{"id":2763,"date":"2011-07-27T22:06:41","date_gmt":"2011-07-28T01:06:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2763"},"modified":"2011-07-27T22:06:41","modified_gmt":"2011-07-28T01:06:41","slug":"o-sangue-azul-da-republica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-sangue-azul-da-republica","title":{"rendered":"O SANGUE AZUL DA REP\u00daBLICA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Os americanos cobi\u00e7am a Corte, institui\u00e7\u00e3o mon\u00e1rquica que garante status heredit\u00e1rio e hegemonia sobre os demais adquiridos no ber\u00e7o. Numa Rep\u00fablica, onde sobram pal\u00e1cios para tudo, o que atrapalha \u00e9 o voto, mas nada que uma urna eletr\u00f4nica programada, um bipartidarismo viciado, um sistema de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica engessado, ou um marketing milion\u00e1rio n\u00e3o d\u00ea jeito. Por isso temos linhagens seculares no mundo republicano, com trisnetos seguindo o passo dos ancestrais, mas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa do que um duque, um conde, uma princesa, um rei. Essa demanda reprimida acaba desaguando em todo tipo de t\u00edtulo nobili\u00e1rquico para personagens da ind\u00fastria do espet\u00e1culo, onde imperam as cabe\u00e7as coroadas (aqui no Brasil, temos reis, rainhas e imperadores na m\u00fasica ou no esporte) .<\/p>\n<p>No cinema, sempre h\u00e1 hist\u00f3ria de algu\u00e9m que ascende \u00e0 nobreza, principalmente por meio da especialidade americana, a ilus\u00e3o da arte audiovisual. Basta ver qualquer Sess\u00e3o da Tarde para se entupir de hist\u00f3rias de jovens americanas que conquistam pr\u00edncipes europeus. Ou ent\u00e3o, os contos de fadas em que cinderelas se fantasiam para roubar o cora\u00e7\u00e3o de uma herdeiro do trono. Cinderela \u00e9 personagem recorrente na S\u00e9tima Arte, mesmo que a ilus\u00e3o seja datada e tudo volte ao normal no final da fita, pois algu\u00e9m sai ganhando, se n\u00e3o a protagonista principal, pelo menos algum personagem coadjuvante, que acaba casando e ascendendo para o sangue azul.<\/p>\n<p>Por duas vezes, Frank Capra filmou a mesma hist\u00f3ria que tem tudo a ver com essa voca\u00e7\u00e3o. <strong>Dama por um dia de 1933<\/strong> (<em>Lady for a Day<\/em>) e sua refilmagem em 1961 (<em>Pocketful of Miracles<\/em>) conta a hist\u00f3ria da mendiga e vendedora de ma\u00e7\u00e3s que recebe a visita da filha, que vem comprometida com um conde, j\u00e1 que ela, a mendiga, finge ser milion\u00e1ria em cartas de papel timbrado surrupiados de um hotel de luxo. A vinda da herdeira p\u00f5e a velha mulher em p\u00e2nico, que \u00e9 socorrida por um gangster e sua noiva, que a transformam numa verdadeira senhora da alta sociedade, ou seja, o espelho mais pr\u00f3ximo da nobreza europ\u00e9ia.<\/p>\n<p>Prefiro a segunda vers\u00e3o, que acabo de ver (a primeira tamb\u00e9m est\u00e1 dispon\u00edvel, mas no you tube). Ali est\u00e3o todos os elementos da maneira como os EUA v\u00eaem sua principal defici\u00eancia, ou seja, a falta de uma linhagem nobre na sua elite. Como poder\u00e3o imperar se n\u00e3o existir o destino manifesto, o cargo ungido por Deus, incontent\u00e1vel, como acontece nas monarquias? Sem isso, o poder precisa ser exercido \u00e0 for\u00e7a, que \u00e9 o que acontece com as sucessivas invas\u00f5es em diversos pa\u00edses. Mas Capra deu um jeito. Sem tapar o sol com a peneira, mostra que a maestria americana em criar ilus\u00f5es serve perfeitamente para outorgar ao pa\u00eds o que mais lhe falta, um t\u00edtulo de nobreza. Assim, a velha mendiga (interpretada magistralmente por Betty Davis) \u00e9 travestida para receber a filha (Ann Margret, linda, bem mocinha) e a fam\u00edlia do noivo, com o apoio dos gangsters (Peter Falk est\u00e1 impag\u00e1vel, absolutamente g\u00eanio) e os ambulantes da cidade.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da primeira vers\u00e3o, que segue todo tempo os passos da velha, a segunda divide o foco entre Dude, o chefe da quadrilha (Glenn Ford, \u00f3timo), e seu esfor\u00e7o para dominar Nova York, dividido entre a a\u00e7\u00e3o que isso representa e a perspectiva da modorra no casamento, e Annie Apple, a vendedora de ma\u00e7\u00e3s, que vive em fun\u00e7\u00e3o da filha distante. Trata-se de Nova York, a sedu\u00e7\u00e3o representada pelo fruto proibido. A mo\u00e7a que desconhece a situa\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel da m\u00e3e e \u00e9 sustentada pelas gorjetas que a mulher consegue na sua faina nas ruas, vai virar condessa por meio do casamento, mas antes sua fam\u00edlia precisa passar pelo crivo da auditoria mon\u00e1rquica. \u00c9 para driblar essa inspe\u00e7\u00e3o que a trama se arma.<\/p>\n<p>A mulher do gangster ( a bela Hope Lange)\u00e9 filha de um assecla de Dude que morreu endividado. Ela precisa pagar a d\u00edvida e casar com o gangster, portanto quer tamb\u00e9m transcender sua origem para chegar ao seu destino, que \u00e9 uma casa pacata com marido e filhos. Seu apelido \u00e9 Queenie (diminutivo de Queen, rainha) e seu nome verdadeiro \u00e9 Elizabeth, et pour cause. Para deixar de ser a pequena rainha da noite para tornar-se a rainha Elizabeth do lar, ela tenta (e consegue) convencer seu noivo a apoiar a vendedora de ma\u00e7\u00e3s, alimentar a ilus\u00e3o para que a filha possa escapar da pobreza.<\/p>\n<p>Tudo d\u00e1 certo, como acontece sempre nos filmes do otimista Capra. A velha convence os nobres gra\u00e7as a uma chantagem do gangster sobre os grandalh\u00f5es de Nova York, prefeito e governador inclusive. Mas volta para as ruas, pois sua miss\u00e3o est\u00e1 cumprida. Foi nobre por um dia, mas n\u00e3o importa, a filha, sua descend\u00eancia,est\u00e1 garantida, entrou para o pante\u00e3o da nobreza. \u00c9 quando os cidad\u00e3os da rep\u00fablica podem usufruir dos privil\u00e9gios do sangue azul.<\/p>\n<p>O ritmo dos di\u00e1logos, a perfei\u00e7\u00e3o das cenas, as interpreta\u00e7\u00f5es magistrais (como a de Thomas Mitchell como o juiz corrupto) fazem da segunda vers\u00e3o de Dama por um dia um filme antol\u00f3gico. \u00c9 absolutamente hil\u00e1rio e encantador. O encanto que cruza o tempo e se mant\u00e9m intacto. N\u00e3o se trata de cultuar o passado, mas de compet\u00eancia na arte dif\u00edcil que \u00e9 o cinema.<\/p>\n<p>Quem d\u00e1 dimens\u00e3o exata da grandeza do filme \u00e9 Bette Davis. Quando ela \u00e9 transformada numa dama, por exemplo, assume aquela postura t\u00e3o conhecida da sua biografia cinematogr\u00e1fica, em in\u00fameros filmes em que deitou charme enchendo a tela. Mas esse ar aristocr\u00e1tico, que ela faz transparecer t\u00e3o natural, ficaria estranho para uma mendiga. Bette Davis ent\u00e3o o que faz? Caminha de maneira tr\u00f4pega pela sala, pois o andar define a personagem. O contraste entre sua apar\u00eancia, suas roupas e maquiagem, com aquele andar prejudicado, \u00e9 uma grande performance desta que \u00e9 uma das maiores atrizes de todos os tempos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Os americanos cobi\u00e7am a Corte, institui\u00e7\u00e3o mon\u00e1rquica que garante status heredit\u00e1rio e hegemonia sobre os demais adquiridos no ber\u00e7o. 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