{"id":3325,"date":"2012-01-15T17:16:29","date_gmt":"2012-01-15T19:16:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3325"},"modified":"2012-01-15T17:16:29","modified_gmt":"2012-01-15T19:16:29","slug":"jogo-bruto-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/jogo-bruto-2","title":{"rendered":"JOGO BRUTO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Pequenos neg\u00f3cios n\u00e3o d\u00e3o margem para firula. N\u00e3o tente viver de sua arte no ermo, v\u00e3o rir de voc\u00ea. Confeccionar mosaicos portugueses onde todo mundo usa bermuda e camiseta \u00e9 dose. Oferecer cestos artesanais de vime com bordados \u00e9 outra bobagem. O que pega \u00e9 padaria, queijaria, 1,99 e uns tabefes na cara. N\u00e3o tente fazer do seu sonho um atrativos para almas brutas. N\u00e3o coloque livros de viagem na vitrine nem ofere\u00e7a espressos finos. Jogue grande quantidade de massa envolvendo algum glegous de queijo ou carne no azeite quente e cobre 10 real o pastel. Entupa a clientela de refrigerante.<\/p>\n<p>Vejo prosperarem alguns donos de mercadinhos. Muitos dan\u00e7am, ficam vazios e fecham. Mas os que acertam no veio s\u00e3o aqueles que entopem as prateleiras de praticamente tudo e ficam abertos 48 horas por dia. Voc\u00ea vai na tarde de Finados e consegue comprar pano de prato ou garrafa t\u00e9rmica. As pessoas gostam de ter tudo num lugar s\u00f3, como nos hipermercados. N\u00e3o gostam de lugares que te obrigam a ir em outro. Tem cad\u00e1ver de rato aqui!, grita a faxineira e ningu\u00e9m d\u00e1 bola, a fila do caixa dobra o corredor.<\/p>\n<p>As padarias s\u00e3o tamb\u00e9m lanchonetes e vendem o card\u00e1pio completo de tudo o que engorda, para alegria da obesidade em festa. N\u00e3o tente vender comida natural num lugar onde acreditam que o arroz nasce branco. Boutique de comida n\u00e3o funciona. O neg\u00f3cio \u00e9 a fartura, o varej\u00e3o, o sacol\u00e3o, os retalhos. Todos saem carregados, aos berros. Os fornecedores encostam caminh\u00f5es sem parar amea\u00e7ando os fregueses ringindo pneus e arrancando gargalhadas. H\u00e1 uma voca\u00e7\u00e3o de fazer neg\u00f3cio do Brasil profundo que continua, apesar das gracinhas dos programas especializados em pequenos neg\u00f3cios na TV. Ningu\u00e9m est\u00e1 penteadinho no balc\u00e3o das grosserias.<\/p>\n<p>Eu sempre quis montar um neg\u00f3cio, mas era s\u00f3 fantasia. N\u00e3o me imagino aturando gente metida achando que pode dizer o que quer para os atendentes. Lidar com comida \u00e9 um transtorno, carregar caixas, suar no eito brabo do com\u00e9rcio. J\u00e1 passei dessa fase de realizar sonhos. O que precisamos \u00e9 n\u00e3o realiz\u00e1-los para evitar o pior ou nos convencer que n\u00e3o valem nada. Multiplique por um bilh\u00e3o de vezes que voc\u00ea ter\u00e1 de sorrir para vender algo. Ora, leve de gra\u00e7a e me deixe dormir.<\/p>\n<p>Fico encantado com esses an\u00fancios em que as pessoas sorriem o tempo todo porque conseguiram um financiamento para a sua portinha. Se endividam e acabam perdendo tudo. S\u00f3 tem um jeito: o pai bilion\u00e1rio cacifar o empreendimento. Mas n\u00e3o vamos ser pessimistas. \u00c9 certo que a maioria das empresas que abrem fecham logo em seguida, porque temos um ambiente anti-neg\u00f3cio, um sistema tribut\u00e1rio extorsivo e h\u00e1bitos arraigados da popula\u00e7\u00e3o. O que se segura s\u00e3o os ambulante que vendem quinquilharias ou caf\u00e9 com bolo para trabalhador apressado.<\/p>\n<p>Somos um pa\u00eds de brutos. Os autom\u00f3veis e caminh\u00f5es inundam a na\u00e7\u00e3o. Usamos bermudas, chinelos e camiseta. Gritamos \u00f4 v\u00e9io e a\u00ed alem\u00e3o e chutamos os restos de mosaico portugu\u00eas artesanal que tentaram nos vender. Ora, vendam sandu\u00edches. V\u00e3o se catar.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Pequenos neg\u00f3cios n\u00e3o d\u00e3o margem para firula. N\u00e3o tente viver de sua arte no ermo, v\u00e3o rir de voc\u00ea. Confeccionar mosaicos portugueses onde todo mundo usa bermuda e camiseta \u00e9 dose. Oferecer cestos artesanais de vime com bordados \u00e9 outra bobagem. O que pega \u00e9 padaria, queijaria, 1,99 e uns tabefes na cara. 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