{"id":3639,"date":"2012-04-21T14:24:39","date_gmt":"2012-04-21T17:24:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3639"},"modified":"2012-04-21T14:24:39","modified_gmt":"2012-04-21T17:24:39","slug":"samuel-fuller-e-a-nudez-do-mito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/samuel-fuller-e-a-nudez-do-mito","title":{"rendered":"SAMUEL FULLER E A NUDEZ DO MITO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Os tr\u00eas primeiros filmes escritos e dirigidos por Samuel Fuller \u2013 sendo que s\u00f3 um n\u00e3o foi tamb\u00e9m produzido por ele \u2013 entre 1949 e 1951 despem os mitos que o pr\u00f3prio cinema vestiu. O primeiro, sua grande estr\u00e9ia, arrasadora, Eu Matei Jesse James, \u00e9 o contraponto entre a forma\u00e7\u00e3o do mito (o Robin Hood her\u00f3ico invenc\u00edvel tra\u00eddo pelo melhor amigo, contado pelos folhetins e imprensa e cantado pelos trovadores ambulantes) e seu ant\u00eddoto (a representa\u00e7\u00e3o do crime no teatro protagonizado pelo pr\u00f3prio assassino, Bob Ford, o cara que assim fica marcado para morrer, pois mat\u00e1-lo daria fama ao atirador). Em tese \u00e9 um faroeste, mas Fuller rompe os mitos que cercam os g\u00eaneros.<\/p>\n<p>O segundo, O Bar\u00e3o do Arizona, que tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser enquadrado como um faroeste, apesar de todos os elementos presentes na tela, \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o de uma fraude e sua queda. \u00c9 a a oposi\u00e7\u00e3o entre a forma\u00e7\u00e3o de um mito \u2013 a falsa nobreza que reivindica o territ\u00f3rio de um estado inteiro por meio da falsifica\u00e7\u00e3o de documentos seculares e a inven\u00e7\u00e3o de uma linhagem fict\u00edcia \u2013 e a press\u00e3o sofrida at\u00e9 sua derrota tanto por parte do Estado americano quanto da popula\u00e7\u00e3o lesada pela ambi\u00e7\u00e3o do fraudador. Como um romancista que conta a saga de um falso pioneiro e se encanta por sua performance, Fuller \u00e9 um autor de transgress\u00f5es m\u00faltiplas que procura revelar o cruzamento entre o que \u00e9 considerado verdadeiro e sua contrafa\u00e7\u00e3o, tomando partido n\u00e3o por um ou outro lado, mas pelo cinema.<\/p>\n<p>Em Jesse James, a pe\u00e7a de teatro reproduz fielmente a cena do pr\u00f3prio filme, gerando um efeito desdram\u00e1tico nos espectadores. Em Arizona, a paciente e elaborada cria\u00e7\u00e3o da fraude mostra como a percep\u00e7\u00e3o alheia e as leis podem ficar \u00e0 merc\u00ea das representa\u00e7\u00f5es, dos tratados, dos documentos, das ambi\u00e7\u00f5es. Nos dois filmes, os telegramas e os jornais servem para, em off, costurar a narrativa dram\u00e1tica que gira em torno de poucos personagens. Em ambos, o amor sincero entre duas pessoas \u00e9 o que sobra de verdade de uma espiral de mentiras. Tudo sem nenhum sentimentalismo, pois as paix\u00f5es nascem n\u00e3o da moral mas da pele, das emo\u00e7\u00f5es, das atra\u00e7\u00f5es misteriosas, das viv\u00eancias.<\/p>\n<p>No terceiro filme, O Capacete de A\u00e7o (The Steel Hemet), alguns mitos s\u00e3o despidos pelo cineasta, como o perfil da Am\u00e9rica \u2013 representada aqui pela diversidade \u00e9tnica, bem ao contr\u00e1rio da cultura caucasiana de Hollywwood \u2013 a guerra no que ela tem de mais importante ( seus bastidores, suas humanidades, os detalhes, a indiferen\u00e7a, o instinto de sobreviv\u00eancia, a garra). N\u00e3o \u00e9 um filme sobre hero\u00edsmo standard, mas sobre um hero\u00edsmo poss\u00edvel, mais bruto, sem mistifica\u00e7\u00f5es, sem nenhuma roupagem de gala, sujo e feio e ferido. Um assombro de filme.<\/p>\n<p>Existem muitos cineastas, bons, importantes, g\u00eanios. Mas Samuel Fuller \u00e9 de outra natureza. O cara \u00e9 foda. Acho que isso o define. Ele \u00e9 uma for\u00e7a da natureza que explode na tela em cenas e falas inesquec\u00edveis (como \u201cse voc\u00ea morrer eu te mato\u201d dito pelo sargento para um prisioneiro que precisava sobreviver para ser interrogado). As brigas, os beijos, os tiros, tudo excede em Samuel Fuller. Acho que The Steel Hemet \u00e9 o melhor filme de guerra que vi e olha que sou veteran\u00edssimo no g\u00eanero. O sargento manco fumador de charuto e atrapalhado, que delira no meio do tiroteio \u00e9 uma figura inesquec\u00edvel. O soldado que carrega o \u00f3rg\u00e3o herdado de um padre moribundo, o m\u00e9dico negro que precisa pegar na metralhadora, o soldado mudo que cuida das mulas e morre assassinado pelas costas: tudo \u00e9 intenso nesta obra.<\/p>\n<p>O desconhecido que chega no casebre para transformar uma \u00f3rf\u00e3 mesti\u00e7a numa baronesa espanhola, embaixo da chuva e que no final do filme \u00e9 recebido por ela, adulta e sua esposa, tamb\u00e9m sob aguaceiro, \u00e9 tamb\u00e9m mais um exemplo dessas costuras magn\u00edficas da S\u00e9tima Arte, que Fuller domina como ningu\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Os tr\u00eas primeiros filmes escritos e dirigidos por Samuel Fuller \u2013 sendo que s\u00f3 um n\u00e3o foi tamb\u00e9m produzido por ele \u2013 entre 1949 e 1951 despem os mitos que o pr\u00f3prio cinema vestiu. O primeiro, sua grande estr\u00e9ia, arrasadora, Eu Matei Jesse James, \u00e9 o contraponto entre a forma\u00e7\u00e3o do mito (o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3639"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3639"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3639\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3640,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3639\/revisions\/3640"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3639"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3639"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3639"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}