{"id":2765,"date":"2011-07-27T22:11:18","date_gmt":"2011-07-28T01:11:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2765"},"modified":"2011-07-27T22:11:18","modified_gmt":"2011-07-28T01:11:18","slug":"billy-wilder-abre-o-bau-de-sherlock-holmes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/billy-wilder-abre-o-bau-de-sherlock-holmes","title":{"rendered":"BILLY WILDER ABRE O BA\u00da DE SHERLOCK HOLMES"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Sherlock Holmes \u00e9 personagem liter\u00e1rio, por isso n\u00e3o pode viver longe do seu bi\u00f3grafo, o dr. Watson, que o inventa por meio da narrativa. Ambos s\u00e3o cria\u00e7\u00e3o de Conan Doyle, que coloca assim o relacionamento entre a dedu\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a l\u00f3gica em parceria com a imagina\u00e7\u00e3o, encarnado pelo detetive, e a sua vers\u00e3o idealizada e redutiva, sem nenhuma sofistica\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise, representada pelo m\u00e9dico. A vis\u00e3o mais tosca dessa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 a cal\u00fania, ou seja, de que ambos formam um casal homoafetivo, quando o fato \u00e9 que as duas criaturas siamesas convivem for\u00e7adamente com suas diferen\u00e7as por imposi\u00e7\u00e3o da literatura, j\u00e1 que fora dela n\u00e3o existiriam. O que pode ser feito para revelar essa complexidade? \u00c9 preciso que o autor seja socorrido por um dos seus pares, no caso, o g\u00eanio de Billy Wilder.<\/p>\n<p>No seu filme <strong>A vida secreta de Sherlock Holmes<\/strong> (1970), Billy Wilder revela um caso complicado em que Holmes teria levado desvantagem pela primeira e \u00fanica vez (e esse seria o motivo da publica\u00e7\u00e3o tardia do evento). \u00c9 pura cria\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, fundamente baseada na obra de Conan Doyle. O filme inicia e termina com p\u00e1ginas escritas, delimitando assim o lugar onde a hist\u00f3ria se circunscreve, um roteiro imaginado por um Watson morto (n\u00e3o pertencente mais \u00e0 obra original) e que coloca na roda dos aficionados 50 anos depois de seu desaparecimento (portanto, j\u00e1 na era do cinema). O caso \u00e9 o desafio proposto por uma espi\u00e3 do imp\u00e9rio austr\u00edaco, exatamente onde Wilder nasceu (em Sacha, hoje pertencente \u00e0 Pol\u00f4nia) , o que \u00e9 uma met\u00e1fora poderosa do filme, pois essa personagem mulher seria a interfer\u00eancia de Wilder na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O deslocamento narrativo, da abordagem fora da Inglaterra por uma protagonista mulher pertencente ao \u201cinimigo\u201d, incide sobre os lugares comuns brit\u00e2nicos mais caros: a pontualidade exagerada como uma improbabilidade hil\u00e1ria, a governanta que trata seus h\u00f3spedes como crian\u00e7as levadas e n\u00e3o como adultos solteiros, o puritanismo sexual elevado ao m\u00e1ximo absurdo, como a proibi\u00e7\u00e3o de haver sexo na casa de h\u00f3spedes, ou a separa\u00e7\u00e3o dos corpos do casal na cabine do trem, acrescidos do clima execr\u00e1vel e a falta de calefa\u00e7\u00e3o adequada nas pris\u00f5es e a ingenuidade da rainha diante dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos da guerra.<\/p>\n<p>Esses excessos est\u00e3o sintonizados com os desvirtuamentos narrativos do bi\u00f3grafo, que pinta seu personagem sem defeitos, exagerando na dose, o que causa uma rea\u00e7\u00e3o ferina de Sherlock (interpretado por Robert Stephens). O biografado assim escapa das garras do seu narrador que n\u00e3o consegue enquadr\u00e1-lo devidamente. E tamb\u00e9m escapa da percep\u00e7\u00e3o original que os leitores tem da obra, quando lidam apenas com as apar\u00eancias das hist\u00f3rias e n\u00e3o mergulham na leitura de seus sinais. Essa independ\u00eancia \u00e9 representada pelo v\u00edcio da coca\u00edna, algo que o seri\u00edssimo Dr.Watson (Colin Blakely ) n\u00e3o consegue impedir. Watson entra em conflito permanente com Sherlock, no filme, por tentar se livrar dele de alguma forma, ou mentindo sobre o relacionamento dos dois para escapar de uma bailarina louca, ou porque o detetive se deixa levar pela m\u00e3o da esp\u00ed\u00e3 (Genevi\u00e8ve Page). O que no in\u00edcio parecia homossexualidade de Sherlock \u00e9 a impossibilidade de se relacionar com as mulheres devido ao seu of\u00edcio de desconfiar de todos. Um casal s\u00f3 existe na confian\u00e7a m\u00fatua, como a que existe entre personagem e bi\u00f3grafo nas p\u00e1ginas liter\u00e1rias.<\/p>\n<p>Mulheres s\u00e3o trai\u00e7oeiras, como comprova a noiva que morreu de gripe uma semana antes de casar com o detetive. E a regra \u00e9 confirmada pela falsa esposa que procura o marido e se revela a espi\u00e3 inimiga. Mas a liga\u00e7\u00e3o acaba acontecendo e o amor s\u00f3 pode ser declarado por c\u00f3digo Morse, quando tudo est\u00e1 perdido. Gente n\u00e3o passa de linguagem e os fatos s\u00e3o apenas representa\u00e7\u00f5es, fruto do uso ou encarna\u00e7\u00e3o das palavras e imagens. A genialidade do filme \u00e9 mostrar a imortal cria\u00e7\u00e3o de Conan Doyle como uma obra aberta, que no fim confirma a escrita original. O que parece escapar da origem, da autenticidade da fonte, apenas a refor\u00e7a. Mas com a sofistica\u00e7\u00e3o de denunciar que tudo n\u00e3o passa de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de \u201catualizar\u201d a obra, seria \u00f3bvio demais. Mas de descobrir nela o que parece faltar (o romantismo de Sherlock, mesmo n\u00e3o sendo um sentimental), ou de desmoralizar o que parece fazer parte (a rela\u00e7\u00e3o homossexual que n\u00e3o existe). Sherlock \u00e9 afetado n\u00e3o por n\u00e3o gostar de mulher, mas por fazer parte de uma civiliza\u00e7\u00e3o que transcende na\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que se identifica com seus pares, como a espi\u00e3 austr\u00edaca, e se indisp\u00f5e tanto contra a Scotland Yard quando seu irm\u00e3o, o sinistro burocrata governamental (interpretado por Christopher Lee).<\/p>\n<p>Wilder abre o ba\u00fa dos personagens de Doyle sem fazer nenhuma cerim\u00f4nia. A riqueza visual, que come\u00e7a acanhada no apartamento e nas ruas do fog londrino, abre-se para as paisagens da Irlanda. \u00c9 o amor que desabrocha e torna-se datado e ao mesmo tempo eterno. O vicio da droga n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o t\u00e9dio por n\u00e3o haver um caso \u00e0 altura da mente brilhante do detetive. Mas porque nesses hiatos n\u00e3o h\u00e1 como escapar da solid\u00e3o. Sherlock ama o amor imposs\u00edvel. Nada mais s\u00e9culo 19, numa hist\u00f3ria que mostra a engenhoca submarina como tentativa de transcender a \u00e9poca . E onde a met\u00e1fora de Jonas, ao personagem b\u00edblico dentro da baleia, nos remete ao que estava oculto na vida de Sherlock e que agora vem \u00e0 tona pelo mesmo caminho, a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica de um g\u00eanio do cinema, que aqui conta, no roteiro, com a proveitosa parceria de I.A.L. Diamond, seu companheiro em outras grandes obras como <em>A Primeira P\u00e1gina.<\/em><\/p>\n<p><em>Texto publicado no Jornal Op\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Sherlock Holmes \u00e9 personagem liter\u00e1rio, por isso n\u00e3o pode viver longe do seu bi\u00f3grafo, o dr. Watson, que o inventa por meio da narrativa. 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