{"id":2771,"date":"2011-07-27T22:14:53","date_gmt":"2011-07-28T01:14:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2771"},"modified":"2011-07-27T22:14:53","modified_gmt":"2011-07-28T01:14:53","slug":"billy-wilder-a-celebracao-da-denuncia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/billy-wilder-a-celebracao-da-denuncia","title":{"rendered":"BILLY WILDER: A CELEBRA\u00c7\u00c3O DA DEN\u00daNCIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Em 1964 Billy Wilder chocou os conservadores com <strong>Kiss Me Stupid<\/strong>, que roteirizou junto com I.L. Diamond e trata da sublima\u00e7\u00e3o. No conceito freudiano, uma puls\u00e3o \u00e9 sublimada quando se orienta para um alvo n\u00e3o-sexual, procurando objetos socialmente valorizados. A origem continua a ser sexual , mas o resultado n\u00e3o. A tes\u00e3o sublimada dos carolas que querem fechar o puteiro, no filme, \u00e9 representada pela partilha de um bolo de anivers\u00e1rio de casamento.<\/p>\n<p>Na pequena cidade, todos est\u00e3o nessa mesma situa\u00e7\u00e3o sublimada: o compositor sem fam\u00edlia que sonha com o sucesso; o marido fiel que fetichiza a bela esposa como um objeto sexual da devassid\u00e3o de todos os que se aproximam dela, quando tudo \u00e9 fruto de suas compuls\u00f5es; a velha que fala de maneira obsessiva sobre o casamento ideal da filha; a esposa perfeita que na juventude foi presidente do f\u00e3-clube do bonit\u00e3o e acaba se entregando para ele; a prostituta que sonha com a mobilidade, a fuga, como uma forma de sair de sua profiss\u00e3o e fazer uma fam\u00edlia; o cantor de sucesso e mulherengo que deixa as coristas esperando por ele enquanto aproveita para ir embora, rumo aos seus parceiros da noite.<\/p>\n<p>Os personagens s\u00e3o desmascarados quando trocam de pap\u00e9is e se entregam para as origens da sublima\u00e7\u00e3o. O marido vira corno, b\u00eabado e dorme com a prostituta, que tem uma noite de dona de casa. A esposa perfeita aproveita para fazer sexo com seu \u00eddolo, o compositor trai o cliente para apanh\u00e1-lo numa armadilha. \u00c9 uma desfa\u00e7atez atr\u00e1s da outra, para dizer que a repress\u00e3o mata os sonhos e transforma o indiv\u00edduo num personagem oposto ao que \u00e9 de verdade. No fundo, \u00e9 a repress\u00e3o que n\u00e3o presta, pois n\u00e3o tem import\u00e2ncia (\u201cme beija seu imbecil e p\u00e1ra com isso\u201d diz o mote do filme), mas \u00e9 t\u00e3o levada a s\u00e9rio que acaba vingando no cen\u00e1rio isolado de uma cidade perdida no meio da estrada.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 um arraso, os atores s\u00e3o de matar. Dean Martin detona como o conquistador de voz de veludo, Kim Novak deslumbra com seu talento e beleza, Ray Walston, que felizmente substituiu o eterno Jack Lemmon (que desistiu por ter outro compromisso) est\u00e1 \u00f3timo como o marido ciumento, a mulher de Lemmon, Felicia Farr convence como a bela esposa que acaba num trailer vagabundo, e Cliff Osmond \u00e9 o hil\u00e1rio letrista que arma toda a bagun\u00e7a. \u00c9 um filme muito mais radical e transgressor do que tantas porcarias que ficam mostrando sexo expl\u00edcito e n\u00e3o passam de baboseiras metidas.<\/p>\n<p>Em Billy Wilder, sexo define o papel social: o pai de fam\u00edlia, a dona de casa, a prostituta, o celibat\u00e1rio religioso, a vi\u00fava que vive de pens\u00e3o, a m\u00e3e, os tios, os av\u00f3s , o solteir\u00e3o, o b\u00edgamo, o homossexual. Billy Wilder n\u00e3o compactua com essa sintonia e mexe fundo na rela\u00e7\u00e3o entre a criatura e sua personagem, a biologia e o teatro, o script encomendado e transgress\u00e3o da persona reconhecida. O mais impressionante \u00e9 que ele abordou isso numa \u00e9poca de extrema repress\u00e3o e soube dar charme e encanto ao drama vivido pela sociedade de massas, \u00e0 merc\u00ea dos apelos sexuais da ind\u00fastria do espet\u00e1culo e o rigor (que acabou implodindo com o tempo) das tradi\u00e7\u00f5es. Arranjou encrenca bastante, mas deixou um rastro de obras-primas. Algumas eu vi h\u00e1 tempos, outras nos \u00fatimos dias,pois fui atr\u00e1s da Obra para entender melhor o Mestre.<\/p>\n<p>Seus filmes est\u00e3o cheios de refer\u00eancias a esse fosso entre inten\u00e7\u00e3o e realidade: a prostitui\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada (The Apartment) ou rom\u00e2ntica (Irma La Douce), o homossexualismo consentido (Some Like it Hot), oculto (Primeira P\u00e1gina), ou em forma de cal\u00fania (A vida secreta de Sherlock Holmes), o lirismo das trai\u00e7\u00f5es (Avanti!), o rid\u00edculo da fidelidade doentia (O Pecado Mora ao Lado) a insubordina\u00e7\u00e3o da Terceira Idade (Crep\u00fasculo dos Deuses). O mal entendido em rela\u00e7\u00e3o aos pap\u00e9is sociais s\u00e3o recorrentes no filme. \u201cMas eu sou homem!\u201d grita Lemmon no c\u00e9lebre final de Quanto Mais Quente Melhor, ao que recebe a resposta do velho homossexual que sabia de tudo: \u201cNingu\u00e9m \u00e9 perfeito\u201d. Ou a troca de roupas no banheiro do avi\u00e3o entre dois homens no in\u00edcio escandaloso de Avanti!, que era apenas uma combina\u00e7\u00e3o sem outra conota\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Sua maior transgress\u00e3o, dentro dessa abordagem, \u00e9 criar cenas onde n\u00e3o h\u00e1 sex appeal e os protagonistas tentam se relacionar em v\u00e3o. Quem esquece o marido no s\u00e9timo ano de casado que, para desespero da plat\u00e9ia masculina, n\u00e3o tra\u00e7a a mulhera\u00e7a que \u00e9 Marilyn Monroe, que d\u00e1 aquela bandeira da saia levantada no metr\u00f4? Ou o executivo Fred McMurray que trata com indiferen\u00e7a a linda Shirley McLane? Ou mesmo Jack Lemmon, coitado, nadando nu em Avanti!, para desespero da parceira e dos espectadores?<\/p>\n<p>E os \u201ccasais\u201d?Walter Mathau e Jack lemmon em A Primeira P\u00e1gina, que trocam juras de amor, discutem a rela\u00e7\u00e3o e acabam sendo inimigos da vida conjugal heterossexual; o travesti Tony Curtis que tenta seduzir a loura\u00e7a Marilyn; o milion\u00e1rio Lemmon travado que descobre o prazer com a filha de uma manicure; o funcion\u00e1rio subalterno que empresta o apartamento para o chefe fazer sexo com o amor dele, funcion\u00e1rio? Billy \u00e9 cruel o tempo todo, e brilhante no que pode ser encarado como den\u00fancia, mas para ele era divertimento.<\/p>\n<p>Billy nasceu numa cidade que fazia parte da Austria e hoje \u00e9 na Pol\u00f4nia. Nasceu num lugar sem humor, numa \u00e9poca de grandes guerras. Migrou para a festa expl\u00edcita do cinema americano. No in\u00edcio de Beija-me, idiota, todos os gar\u00e7ons morrem de rir de Dean Martin, menos um, com cara de polon\u00eas. Os colegas ent\u00e3o o cutucam para rir tamb\u00e9m. Ele pensa que o est\u00e3o advertindo sobre o mau uso que faz do guardanapo. O gar\u00e7om de cara amarrada ent\u00e3o, rapidamente, muda o guardanapo de bra\u00e7o, para imitar os outros. Essa talvez seja a representa\u00e7\u00e3o da arte de Wilder: um outsider que tenta agradar os anfitri\u00f5es com o que eles sabem fazer, a piada, o ritmo, o riso, o deboche. Mas que acaba trocando os pap\u00e9is magistralmente, pois suas com\u00e9dias s\u00e3o dramas e suas den\u00fancias, pura celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Em 1964 Billy Wilder chocou os conservadores com Kiss Me Stupid, que roteirizou junto com I.L. Diamond e trata da sublima\u00e7\u00e3o. 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