{"id":3571,"date":"2012-03-16T16:16:17","date_gmt":"2012-03-16T19:16:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3571"},"modified":"2012-03-16T16:16:17","modified_gmt":"2012-03-16T19:16:17","slug":"tetro-de-coppola-mergulho-nas-luzes-internas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/tetro-de-coppola-mergulho-nas-luzes-internas","title":{"rendered":"TETRO, DE COPPOLA: MERGULHO NAS LUZES INTERNAS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Toda arte \u00e9 a sua conting\u00eancia. Transcender n\u00e3o \u00e9 ignorar os limites, ao contr\u00e1rio, \u00e9 ter consci\u00eancia deles. Um filme n\u00e3o existe fora do cinema. Antes de ser um g\u00eanero, \u00e9 um filme e disso ele n\u00e3o escapa. Seu foco \u00e9 a sua pr\u00f3pria natureza: seja qual for o desdobramento, volta para si mesmo. \u00c9 preciso abordar o cinema para faz\u00ea-lo. Grandes cineastas transformam esse destino, essa camisa de for\u00e7a, em grande arte. Como Francisco Ford Coppola, por exemplo, tanto como diretor contratado em est\u00fadio de O Poderoso Chef\u00e3o quanto o independente Tetro (2009). Entre esses dois p\u00f3los, ele trafega entre a celebra\u00e7\u00e3o e maldi\u00e7\u00e3o procurando manter o foco. O g\u00eanio que acaba transgredindo faz filmes, n\u00e3o sucessos ou fracassos.<\/p>\n<p>O que \u00e9 Godfather? Cinema. Marlon Brando imita Eward G. Robinson, paradigma do chef\u00e3o mafioso de Hollywood desde Little Cesar, (1931), colocando bochechas falsas para convencer os chef\u00f5es de que ele era o ator certo. Gestos \u00e9tnicos como bater na cara do interlocutor e que s\u00e3o confundidos com a italianidade. O clipe do batismo coincidindo com a elimina\u00e7\u00e3o da concorr\u00eancia. A m\u00fasica pontuando a narrativa. Assim tamb\u00e9m, Tetro, colagem cinematogr\u00e1fica em que o cineasta busca a pr\u00f3pria identidade, que em vez de estar na fam\u00edlia, est\u00e1 no pr\u00f3prio cinema.<\/p>\n<p>As chamadas cita\u00e7\u00f5es de filmes fazem parte da carne de que \u00e9 feito Tetro. Duas obras da dupla inglesa Michael Powell e Emeric Pressburger , Red Shoes (1948) e Os Contos de Hoffmann (1951), fazem parte da mem\u00f3ria dom\u00e9stica, mas no filme \u00e9 a subst\u00e2ncia da postura art\u00edstica assumida pelos Tetrocini, em que a originalidade e o talento convivem com grandes obras, da m\u00fasica \u00e0 dan\u00e7a, a literatura e ao cinema. O tempo presente \u00e9 em preto e branco, origem do cinema, e a mem\u00f3ria \u00e9 em cores, a ilus\u00e3o de uma vida equilibrada e perfeita que se estilha\u00e7a em acidentes, concorr\u00eancia, retalia\u00e7\u00f5es, vingan\u00e7as, separa\u00e7\u00f5es, dor e morte.<\/p>\n<p>Na interpreta\u00e7\u00e3o, se sobressai o veterano Klaus Maria Brandauer em duplo papel, os maestros Carlo \/ Alfie Tetrocini, e a elogiad\u00edssima Maribel Verd\u00fa, a que procura costurar os cacos de um amor pressionado pela mem\u00f3ria. Ela \u00e9 Miranda, a mulher de Tetro, que gera uma dan\u00e7a nova no rod\u00edzio mofado da rela\u00e7\u00e3o entre dois irm\u00e3os. Vincent Gallo \u00e9 um ator intenso que faz um personagem aborrecido, eg\u00f3latra e desaforado, como a encarnar o esp\u00edrito transgressor de Coppola, g\u00eanio maldito que experimentou a gl\u00f3ria e neste filme explica porque cospe no reconhecimento da ind\u00fastria. N\u00e3o preciso mais da sua opini\u00e3o, diz Tetro para a importante cr\u00edtica, Alone, interpretada pela carism\u00e1tica Carmen Maura.<\/p>\n<p>O festival de teatro e literatura, que imita as premia\u00e7\u00f5es do cinema para debochar delas (pe\u00e7as focadas no parric\u00eddio \u00e9 de um humor sinistro), \u00e9 a apoteose desse trajeto que o talento percorre \u00e0 revelia em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 gl\u00f3ria. N\u00e3o adianta espernear contra o sistema que o sufoca, ou negar a heran\u00e7a familiar, sempre o artista estar\u00e1 \u00e0s voltas com os parentes hegem\u00f4nicos ou as c\u00e2maras e luzes formatadas pelo dinheiro. Resta ent\u00e3o a consci\u00eancia de que tudo est\u00e1 sendo decidido pela percep\u00e7\u00e3o do olho diante de um foco de luz. N\u00e3o por acaso Tetro, escritor frustrado, vive fazendo bico de iluminador para o teatro.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso fechar os olhos para essa tenta\u00e7\u00e3o, pois nosso olhar \u00e9 como a mariposa que morre atra\u00edda pela for\u00e7a desse im\u00e3. Fechar os olhos para poder se enxergar e encontrar tem uma vantagem: a c\u00e2mara do cineasta est\u00e1 focada nesse ato final de defesa contra o massacre. N\u00f3s devemos ficar de olhos abertos para o desenlace, enquanto os protagonistas mergulham num abra\u00e7o cego para lavar suas feridas.<\/p>\n<p>O jovem Alden Ehrenreich, bom ator, n\u00e3o suporta a carga de import\u00e2ncia que seu personagem tem no filme e fica um pouco catat\u00f4nico o tempo todo. N\u00e3o estraga o filme, mas n\u00e3o o eleva \u00e0 altura necess\u00e1ria, principalmente no cl\u00edmax, quando coloca fogo num funeral e sai para a rua em busca do suic\u00eddio. Lembro o jovem Alain Delon em Rocco e seus irm\u00e3os, de Luchino Visconti, que n\u00e3o desperdi\u00e7ou a chance e jogou pesado no papel do garoto problem\u00e1tico. Mas n\u00e3o se pode comparar os talentos. S\u00f3 fica o registro que uma oportunidade jamais \u00e9 desperdi\u00e7ada por quem tem gana de marcar seu tempo.<\/p>\n<p>Tetro lembra um pouco Cora\u00e7\u00e3o Iluminado (1996) de Hector Babenco, que trafega nas mesmas rodovias: a busca da identidade perdida na Argentina real e m\u00edtica. Acho filmes irm\u00e3os, n\u00e3o s\u00f3 pela abordagem, mas pelo esfor\u00e7o transgressor, ambos tendo problemas de aceita\u00e7\u00e3o de cr\u00edtica e p\u00fablico. Tetro \u00e9 importante: a dan\u00e7a, o cinema, a m\u00fasica, a literatura confluem para uma obra de pesquisa e ruptura, nos deixando frente a frente com as charadas propostas pelo autor.<\/p>\n<p>Tetro resgata uma trag\u00e9dia por meio da arte: a pe\u00e7a de teatro dan\u00e7ada, com elementos de \u00f3pera, mostra o crime de um pai famoso regente de orquestra e compositor que se vinga do filho (motorista do acidente que matou a m\u00e3e, mulher do maestro) e o afloramento do sentimento parricida. Matar a ancestralidade aparece como f\u00f3rmula salvadora, mas isso aconteceria se o cinema se entregasse \u00e0s evid\u00eancias do com\u00e9rcio. \u00c9 preciso fechar os olhos para a pervers\u00e3o da ilus\u00e3o para encontrar o foco salvador, que est\u00e1 dentro do artista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Toda arte \u00e9 a sua conting\u00eancia. Transcender n\u00e3o \u00e9 ignorar os limites, ao contr\u00e1rio, \u00e9 ter consci\u00eancia deles. Um filme n\u00e3o existe fora do cinema. Antes de ser um g\u00eanero, \u00e9 um filme e disso ele n\u00e3o escapa. Seu foco \u00e9 a sua pr\u00f3pria natureza: seja qual for o desdobramento, volta para si [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3571"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3571"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3571\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3572,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3571\/revisions\/3572"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3571"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3571"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3571"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}