{"id":2801,"date":"2011-09-05T10:05:57","date_gmt":"2011-09-05T13:05:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2801"},"modified":"2011-09-05T10:05:57","modified_gmt":"2011-09-05T13:05:57","slug":"venda-nao-e-espaco-domestico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/venda-nao-e-espaco-domestico","title":{"rendered":"VENDA N\u00c3O \u00c9 ESPA\u00c7O DOM\u00c9STICO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Tanto trabalhei em jornalismo de neg\u00f3cios que virei consultor espont\u00e2neo, desses que deitam fala\u00e7\u00e3o em balc\u00e3o de sub\u00farbio, \u00e0 falta de um curso sistematizado que poderia garantir uns trocados para viagens. Sou escutado com toler\u00e2ncia, pois abuso de minha condi\u00e7\u00e3o de cliente e s\u00f3 pago depois de soltar umas dizidas, uma covardia nem sempre bem sucedida. Hoje por exemplo \u00e9 um dia que minha por\u00e7\u00e3o empreendedor se manifesta. Pois tenho contato com equ\u00edvocos comuns que afastam clientes e o resultado est\u00e1 na vista: portinhas que fecham, id\u00e9ias que acabam em d\u00edvidas. O motivo \u00e9 simples e n\u00e3o \u00e9 falta de sorte: \u00e9 que se costuma levar para a empresinha todos os v\u00edcios dom\u00e9sticos. Bato sempre nessa tecla.<\/p>\n<p>\u00c9 natural que seja assim. Tradicionalmente, a venda no Brasil era uma extens\u00e3o da casa. Ou melhor: a moradia ficava exatamente no neg\u00f3cio. Isso parece n\u00e3o ter mudado, est\u00e1 impregnado no imagin\u00e1rio e acaba prevalecendo nos h\u00e1bitos, apesar de toneladas de conselhos em contr\u00e1rio. Onde falha o convencimento? Nos n\u00f3s at\u00e1vicos, herdados e na intera\u00e7\u00e3o com o ambiente anti-empreendedorismo que ainda vivemos, j\u00e1 que os tributos, a corrup\u00e7\u00e3o, a falsa fiscaliza\u00e7\u00e3o, a concorr\u00eancia predat\u00f3ria, o olho gordo e o roubo puro e simples assolam as atividades profissionais por conta pr\u00f3pria. \u00c9 mais seguro refugiar-se num sal\u00e1rio de empresa consolidada e n\u00e3o arriscar prestar servi\u00e7os de cabeleireiro para pets da vizinhan\u00e7a, j\u00e1 que sempre se corre o risco de ficar na mira de algum marginal que precisa de liquidez para o crack.<\/p>\n<p>Mas como despesas n\u00e3o tiram f\u00e9rias e \u00e9 preciso sobreviver de alguma forma, estamos rodeados de padarias, lojinhas de roupas, casas de embalagens, emporiozinhos coloniais, postos de gasolina, balc\u00f5es de xerox, tendas de feiras, queijarias, 1,99, a\u00e7ougues, caldo de cana, lava carros, ferragens e por a\u00ed vai. H\u00e1 muita prosperidade, apesar dos empecilhos, mas h\u00e1 tamb\u00e9m marca\u00e7\u00e3o de passo, j\u00e1 que somos um povo fiel \u00e0s origens, e n\u00e3o abrimos m\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 de h\u00e1bitos, mas at\u00e9 de biotipos. \u00c9 engra\u00e7ado chegar aos 62 anos no Brasil, como eu, e notar que todos os modelos f\u00edsicos de adultos \u2013 do sujeito de bigodinho fino \u00e0 matrona retaca \u2013 s\u00e3o bem mais jovens do que eu. \u00c9 porque n\u00e3o mudamos nunca, mesmo usando jeans meia canela (a mais execr\u00e1vel moda de todos os tempos) ou jogging em shopping.<\/p>\n<p>Mas quais s\u00e3o os v\u00edcios dom\u00e9sticos que assolam as pequenas empresas? Primeiro, a desconfian\u00e7a com o cliente. Em vez de participar de um esquema eficiente de seguran\u00e7a e flagrar ou impedir a a\u00e7\u00e3o de ladr\u00f5es, os donos de biroscas adoram achar que cliente \u00e9 quem rouba. \u00c9 como se o cliente fosse um invasor do espa\u00e7o privado e estivesse ali s\u00f3 para se aproveitar. O objetivo de um neg\u00f3cio \u00e9 o lucro e isso s\u00f3 se consegue desatando os n\u00f3s do relacionamento com os clientes. Se voc\u00ea olha meio de vi\u00e9s para quem chega, n\u00e3o ter\u00e1 muito futuro. Mas existem outros v\u00edcios.<\/p>\n<p>Conversar animadamente entre si no balc\u00e3o, no caixa e deixar a freguesia dependurada num atendimento que nunca se desata. A pessoa que vai comprar quer ser valorizada, pois deixar\u00e1 uma coisa rara ali, o dinheiro conseguido com esfor\u00e7o. Se a empresa que presta o servi\u00e7o ou vende o produto n\u00e3o d\u00e1 a m\u00ednima, ent\u00e3o o cliente se ressente. Em farm\u00e1cias, a empurroterapia faz parte dessa indiferen\u00e7a: o que vale \u00e9 fazer do fregu\u00eas gato e sapato, apenas uma fonte de arrecada\u00e7\u00e3o de recursos e n\u00e3o uma pessoa que saia satisfeita do seu neg\u00f3cio e assim possa garantir, pela fidelidade da volta, o lucro almejado.<\/p>\n<p>Uma coisa insuport\u00e1vel \u00e9 achar que a birosca \u00e9 n\u00facleo de catequese. Colocar som alto de igreja na hora do pagamento, torcer a cara para quem compra cigarro, dar toques sobre obesidade na frente de fregueses acima do peso, receitar gatorade no lugar de soro dom\u00e9stico para m\u00e3es preocupadas, tudo isso faz mal \u00e0 sa\u00fade da empresa. S\u00e3o coisas que noto diariamente. N\u00e3o que onde moro s\u00f3 exista esse tipo de tratamento. H\u00e1 muita gentileza e boa vontade e muito esfor\u00e7o her\u00f3ico dos empreendedores. Mas noto que em muitos lugares onde j\u00e1 morei erram ao desligar a energia \u00e0 noite para economizar e assim deixar os lactic\u00ednios ran\u00e7osos. Ou apagam as luzes de dia, o que torna o neg\u00f3cio um ambiente soturno.<\/p>\n<p>Abertura de cr\u00e9dito, sob medida, para clientes especiais, faz parte do jogo. Nem sempre a freguesia est\u00e1 com liquidez dispon\u00edvel e as compras precisam ser feitas. Cart\u00e3o de cr\u00e9dito, com seus juros exorbitantes e ca\u00e7a aos inadimplentes, al\u00e9m de cheques, um instrumento sem credibilidade nenhuma, abrem a guarda novamente para a velha caderneta. Isso sim \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o que deve ser conservada,mas de maneira criteriosa, pois h\u00e1 risco mesmo de levar um chap\u00e9u.<\/p>\n<p>O que faz um poeta envolvido com esses assuntos? Tudo \u00e9 linguagem e a a\u00e7\u00e3o empresarial, por menor que seja, formata um discurso. Precisamos interferir nele para mudar algumas coisas. \u00c9 no que acredito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Tanto trabalhei em jornalismo de neg\u00f3cios que virei consultor espont\u00e2neo, desses que deitam fala\u00e7\u00e3o em balc\u00e3o de sub\u00farbio, \u00e0 falta de um curso sistematizado que poderia garantir uns trocados para viagens. 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