{"id":2781,"date":"2011-07-27T22:22:13","date_gmt":"2011-07-28T01:22:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2781"},"modified":"2011-07-27T22:22:13","modified_gmt":"2011-07-28T01:22:13","slug":"genero-o-disfarce-supremo-de-billy-wilder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/genero-o-disfarce-supremo-de-billy-wilder","title":{"rendered":"G\u00caNERO, O DISFARCE SUPREMO DE BILLY WILDER"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Quando um amigo veio anunciar a Billy Wilder que a press\u00e3o dos maledicentes aumentou depois de seu sucesso Quanto mais quente, melhor (Some Like it Hot, 1959), filme-bomba em que Jack Lemmon e Tony Curtis se travestem para fugir da m\u00e1fia, o velho cachorr\u00e3o se defendia que iria tra\u00e7ar mais algumas mulheres para calar a boca de todos. O argumento n\u00e3o convence. Billy \u00e9 expl\u00edcito em suas prefer\u00eancias, basta ver o que pega em todos os seus filmes. Mas ele precisava se disfar\u00e7ar. A \u00e9poca n\u00e3o permitia. Primeiro, era preciso desmoralizar a psican\u00e1lise. Por isso difundiu a hist\u00f3ria da sua juventude em que, rep\u00f3rter em Viena, foi entrevistar Freud e acabou expulso pelo ogro da sublima\u00e7\u00e3o e da repress\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria tem tudo para ser obra do g\u00eanio imaginativo de quem fez in\u00fameros scripts de arromba. Mas vamos combinar que seja real. V\u00e1rias vezes em suas obras, Billy se vinga de Freud, expondo a psican\u00e1lise como charlatanismo, como acontece principalmente em A Primeira P\u00e1gina (1974), onde um psiquiatra tradicional, da velha escola, fornece a arma do xerife para o condenado reproduzir o crime. Acaba sendo atingido por ele, gerando toda a correria da imprensa e da pol\u00edcia. Feito esse servi\u00e7o, o de achincalhar o c\u00e2none da psican\u00e1lise, ele pode ent\u00e3o negar que haja algo mais do que as inten\u00e7\u00f5es moralistas dos seus enredos \u2013 a defesa dos princ\u00edpios americanos, a honestidade, o desprendimento, a solidariedade. Mas vendo hoje seus filmes em sequ\u00eancia, as evid\u00eancias se imp\u00f5em.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas de destacar a fala final de Quanto Mais Quente Melhor como a prova de que o g\u00eanero homoafetivo era aceito e compactuado entre os personagens. \u201cMas eu sou homem\u201d, diz Jack Lemmon tirando a peruca, ao que o velho apaixonado rebate: \u201cNingu\u00e9m \u00e9 perfeito\u201d, ou seja, eu j\u00e1 sabia e n\u00e3o me importo, ao contr\u00e1rio. Mas o de enxergar o que a tela mostrava na \u00e9poca mas n\u00e3o era percebido, porque Billy Wilder, expulso da Europa pelo nazismo e que perdeu a fam\u00edlia nos campos de concentra\u00e7\u00e3o, usava de seu supremo disfarce: a com\u00e9dia de ritmo alucinante, perfeita na estrutura narrativa, pontuada por falas geniais e que circulava em torno do seu g\u00eanero favorito dando bandeira, mas sem influir na pr\u00f3pria imagem de autor heterossexual.<\/p>\n<p>Basta ver um outro grande sucesso seu, Stalag 17, ou Inferno N\u00famero 17 (1953), o inesquec\u00edvel filme sobre o campo de concentra\u00e7\u00e3o onde sargentos do ex\u00e9rcito americano tentavam escapar mas eram impedidos por um espi\u00e3o entre eles. \u201cEi, Animal, sou eu, Shapiro\u201d, diz o prisioneiro interpretado por Harvey Lembeck tirando o disfarce, composto por chap\u00e9u feminino e palhas imitando o cabelo loiro, para seu companheiro insepar\u00e1vel ( Robert Strauss, que ganhou o Oscar com esse papel histri\u00f4nico e dram\u00e1tico). Animal confundiu o companheiro com seu \u00eddolo Betty Gramble, a atriz de pernas famosas e favorita da soldadesca na segunda grande guerra. Antes, dan\u00e7ou com ele de rosto colado, num baile de Natal onde existiam apenas casais formados s\u00f3 por homens.<\/p>\n<p>Onde estavam as mulheres nesse filme? Eram russas,ou seja, estrangeiras com\u00edveis (o \u00e1libi perfeito dos mach\u00f5es, opostas \u00e0 mulher americana idealizada em Betty Grable), e ficavam em fila no banheiro para serem observadas pelo telesc\u00f3pio do acampamento masculino. O \u00fanico que tinha acesso a elas era William Holden, negociante da pris\u00e3o e que compartilhava espa\u00e7o com um garoto fr\u00e1gil e delicado, seu bra\u00e7o direito, que inclusive leva uma surra por estar sempre grudado com ele. A rela\u00e7\u00e3o entre Holden e Neville Brand, no papel de Duke, inimigos mortais que acabam se entendendo no final, inclui o detalhe de acender o f\u00f3sforo na barba do outro, que sorri feliz.<\/p>\n<p>Stalag 17 \u00e9 um conjunto de casais homoafetivos disfar\u00e7ados de companheirismo ou da situa\u00e7\u00e3o favorita de Hollywood, o \u00f3dio entre bons e maus que n\u00e3o passa de uma arma\u00e7\u00e3o de roteiristas homossexuais, como revelou certa vez Gore Vidal, que \u00e9 do ramo, sobre o caso na tela entre Stephen Boyd e Charlton Heston em Ben Hur, uma homoafetividade feita de conflitos e sugerida pelo script . Mas claro que tudo isso ficava encoberto numa \u00e9poca em que n\u00e3o se falava abertamente dessas coisas. Era preciso jogar o foco para o outro lado, mas hoje tudo fica claro.<\/p>\n<p>Vamos pegar outro filme de Billy, The Fortune Cookie (Uma loura por um milh\u00e3o, 1966). \u00c9 mais uma obra que mostra a impossibilidade do relacionamento hetero, como acontece sempre em Wilder (basta o exemplo do ato que n\u00e3o se consuma em O Pecado Mora ao Lado, em que a pobre Marilyn luta em v\u00e3o para tra\u00e7ar o vizinho casado que est\u00e1 livre em Nova York). Walter Matthau \u00e9 o canalha casado que sente vontade de jogar os filhos mal comportados na rodovia. A ex-exposa do personagem de Jack Lemmon, um cinegrafista que \u00e9 convencido pelo cunhado Matthau a fingir a seq\u00fcela de um acidente para levantar um milh\u00e3o de d\u00f3lares, \u00e9 uma vigarista.S\u00f3 existe desprendimento e sinceridade em Luther &#8216;Boom Boom&#8217; Jackson (Ron Rich), o jogador negro e parrudo de futebol americano respons\u00e1vel pelo acidente.<\/p>\n<p>Boom Boom sente culpa e acaba cuidando do prejudicado. Carrega-o no colo, d\u00e1-lhe banho, faz massagens e p\u00f5e o aventalzinho para lhe fazer a comida, que serve com prazer. Mas a vigarista ex, estimulada pelo cunhado, volta para os bra\u00e7os do idiota para fazer companhia \u00e0 bufunfa que ele vai conseguir. Boom Boom sobra e se afoga no \u00e1lcool e acaba preso depois de uma briga. O idiota se d\u00e1 conta do erro, chuta literalmente a bunda da bandida e acaba o filme jogando bola com seu admirador no cen\u00e1rio ideal, no campo vazio, sem concorr\u00eancia ao redor nem chatos para atrapalhar.<\/p>\n<p>A impossibilidade do amor heterossexual tamb\u00e9m est\u00e1 no filme, pois o acidentado n\u00e3o consegue fazer sexo com a ex porque o cunhado n\u00e3o permite. H\u00e1 muita sordidez no amor heterossexual, como em The Apartment, em que o chefe usa o subalterno para manter um matadouro. Em Kiss Me Stupid, a dupla de compositores faz tudo para expulsar a esposa de um (que tenta em v\u00e3o transar no anivers\u00e1rio do seu casamento) para realizar o sonho de atender as necessidades sexuais do cantor substituindo a esposa pela prostituta. A rela\u00e7\u00e3o heterossexual assim s\u00f3 se consuma pela transgress\u00e3o social, quando o marido dorme com a mulher da vida e o mulherengo passa a noite com esposa do outro.<\/p>\n<p>Em A Primeira P\u00e1gina, o assassino e a prostituta ficam tr\u00eas dias juntos mas n\u00e3o transam. E n\u00e3o existe casal mais fake do que o do filme Avanti! (1972). Homem e mulher colocados num balde de gelo. O jovem gigol\u00f4 fracassado William Holden fazendo par com a decadente atriz Gloria Swanson em Sunset Boulevard, ou o casal heterossexual assassino de Double Indemnity s\u00e3o outros exemplos extremos dessa impossibilidade.<\/p>\n<p>Mesmo em filmes n\u00e3o t\u00e3o expl\u00edcitos o homossexualismo entra com tudo. Em Avanti!, h\u00e1 a cena de dois homens entrando no banheiro do avi\u00e3o para se trocar de roupa, observados pela tripula\u00e7\u00e3o e todos os passageiros. Em One, Two Three, o fiel secret\u00e1rio de James Cagney acaba tamb\u00e9m se travestindo para ajudar seu chefe numa jogada na Alemanha Oriental.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de insistir nesse enfoque, mas perceber claramente que esse \u00e9 o disfarce supremo de Billy Wilder: o falso mach\u00e3o do g\u00eanero homoafetivo colocou na tela a rela\u00e7\u00e3o homossexual em praticamente todos os seus filmes, neles ocupando papel importante e n\u00e3o perif\u00e9rico. Est\u00e1 na cara? Mas por que ningu\u00e9m fala de coisa mais \u00f3bvia e expl\u00edcita? Porque o disfarce ainda funciona? Dias atr\u00e1s, disse num artigo sobre A Vida Secreta de Sherlock Holmes (estava no in\u00edcio desta minha saga wilderiana) que a rela\u00e7\u00e3o entre o detetive e Watson tinha apenas a apar\u00eancia homossexual, j\u00e1 que Sherlock se apaixona pela espi\u00e3 no final. Mas estava enganado. O est\u00fadio proibiu que o diretor colocasse a rela\u00e7\u00e3o entre os dois em panos quentes e o Mestre arranjou uma sa\u00edda: a paix\u00e3o heterossexual imposs\u00edvel de se consumar (detetive\/espi\u00e3), como \u00e9 do seu feitio.<\/p>\n<p>A evid\u00eancia, naturalmente, n\u00e3o tira o m\u00e9rito do Mestre, antes o confirma. Trata-se de um artista de primeira grandeza. Sabe como ningu\u00e9m encantar as plat\u00e9ias com situa\u00e7\u00f5es que contrariam o senso comum e seduz a todos pelo seu charme e compet\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 por nada que contou com a parceria de 25 anos do seu roteirista coadjuvante, IAL Diamond, com quem costumava se encerrar numa casa de ver\u00e3o em Malibu para criar. S\u00f3 os dois, por d\u00e9cadas. A vi\u00fava de Diamond dizia que as brigas amistosas na tela entre Sherlock e Watson, por exemplo, reproduziam as situa\u00e7\u00f5es vividas pelos dois na vida real<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Quando um amigo veio anunciar a Billy Wilder que a press\u00e3o dos maledicentes aumentou depois de seu sucesso Quanto mais quente, melhor (Some Like it Hot, 1959), filme-bomba em que Jack Lemmon e Tony Curtis se travestem para fugir da m\u00e1fia, o velho cachorr\u00e3o se defendia que iria tra\u00e7ar mais algumas mulheres para [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2781"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2781"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2781\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2782,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2781\/revisions\/2782"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2781"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2781"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2781"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}