{"id":3400,"date":"2012-02-05T21:33:18","date_gmt":"2012-02-05T23:33:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3400"},"modified":"2012-02-05T21:33:18","modified_gmt":"2012-02-05T23:33:18","slug":"regressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/regressao","title":{"rendered":"REGRESS\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Recebo spam por e-mail me convidando para ler novo fen\u00f4meno liter\u00e1rio, um professor. Vou ler e o in\u00edcio \u00e9 uma sucess\u00e3o de lugares comuns, aquelas descri\u00e7\u00f5es torpes da natureza que evit\u00e1vamos quando, no gin\u00e1sio, os professores nos desafiavam a encontrar solu\u00e7\u00f5es melhores. O problema n\u00e3o \u00e9 o romantismo ou o parnasianismo, que nos oferecem g\u00eanios da literatura, mas sua dilui\u00e7\u00e3o, a leitura equivocada que acaba gerando essas inutilidades que acabam voltando,pois arrebentou-se com todos os paradigmas, relativizou-se tudo e agora tudo pode, principalmente andar para tr\u00e1s, regredir.<\/p>\n<p>Sorte que contamos com os russos, que inventaram a narrativa moderna de g\u00eanio e nos servem sempre como exemplo. Na s\u00e9rie de artigos que estou publicando aqui sobre os contos russos numa edi\u00e7\u00e3o antiga da Martins Editora, leio um encantador Turgueniev, que tem no seu curr\u00edculo o grande romance Pais e Filhos. O texto que abordo aqui \u00e9 O Encontro, em que o narrador \u00e9 testemunha de uma despedida de um casal no ermo, em meio \u00e0 natureza. A exuber\u00e2ncia do ambiente, descrito com maestria, se contrap\u00f5e ao drama entre o conquistador indiferente e bruto e a pobre apaixonada que implora aten\u00e7\u00e3o mesmo sabendo que ser\u00e1 abandonada.<\/p>\n<p>\u201cUma brisa ligeira alisava o cimo das \u00e1rvores. A floresta molhada mudava a todo momento de aspecto, conforme o sol brilhava ou se escondia\u201d, nos diz Turgueniev, mostrando o outro lado da sua magn\u00edfica na\u00e7\u00e3o, que sempre vemos envolta na neve , na chuva, na ventania e no frio. Aqui, temos o esplendor da esta\u00e7\u00e3o descrito por um mestre, que nos introduz o romance aparentemente buc\u00f3lico como se houvesse uma trai\u00e7\u00e3o \u00e1 natureza, ou talvez, fa\u00e7a parte dela, pois se trata de paix\u00e3o e crueldade, elementos recorrentes na vida natural. O importante \u00e9 a for\u00e7a da narrativa, a originalidade do enfoque, que trabalha num territ\u00f3rio muito explorado, que \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o da paisagem.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o os temas escolhidos que fazem a diferen\u00e7a, mas sim o que voc\u00ea faz com eles. \u00c9 a sua pena que conta, seu talento, seu dom\u00ednio de linguagem. N\u00e3o se pode \u00e9 se entregar a solu\u00e7\u00f5es batidas por falta de compet\u00eancia ou de conhecimento. Acredito que tudo foi vedado \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, e por isso, mesmo com tanta oferta na rede digital, ficam, por falta de informa\u00e7\u00e3o, sem acesso ao que h\u00e1 de melhor na cultura, impregnando-se de falsos \u00eddolos, m\u00fasicas ruins, literatura de pastiche. H\u00e1 muita apela\u00e7\u00e3o. A ind\u00fastria do espet\u00e1culo a tudo manipula e contamina. Ou temos os diluidores profissionais com suas hist\u00f3rias p\u00edfias mal escritas ou os pomposos falsos eruditos que fazem pose com suas obras suspeitas.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil \u00e9 achar a legitima manifesta\u00e7\u00e3o do talento, que \u00e9 uma soma de sabedoria, um conhecimento acumulado submerso que aflora num poema , conto ou romance. Em outra hist\u00f3ria do livro em quest\u00e3o, desta vez de autoria de Korolenko, um guarda se apaixona pela estranha prisioneira que ele escolta at\u00e9 os confins da Sib\u00e9ria. \u00c9 tocante ver a mulher tossindo nos rigores do inverno russo e aquele amor que penetra o texto como um veneno tardio.<\/p>\n<p>\u00c9 disso que somos feitos: da transcend\u00eancia conseguida pela arte da palavra. Gl\u00f3ria aos grandes escritores e rigor contra os enganadores.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Recebo spam por e-mail me convidando para ler novo fen\u00f4meno liter\u00e1rio, um professor. Vou ler e o in\u00edcio \u00e9 uma sucess\u00e3o de lugares comuns, aquelas descri\u00e7\u00f5es torpes da natureza que evit\u00e1vamos quando, no gin\u00e1sio, os professores nos desafiavam a encontrar solu\u00e7\u00f5es melhores. 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