{"id":2852,"date":"2011-09-05T10:54:35","date_gmt":"2011-09-05T13:54:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2852"},"modified":"2011-09-05T10:54:35","modified_gmt":"2011-09-05T13:54:35","slug":"o-stand-up-e-um-perigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-stand-up-e-um-perigo","title":{"rendered":"O STAND UP \u00c9 UM PERIGO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Stand up \u00e9 a arte de levantar a plat\u00e9ia com baixarias que voc\u00ea s\u00f3 teria coragem de dizer para voc\u00ea mesmo ou para os amigos mais pr\u00f3ximos \u2013 talvez at\u00e9 na presen\u00e7a de desconhecidos em alguma festinha, para checar sua popularidade. Grandes lendas se fizeram \u00e0 sombra do stand up, como Lenny Bruce, radical comediante americano interpretado por Dustin Hoffman num filme de 1974 e que morreu ao optar pela radicaliza\u00e7\u00e3o de suas falas, o que o levou ao isolamento e \u00e0s drogas (ou talvez era o que realmente procurava, como forma terminal de produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica). Hoje h\u00e1 George Carlin, hil\u00e1rio e devastador nas suas cr\u00edticas aos ambientalmente corretos. Estrelas como Seinfeld fizeram a fama nos clubs e bares antes de estourar na TV com sua s\u00e9rie (que foi mais obra do parceiro Larry David, igualmente brilhante).<\/p>\n<p>No Brasil o stand up chegou com tudo porque \u00e9 um espet\u00e1culo barato de se fazer e porque tinha chegado a hora (tardia, como sempre). Trata-se de um mon\u00f3logo, uma sucess\u00e3o de tuits cortantes que imp\u00f5em um ritmo de falas para estocar o p\u00fablico. Normalmente d\u00e1 certo, pois as pessoas est\u00e3o ali para rir e tamb\u00e9m se vingar, pois esse tipo de comediante diz o que todo mundo est\u00e1 pensando, ou pelo menos, deveria dizer. Como o humor oficial, o que passa na TV ainda est\u00e1 nos anos 30, pois faz piada com homem se vestindo de mulher, o stand up pegou bem na nova gera\u00e7\u00e3o de comediantes, livres dessa canga maldita do s\u00e9culo 20 que assombra uma m\u00eddia capitaneada por matusal\u00e9ns. S\u00f3 o quadro de Zorra Total de dois travestis que s\u00e3o assediados no metr\u00f4 j\u00e1 diz tudo sobre o humor que o stand up deveria enterrar.<\/p>\n<p>Deveria, mas as novas estrelas acabam caindo em desgra\u00e7a rompendo a corda. Porque \u00e9 uma tenta\u00e7\u00e3o ter casa cheia para ouvir suas barbaridades. Ent\u00e3o imaginamos que tudo pode ser dito. Foi o que aconteceu com o apresentador do Globo de Ouro, o ator Ricky Gervais, que bateu em Tom Cruise e John Travolta declarando que cientologistas gays faziam papel de heterossexuais enquanto heteros como as atrizes Juliane Moore e Annete Benning faziam papel de gays. Hoje vivemos sob liberdade vigiada e Rafinha Bastos entrou pelo cano quando cedeu \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de dizer que mulher feia deveria agradecer por ser estuprada. Uma barbaridade inomin\u00e1vel dessas d\u00e1 vergonha de dizer em casa, que dir\u00e1 para o universo.<\/p>\n<p>A mais recente v\u00edtima do stand up foi Lars Von Trier, que ao ver a sala de imprensa lotada em Cannes deitou a querer fazer gra\u00e7a e entrou pelo cano. Talvez porque tenha dito realmente o que sente e pensa mas achou que poderia disfar\u00e7ar com estocadas de stand up. Se deu mal. Para esculachar com uma cineasta, que \u00e9 judia, disse agradecer ao saber que n\u00e3o era judeu depois de conhecer a referida colega. Para completar (talvez porque as gargalhadas n\u00e3o explodiram, ent\u00e3o ele tentou intensificar para ver dava certo) acabou dizendo que at\u00e9 se achava nazi e entendia Hitler (uma piada horr\u00edvel que ouvimos a toda hora para encher o saco geral).<\/p>\n<p>Como n\u00e3o h\u00e1 justificativa para semelhante atrocidade, Trier, ex-festejado diretor premiad\u00edssimo por seus filmes radicais de vanguarda, foi banido do festival de Cannes. Ele depois tentou se desculpar, mas era tarde e n\u00e3o foi feliz nos seus argumentos. O stand up exige que voc\u00ea seja preciso. \u00c9 uma quest\u00e3o de timing, bem mais do que voc\u00ea diz realmente. Voc\u00ea pode dizer as maiores baixarias, mas se respeitar certo ritmo e souber atingir aqueles pontos fracos do clima coletivo receptor, pode passar lotado. Fica tudo na risada. Mas \u00e9 bom dosar e impedir que coisas profundamente sinceras (ou aparentemente engra\u00e7adas, mas brutais) n\u00e3o ajam contra sua verve, obrigando-o a se retratar ou desistir da carreira.<\/p>\n<p>Obviamente que tentar fazer gra\u00e7a com judeu usando o nazismo d\u00e1 erro, como prova o caso de Danilo Gentili que disse entender os habitantes de Higien\u00f3polis que eram contra o metr\u00f4, pois o barulho dos vag\u00f5es lembrava Auschwitz. H\u00e1 tamb\u00e9m o perigo de aparelhar o show, como acontece muitas vezes com Marcelo Adnet, que ataca o tucanato de Arnaldo Jabor ou das chamadas elites. Ao mesmo tempo, \u00e9 prejudicial ao comediante achar que sendo a favor do politicamente correto poder\u00e1 ser aceito, n\u00e3o ter problemas e continuar provocando risadas. Pois pode fazer sucesso num primeiro instante (e a imita\u00e7\u00e3o do rica\u00e7o que odeia aeroporto lotado do Adnet \u00e9 realmente hil\u00e1rio), mas com o tempo acaba cansando, pois o p\u00fablico desconfia.<\/p>\n<p>\u00c9 um equil\u00edbrio dif\u00edcil de conseguir. Mas se fosse f\u00e1cil qualquer chato contador de anedota seria o m\u00e1ximo. O talento para o stand up \u00e9 raro. Al\u00e9m da voca\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso ser um estrategista das falas, para n\u00e3o acabar na vala comum da desgra\u00e7a. H\u00e1 uma tend\u00eancia em achar que o estrago promovido pelo stand up (sua facilidade \u00e9 ao mesmo tempo uma amea\u00e7a) n\u00e3o mancha a \u201cinflu\u00eancia \u201c (palavra da moda) dos comediantes. No m\u00ednimo identifica valores da nova gera\u00e7\u00e3o com o velho escracho, o que \u00e9 ruim. A baixaria antiga estava sintonizada com o clima da \u00e9poca. Hoje os tempos s\u00e3o mais bicudos,pois a divis\u00e3o entre moral e sua transgress\u00e3o entrou numa fase mais aguda de conflito.<\/p>\n<p>A permissividade, aparentemente sem freios, bate no pared\u00e3o da censura, que se manifesta n\u00e3o s\u00f3 oficialmente, mas de modo natural, quando o p\u00fablico mostra-se avesso \u00e0s apela\u00e7\u00f5es mais escandalosas. Van Trier causou espanto at\u00e9 mesmo para quem estava ao seu lado na coletiva. E dividiu a plat\u00e9ia entre o riso e o esc\u00e2ndalo. O esc\u00e2ndalo venceu.<\/p>\n<p><em>Texto publicado tamb\u00e9m no Jornal Op\u00e7\u00e3o<\/em>. http:\/\/bit.ly\/oUig1z<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Stand up \u00e9 a arte de levantar a plat\u00e9ia com baixarias que voc\u00ea s\u00f3 teria coragem de dizer para voc\u00ea mesmo ou para os amigos mais pr\u00f3ximos \u2013 talvez at\u00e9 na presen\u00e7a de desconhecidos em alguma festinha, para checar sua popularidade. 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