{"id":3526,"date":"2012-03-06T18:39:24","date_gmt":"2012-03-06T21:39:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3526"},"modified":"2012-03-06T18:39:24","modified_gmt":"2012-03-06T21:39:24","slug":"o-diafano-e-o-hilario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-diafano-e-o-hilario","title":{"rendered":"O DI\u00c1FANO E O HIL\u00c1RIO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Dois contos extraordin\u00e1rios d\u00e3o sequ\u00eancia \u00e0 leitura do livro Obras Primas do Conto Russo, da Martins Editora, que tenho comentado aqui: A M\u00e3e de Branco, de Sologue, e O M\u00e1rtir da Moda, de Kuprin. Ele abrem o leque da nossa percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura russa, que a vemos sempre ligada aos grandes dramas \u00e9picos ou \u00e0 den\u00fancia das mesquinharias cotidianas, ao enfrentamento do clima \u00e1spero ou a dura vida nos desertos e na infind\u00e1vel mis\u00e9ria. Eles tamb\u00e9m nos levam pela m\u00e3o para os inumer\u00e1veis recursos da narrativa, que podem nos transportar para mundos imaginados que nos pareciam exclusivos de nossa mente, mas tamb\u00e9m, descobrimos abrindo o livro, fazem parte de outros povos; e de realidades pr\u00f3ximas que identificam tradicionais assombra\u00e7\u00f5es com na\u00e7\u00f5es e tempos remotos.<\/p>\n<p>Sologue \u00e9 um artista da palavra impregnada por aquele clima rom\u00e2ntico atra\u00eddo para a morte e a n\u00e9voa, t\u00e3o caro aos nossos poetas como Cruz e Souza ou \u00c1lvares de Azevedo. Tamara, o amor imposs\u00edvel, di\u00e1fana , quase transparente, \u00e9 a sedu\u00e7\u00e3o do celibat\u00e1rio que n\u00e3o suporta gente e festas de fim de ano. Ele prefere mergulhar no seu sonho, lembrando a jovem que namorou rapidamente, antes que fosse acometida por mal s\u00fabito e morresse, deixando nosso solteir\u00e3o abandonado para sempre.<\/p>\n<p>Parece coisa t\u00edpica do s\u00e9culo 19 ou in\u00edcio dos anos 20, mas vemos como a morbidez amorosa atrai multid\u00f5es at\u00e9 hoje, com vampiros galantes, fantasmas sedutores e alien\u00edgenas cheios de charme. Tudo \u00e9 soma na cultura, n\u00e3o existe mais essa fila anal\u00f3gica de tend\u00eancias, tudo \u00e9 simult\u00e2neo, contempor\u00e2neo. N\u00e3o h\u00e1 supera\u00e7\u00f5es. H\u00e1, claro, a experi\u00eancia adquirida, mas a abordagem das v\u00e1rias artes \u00e9 on\u00edvora, ou seja, gosta de tudo. Podemos ser \u00e1rcades, rom\u00e2nticos, radicais, revolucion\u00e1rios. Ou hil\u00e1rios, como o conto de Kuprin sobre o marido muito gordo e rico que, por amor \u00e0 bela esposa, fica pagando in\u00fameros micos para acompanhar as modas das artes.<\/p>\n<p>L\u00e1 vemos o pobre marido vestindo casacos futuristas, tentando sentar em cadeiras absurdas (como as de \u201cdesign\u201d hoje, feitas para exposi\u00e7\u00f5es e n\u00e3o para serem usadas) e querendo o div\u00f3rcio porque n\u00e3o ag\u00fcentava mais fazer papel de rid\u00edculo diante dos seus amigos e parceiros de neg\u00f3cios. As modinhas que obrigaram nosso amigo a tomar essa decis\u00e3o, depois que caiu de barriga no ch\u00e3o num lotado espa\u00e7o de patina\u00e7\u00e3o, continuam em vigor, de v\u00e1rias formas. Vi isso muitas vezes. Gente fazendo pose, notando detalhes da tua roupa, fingindo que s\u00e3o vanguarda mas continuam presos a velhos h\u00e1bitos. No fundo, n\u00e3o mudamos nunca. Somos como esses personagens t\u00e3o magistralmente retratados pelos mestres russos, que nos encantam com o poder de suas palavras.<\/p>\n<p>Gosto desses temas aparentemente bizarros mas que tem tudo a ver conosco. Tanto as assombra\u00e7\u00f5es quanto o humor de situa\u00e7\u00f5es humanas. Precisamos rir de n\u00f3s mesmos para que o mundo n\u00e3o se acabe de vez em barb\u00e1rie. E imaginar outros mundos, para que possamos conviver com o mist\u00e9rio. Esqueci de dizer: o celibat\u00e1rio acaba adotando um \u00f3rf\u00e3o, obedecendo assim a sugest\u00e3o do seu fantasma amoroso. Grandes russos.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Dois contos extraordin\u00e1rios d\u00e3o sequ\u00eancia \u00e0 leitura do livro Obras Primas do Conto Russo, da Martins Editora, que tenho comentado aqui: A M\u00e3e de Branco, de Sologue, e O M\u00e1rtir da Moda, de Kuprin. 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