{"id":2769,"date":"2011-07-27T22:13:31","date_gmt":"2011-07-28T01:13:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2769"},"modified":"2011-07-27T22:13:31","modified_gmt":"2011-07-28T01:13:31","slug":"o-carater-das-roupas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-carater-das-roupas","title":{"rendered":"O CAR\u00c1TER DAS ROUPAS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o existe pe\u00e7a do vestu\u00e1rio masculino mais bandida do que as meias. Talvez seja por vingan\u00e7a de estarem sempre nos p\u00e9s. Mas elas jamais emparceiram, por exemplo, mesmo que preventivamente a gente decida comprar apenas de uma cor. H\u00e1 nuances entre as texturas e voc\u00ea jamais consegue juntar dois exemplares id\u00eanticos. Mas em todas as roupas existe esse perfil psicol\u00f3gico, n\u00e3o porque se humanizem ao tomar a forma humana, mas porque s\u00e3o assim mesmo, na ess\u00eancia, por natureza, se \u00e9 que se pode dizer.<\/p>\n<p>Os ternos, est\u00e1 na cara, desviam dinheiro p\u00fablico, os pul\u00f4veres jamais se ajustam ao corpo e escasseiam na barriga e sobram nas mangas, para gerar desconforto em quem usa. H\u00e1 todo tipo de meliante. As campeiras ganham imediatamente aquele cheiro de mofo de inverno e n\u00e3o h\u00e1 o que tire. Ponchos pesam toneladas com qualquer chuva mi\u00fada, chap\u00e9us desabam miseravelmente no terceiro m\u00eas de friaca e inundam o cocuruto no ver\u00e3o. E, com a nova domina\u00e7\u00e3o chinesa em todos os nichos industriais, vemos como tudo rasga f\u00e1cil, estraga, encolhe, perde a cor.<\/p>\n<p>Vinco \u00e9 uma coisa que n\u00e3o se v\u00ea mais. Faz parte do Mundo Perdido, quando as roupas tinham car\u00e1ter . Um vinco fazia m\u00e9dia com as bainhas italianas e se exibiam para golas engomadas em riste. Os excessos deslumbravam nos bailes, como as abotoaduras que juntavam alvas pontas de mangas de camisas impec\u00e1veis. Os sapatos, hoje marginalizados pelos t\u00eanis sarad\u00f5es e por isso em eterna pose de ressentimento, j\u00e1 que se esfor\u00e7am para clonar seus advers\u00e1rios, tinham personalidade e faziam a gl\u00f3ria de todas as idades barbadas.<\/p>\n<p>Um sapato de verniz bem engraxado era o espelho onde se miravam os rostos de bigodinho fino. Cord\u00f5es de luxo faziam o cal\u00e7ado se adaptar magnificamente no p\u00e9, pois era preciso seguran\u00e7a para rodopiar a valsa ou caprichar no tango, nas altas horas. Havia rigor. N\u00e3o era como hoje com essas cal\u00e7as meia canela, de pular sanga, que mais parece um xirip\u00e1 mal ajambarado e que todos usam, inclusive os da terceira idade, o que d\u00e1 um aspecto bizarro em criaturas que deveriam atingir o n\u00edvel da sobriedade.<\/p>\n<p>Os tecidos n\u00e3o existem mais. Linho, cambraia, l\u00e3, casimira e at\u00e9 mesmo o novidadeiro nycron sumiram para dar lugar a essa mix\u00f3rdia pl\u00e1stica de fios que atraem eletricidade suficiente para acender dez l\u00e2mpadas. O que chamam de algod\u00e3o \u00e9 uma imita\u00e7\u00e3o barata daquele tecido amig\u00e1vel que fazia o conforto de nossos corpos t\u00e3o ansiosos. Tudo \u00e9 chin\u00eas, ou seja, n\u00e3o vale nada. \u00c9 o que me disse o dono de um mercadinho 1,99. Mas esse brinquedo est\u00e1 estragado! disse. Claro, respondeu ele, \u00e9 chin\u00eas.<\/p>\n<p>Triste pa\u00eds que deixou de se pautar por ind\u00fastrias estrangeiras de grife, como a alem\u00e3 e a italiana, para se deixar levar para a quinquilharia generalizada. E n\u00e3o adianta vibrar a palavra da moda, \u201cpreconceito\u201d. Depois que os imbat\u00edveis e indestrut\u00edveis vulcabr\u00e1s migraram para a China, tudo pode acontecer. Desse jeito, essas marginais, as meias de poli\u00e9ster, ou ent\u00e3o as de algod\u00e3o grosso que apertam nos tornozelos, ou mesmo as camisetas que te estrangulam por falta de bom senso no design, tomar\u00e3o o poder. E ficaremos nus, como nunca fomos.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s N\u00e3o existe pe\u00e7a do vestu\u00e1rio masculino mais bandida do que as meias. Talvez seja por vingan\u00e7a de estarem sempre nos p\u00e9s. Mas elas jamais emparceiram, por exemplo, mesmo que preventivamente a gente decida comprar apenas de uma cor. H\u00e1 nuances entre as texturas e voc\u00ea jamais consegue juntar dois exemplares id\u00eanticos. Mas em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2769"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2769"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2769\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2770,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2769\/revisions\/2770"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2769"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2769"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2769"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}