{"id":2773,"date":"2011-07-27T22:16:06","date_gmt":"2011-07-28T01:16:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2773"},"modified":"2011-07-27T22:16:06","modified_gmt":"2011-07-28T01:16:06","slug":"the-front-page-atualidade-de-um-classico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/the-front-page-atualidade-de-um-classico","title":{"rendered":"THE FRONT PAGE: ATUALIDADE DE UM CL\u00c1SSICO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Pe\u00e7as de teatro d\u00e3o bons filmes. O principal est\u00e1 garantido: di\u00e1logos e roteiro. Basta criar em cima e isso na m\u00e3o de um mestre como Billy Wilder se transforma num material explosivo e de grande atualidade. A pe\u00e7a A Primeira P\u00e1gina, de 1928, de Ben Hecht, j\u00e1 tinha gerado um filme em 1931, dirigido por Lewis Milestone e indicado para tr\u00eas Oscar, quando o Mestre decidiu refilm\u00e1-la em 1974. Convocou uma dupla que ficou antol\u00f3gica no cinema, Jack Lemmon, como o rep\u00f3rter Hildy que tenta escapar, em v\u00e3o, do ogro,seu editor Walter Burns, interpretado por Walter Matthau.<\/p>\n<p>Hoje, quando os jornais fuleiros de Robert Murdoch s\u00e3o flagrados no crime dos grampos, este filme sobre jornalismo marrom ganha sobrevida como refer\u00eancia obrigat\u00f3ria. Com um detalhe: para Billy Wilder n\u00e3o existia jornalismo marrom, as barbaridades que se cometem no filme s\u00e3o a imprensa, ponto. Seus profissionais s\u00e3o cuspidos por uma prostituta e todas as vers\u00f5es s\u00e3o distorcidas at\u00e9 o esc\u00e2ndalo total, compactuado pelo sistema de poder que a usa, mas \u00e9 tamb\u00e9m sua v\u00edtima e sofre de chantagem. A falta de escr\u00fapulos para obter a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma que se d\u00e1 o direito de desvirtu\u00e1-la, conforme o ve\u00edculo.<\/p>\n<p>Esse enfoque destaca n\u00e3o a mat\u00e9ria, mas a manchete e o lead, ditados aos berros pelo chefe da reda\u00e7\u00e3o. Hoje seria a notinha ou a chamada na rede, divulgada com pressa para superar a concorr\u00eancia. \u201cIsso vai dar capa\u201d seria uma tradu\u00e7\u00e3o mais apropriada do que \u201cA Primeira P\u00e1gina\u201d. O rep\u00f3rter serve para dourar a p\u00edlula com seu talento histri\u00f4nico e fornecer o mote para a chamada principal. O editor precisa do talento do seu profissional que tenta escapar para a publicidade (hoje n\u00e3o precisa, j\u00e1 que o jornalismo foi devorado pelo marketing), e faz de tudo para romper seus planos de casamento com uma pianista de cinema, interpretada por uma jovem e bela Susan Sarandon. O Examiner precisa algo exclusivo sobre o enforcamento de um assassino que matou um guarda negro em v\u00e9spera de elei\u00e7\u00f5es e isso s\u00f3 Hildy poder\u00e1 conseguir.<\/p>\n<p>Baixaria, falta de coleguismo, transgress\u00e3o da lei, persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, uso da m\u00eddia para as elei\u00e7\u00f5es, mentiras, cal\u00fanias, fic\u00e7\u00f5es, ao contr\u00e1rio do que \u00e9 estampado nos jornais, s\u00e3o a verdade dos fatos, que se desenrolam nos bastidores e que \u00e9 a mat\u00e9ria do filme. Temos ent\u00e3o a reportagem, que \u00e9 o cinema diante de n\u00f3s, flagrando a falcatrua, a imprensa e suas artimanhas para conseguir ludibriar o p\u00fablico (donas de casa e esposas de taxistas, segundo o script) e vender jornal. Existe algo mais atual? Vamos lembrar que at\u00e9 t\u00edtulos tradicionais e que gozavam de grande prest\u00edgio foram engolfados pela mis\u00e9ria murdochista e tudo se transformou numa mix\u00f3rdia sem fim que desaguou no crime de grampear personalidades e celebridades em fun\u00e7\u00e3o do aumento da tiragem.<\/p>\n<p>O destino dos personagens, estampado no final do filme, revela muita coisa sobre as inten\u00e7\u00f5es de Billy Wilder. O casal formado pelo bandido (hil\u00e1rio e rom\u00e2ntico, interpretado pelo baixinho magricela Austin Pendleton), que conseguiu o indulto, e a prostituta (Carol Burnett, talvez a maior performance de overacting do cinema) que o acolheu quando estava ferido, monta um restaurante de comida natural. Hildy n\u00e3o casa e volta ao Examiner para ser editor-chefe, enquanto sua noiva casa e tem tr\u00eas filhas, uma chamada&#8230; Hildy. O casal gay formado pelo colunista social veterano e o jovem foca vai dividir um teto. Os rep\u00f3rteres acabam mesmo no copy-desk, como tinha previsto Hildy quando tentou fugir da reda\u00e7\u00e3o. E o editor salafr\u00e1rio vira professor de \u00e9tica na Universidade de jornalismo. Bingo! A\u00ed temos os modismos (comida natural e aulas de \u00e9tica), a eterna presen\u00e7a do homossexualismo nos filmes de Wilder e o triste fim dos jornalistas, aqui tratados como gado.<\/p>\n<p>Mas alguma coisa se salva. A paix\u00e3o pela profiss\u00e3o nunca foi retratada de forma t\u00e3o veemente e encantadora. O editor que dorme no sof\u00e1 da sua sala no jornal, o rep\u00f3rter que se deixa engolfar pelos acontecimentos, a contund\u00eancia da imprensa diante do poder, a camaradagem, apesar das diferen\u00e7as, consolidada pelo mesmo destino, que \u00e9 um front de batalhas quase sempre perdidas desfilam diante de n\u00f3s, veteranos deste of\u00edcio, at\u00e9 a l\u00e1grima total. N\u00e3o existe voca\u00e7\u00e3o mais avassaladora, que se destaca da literatura e se identifica mais com os folhetins do que com os grandes escritores (em \u201cA Primeira P\u00e1gina\u201d, debochados at\u00e9 o osso). Esse sabor ameniza o travo amargo do filme, um cl\u00e1ssico em todos os sentidos, ou seja, uma obra que merece ser estudada em classe, conceito explicado pelo professor Fernando Novais numa aula da USP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Pe\u00e7as de teatro d\u00e3o bons filmes. O principal est\u00e1 garantido: di\u00e1logos e roteiro. Basta criar em cima e isso na m\u00e3o de um mestre como Billy Wilder se transforma num material explosivo e de grande atualidade. 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