{"id":2841,"date":"2011-09-05T10:44:49","date_gmt":"2011-09-05T13:44:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2841"},"modified":"2011-09-05T10:44:49","modified_gmt":"2011-09-05T13:44:49","slug":"cultura-e-futebol-a-logica-do-improviso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/cultura-e-futebol-a-logica-do-improviso","title":{"rendered":"CULTURA E FUTEBOL: A L\u00d3GICA DO IMPROVISO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O futebol brasileiro \u00e9 fruto da cultura da escassez, conceito usado pelo poeta Mario Chamie quando assumiu a secretaria municipal de Cultura de S\u00e3o Paulo nos anos 70. A cultura da escassez define o perfil dos brasileiros que, ermo de recursos e de incentivo, acabam superando com a criatividade o que lhe falta no entorno. Como conta Mario Filho, o povo que assistia os jogos dos esnobes ingleses esperavam a bola sobrar para ir chutando sem parar at\u00e9 os confins da v\u00e1rzea. Depois, com as pol\u00edticas p\u00fablicas que organizaram a bagun\u00e7a, fomos t\u00e3o longe que conquistamos uma Copa do Mundo em 1958, nas fu\u00e7as dos europeus. Repetimos a dose quatro vezes mais, mas sempre longe da Europa. Nunca mais nos deixaram humilh\u00e1-los daquele jeito.<\/p>\n<p>No jogo amistoso contra a Alemanha, vimos como o autismo do improviso fundado na exacerba\u00e7\u00e3o do ego, e n\u00e3o nos desafios impostos pela cultura da escassez, unido a um t\u00e9cnico que est\u00e1 na m\u00e3o da m\u00eddia monopolista e da cartolagem sem freio (e por isso deve pedir para sair), levaram a sele\u00e7\u00e3o brasileira a um beco sem sa\u00edda. A vit\u00f3ria da Alemanha por 3 a 2 em Sttugart nesta quarta-feira foi a vit\u00f3ria da l\u00f3gica contra o improviso sem base, aquele que \u00e9 fruto n\u00e3o da escassez, mas do excesso, da soberba. Aquele que perde por n\u00e3o ter tido dificuldades para se consolidar, j\u00e1 que \u00e9 resultado dessa mix\u00f3rdia suspeita em que se transformou o esporte.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica obedece \u00e0 natureza do futebol, que \u00e9 coletivo. N\u00e3o \u00e9 t\u00eanis nem jogo de dardos, em que existe isolamento dos protagonistas. Alemanha \u00e9 time em que as individualidades se sintonizam, gra\u00e7as ao trabalho do t\u00e9cnico e \u00e0 postura adotada pelos jogadores. A partir dessa sintonia, que serve como base, os talentos podem se desdobrar, manifestar, compor um acervo de jogados objetivas. J\u00e1 o Brasil \u00e9 um tecido descosturado, onde indiv\u00edduos tentam cobrir o grande furo da falta de consist\u00eancia coletiva. Perdemos a pista da l\u00f3gica do improviso: este sem manifesta quando a criatividade \u00e9 convocada e se alia ao planejamento e \u00e0 t\u00e9cnica, como aconteceu na sele\u00e7\u00e3o brasileira de 1970. Naquele momento, levamos o g\u00eanio nos ombros da est\u00e1tua, que at\u00e9 hoje est\u00e1 l\u00e1, na cidade do M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Vimos nossos erros v\u00e1rias vezes no jogo. O zagueiro que tenta driblar e acaba perdendo a bola para o atacante, que cruza para o companheiro completar nas redes. O drible repetido no miolo da \u00e1rea sem objetividade, apenas fazendo zigue zague entre a defesa para n\u00e3o chegar a lugar nenhum. A falta de chutes a gol, fruto dessa indecis\u00e3o que confina cada jogador a um papel sem apoio dos outros. Perdemos a embocadura da cultura da escassez que nos gerou. Sucumbimos diante da l\u00f3gica tradicional, representada pela tenacidade alem\u00e3. N\u00e3o impomos mais a l\u00f3gica do improviso em estado de arte (que \u00e9 tamb\u00e9m fruto da for\u00e7a) que encontrou solu\u00e7\u00f5es originais. Mas improvisamos concentrados no ego dos jogadores, como o Pato, que em vez de se contentar em fazer golzinhos, sonha em fazer gola\u00e7os.<\/p>\n<p>Por que acontece isso? Acredito que \u00e9 a falta de grandes cabe\u00e7as no comando do futebol (o que acontece tamb\u00e9m em todas essas \u00e1reas, na atual fase de desconstru\u00e7\u00e3o nacional). Cito o caso Mario Chamie como exemplo. Quando uma grande cabe\u00e7a se manifesta e est\u00e1 na mar\u00e9 alta da sua atua\u00e7\u00e3o, \u00e9 comum virarem-lhe as costas, como aconteceu com ele, naquele in\u00edcio de gest\u00e3o frente \u00e0 secretaria municipal de Cultura, quando Reynaldo de Barros iniciava seus trabalhos \u00e0 frente da Prefeitura. Reynaldo era conhecido como o preposto do governador Maluf e isso bastou para que reca\u00edssem sobre Chamie aquele olho branco cavernoso que conhecemos bem. Claro que a biografia, a trajet\u00f3ria, a obra e os grandes feitos do poeta na sua brilhante gest\u00e3o sepultaram as maledic\u00eancias. Hoje, quando n\u00e3o est\u00e1 mais entre n\u00f3s, todos adoram cit\u00e1-lo e homenage\u00e1-lo, mas naqueles meses terr\u00edveis em que ele come\u00e7ava sua vida p\u00fablica na pol\u00edtica cultural, fui pioneiro e decidi entrevist\u00e1-lo para o caderno Ilustrada, da Folha de S\u00e3o Paulo. Deu capa, gra\u00e7as \u00e0 editora da \u00e9poca do caderno, Hel\u00f4 Machado.<\/p>\n<p>E eu nem era rep\u00f3rter, apenas um copy, mas tinha sido liberado por Hel\u00f4 para fazer mat\u00e9rias especiais e fui a campo. Na nossa conversa com Chamie, ele transcorreu longamente sobre seus planos e os conceitos que iriam norte\u00e1-lo. Ele trouxe os resultados dessa cultura da escassez, os processos e os protagonistas para dentro de sua grande obra, o Centro Cultural Vergueiro, que mais tarde, depois de ter sido duramente criticado pelos oportunistas que bem conhecemos, foi encampado em todos os seus cargos. Mas naquela \u00e9poca, em que o secret\u00e1rio vinha me buscar em casa para mostrar sua obra, vi como foi feito aquele Centro que somava todos os vetores da cultura e era ao mesmo tempo teatro, cinema, biblioteca, lugar de debates, escola e \u00e1rea de lazer. Foi quando nasceu a semente do chamado multiuso,que hoje serve para m\u00faltiplas falcatruas com o dinheiro p\u00fablico.<\/p>\n<p>Criticaram at\u00e9 o lugar onde foi instalado o centro, perto da esta\u00e7\u00e3o Vergueiro do Metr\u00f4, mas Chamie argumentava: \u201cO pipoqueiro n\u00e3o erra o ponto\u201d, dizia, apontando para a carrocinha j\u00e1 instalada no local logo que foi inaugurado. Claro que tamb\u00e9m bateram nele porque a inaugura\u00e7\u00e3o n\u00e3o flagrava a obra em sua totalidade, ainda havia muito o que fazer. Mas o que interessava a Chamie eram os processos e como eles, pela transpar\u00eancia, poderiam acumular e incentivar os autores dessa cultura da escassez que, com o apoio do poder p\u00fablico, poderiam passar por cima das precariedades end\u00eamicas para fazer cultura.<\/p>\n<p>Somado ao seu celebrado trabalho de professor e seus livros de ensaios (t\u00e3o importantes quanto os de sua poesia), Chamie \u00e9 uma intelig\u00eancia luminosa num pa\u00eds tomado pelas trevas, onde o conhecimento est\u00e1 amarrado a mil aparelhamentos burros, a come\u00e7ar por ideologias mal assimiladas e adaptadas ao jogo bruto da pol\u00edtica. Precisamos dede cabe\u00e7as assim no comando das pol\u00edticas p\u00fablicas, especialmente nas de educa\u00e7\u00e3o e cultura. N\u00e3o podemos mais continuar virando as costas para quem, independente dos esquemas ideol\u00f3gicos e partid\u00e1rios, tem muito a contribuir. Mas se continuarmos na m\u00e3o da burrice e da malandragem, continuaremos rolando precip\u00edcio abaixo.<\/p>\n<p>Nem \u00e9 preciso convocar um poeta para o comando de futebol. Basta uma intelig\u00eancia agressiva, uma \u00e9tica gran\u00edtica e um sentimento de nacionalidade expl\u00edcito. Pouca coisa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O futebol brasileiro \u00e9 fruto da cultura da escassez, conceito usado pelo poeta Mario Chamie quando assumiu a secretaria municipal de Cultura de S\u00e3o Paulo nos anos 70. 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