00e7\u00e3o na vida profissional e pessoal. Isso \u00e9 reproduzido em rede, desde o mais alto escal\u00e3o. H\u00e1 uma gula em rela\u00e7\u00e3o ao patrim\u00f4nio alheio, fruto da m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda e do sucateamento dos princ\u00edpios b\u00e1sicos da vida social. N\u00e3o ter parece que agora gera um sentimento irrepar\u00e1vel de perda, que s\u00f3 o crime poderia reverter. Tanta viol\u00eancia e corrup\u00e7\u00e3o talvez venha desse voluntarismo em rela\u00e7\u00e3o ao que \u00e9 dos outros. Vemos isso na vida cultural, onde os nichos, as panelas, os aparelhamentos continuam excluindo vastas por\u00e7\u00f5es dos talentos, que se perdem no ralo da incompreens\u00e3o e da falta de oportunidades.<\/p>\n<p>Retirar-se para se concentrar e meditar \u00e9 uma atitude religiosa que serve para todos os aspectos da vida. Deixar de lado a gana das carreiras feitas a qualquer custo, principalmente da sa\u00fade alheia, leva ao perigoso sentimento de exclus\u00e3o, refor\u00e7ado pela pompa de quem continua no front. \u00c9 muito dif\u00edcil refazer uma vida profissional em novos termos. O mais barato \u00e9 continuar insistindo no mesmo tipo de fun\u00e7\u00e3o e suas conseq\u00fc\u00eancias. Adiamos assim para os ultimos anos da vida datada o que poder\u00edamos ter feito no in\u00edcio. O resultado \u00e9 o que se manifesta em aglomera\u00e7\u00f5es, que os idosos deblateram sobre as injusti\u00e7as do mundo, pois reservaram a mocidade para a sobreviv\u00eancia sob o tac\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o pura e simples.<\/p>\n<p>Perder pode ser outra coisa. \u201cVoc\u00ea ganhou\u201d diz o policial para o revolucion\u00e1rio morto na v\u00e9spera da independ\u00eancia da Arg\u00e9lia no filme, indicado ao Oscar , Hors la Loi (Fora da Lei, 2010), de Rachid Bouchareb. Um rev\u00e9s pode ser ind\u00edcio de vit\u00f3ria. Ou a imposi\u00e7\u00e3o de uma verdade: a de que somos prec\u00e1rios, escassos e precisamos conviver com a perda para n\u00e3o nos entregarmos de vez \u00e0 barb\u00e1rie.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada originalmente no jornal Momento de Uruguaiana.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Vemos tanta gente cantando vit\u00f3ria na ind\u00fastria do espet\u00e1culo que chegamos a nos perguntar,como \u00c1lvaro de Campos, se \u201cn\u00e3o h\u00e1 mais gente no mundo\u201d. 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