{"id":3668,"date":"2012-05-09T19:28:56","date_gmt":"2012-05-09T22:28:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3668"},"modified":"2012-05-09T19:28:56","modified_gmt":"2012-05-09T22:28:56","slug":"o-crime-da-carvoeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-crime-da-carvoeira","title":{"rendered":"O CRIME DA CARVOEIRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Inventei uma biblioteca semi-submersa, guardada por um negro velho, que dormitava com os \u00f3culos comprados em camel\u00f4 pendurados no nariz, rodeado de algas, liquens e peixes. Havia uma craca de ostras no teto. Um resto de rede tapando quadros borrados nas paredes. Uma cabe\u00e7a de golfinho sorrindo sinistramente para mim.<\/p>\n<p>Um volume detonado boiava na recep\u00e7\u00e3o e eu sentei com \u00e1gua pela cintura para tentar folhear, mas as p\u00e1ginas se despregavam, rasgavam ao meio e misturavam narrativas de mem\u00f3rias de algu\u00e9m sem a m\u00ednima import\u00e2ncia, mas que tinha uma hist\u00f3ria completamente louca para contar. Resolvi destacar alguns peda\u00e7os , aproveitei que o porteiro continuava dormindo e me mandei com alguns peda\u00e7os do livro.<\/p>\n<p>Decidi enviar o material bruto para meu editor, que tinha faro, fazia as pautas e era melhor economizar tempo e ver o que achava daquilo. Ele me respondeu na hora: escreva um romance com isso e me entregue na segunda-feira, que estou sem nada para a Bienal, que come\u00e7a no m\u00eas que vem. Meu editor se mal acostumou comigo quando produzi mil p\u00e1ginas de uma biografia hist\u00f3rica que chupei de alfarr\u00e1bios perdidos. Escaneei um monte de volumes e depois fiz uma mistureba rand\u00f4mica. Deu certo. N\u00e3o leram, mas fui premiado. Jurado de concurso liter\u00e1rio n\u00e3o l\u00ea nada e premia por via das d\u00favidas. Vai que a porra gigantesca seja uma obra-prima. Ganhei algum dinheiro e fama. Por isso n\u00e3o estranhei o pedido.<\/p>\n<p>Mas a ma\u00e7aroca n\u00e3o fazia sentido. O autor contava sua vida com uma tal Ermengarda, filha adotiva de um aventureiro ingl\u00eas que tinha fundado algumas cidades no interior da floresta no oeste sul do pa\u00eds. Ele era um engenheiro de minas e tinha ido para l\u00e1 fazer servi\u00e7os civilizat\u00f3rios em troca de uns trocados em libras. Pretendia comprar sua passagem de volta para a Inglaterra, pois tinha vindo fazer fortuna e viu que aqui s\u00f3 podia se estrepar.<\/p>\n<p>O cara \u00e9 chato. Dedica a maior parte do texto a aspectos t\u00e9cnicos do seu trabalho, datados e desinteressantes. Mas deixa escapar o caso misterioso de um crime acontecido no ermo e que envolvia Ermengarda. Ela fazia servi\u00e7os de caridade com os miser\u00e1veis que trabalhavam numa carvoeira quando descobriu um corpo carbonizado que viria a ser do inspetor chefe, um alem\u00e3o chucrute temido e jurado de morte. N\u00e3o haveria nada demais se o dito inspetor n\u00e3o fosse tamb\u00e9m o propriet\u00e1rio dos mil escravos que trabalhavam para o ingl\u00eas. As suspeitas ca\u00edram sobre o pai da Ermengarda, que assim se livraria da d\u00edvida contra\u00edda com o feitor. Mas quem acabou pagando o pato foi o autor do livro.<\/p>\n<p>Ele fica se explicando, nos intervalos de seu exibicionismo t\u00e9cnico (como se o preparo profissional fosse prova de inoc\u00eancia); se justificando e se perdendo, pois quanto mais contava mais se enrolava. Pelo que deu para notar, acabou apodrecendo numa cadeia onde escreveu suas mem\u00f3rias e entregou para um amigo m\u00e9dico, que acabou casando com Ermengarda. Por descargo de consci\u00eancia, o m\u00e9dico publicou o volume mas estocou-o num dep\u00f3sito, e a\u00ed tudo se perdeu (fiquei sabendo por uma carta grudada no final do livro, escrita pelo advogado da v\u00edtima). Como um exemplar foi parar na biblioteca condenada, n\u00e3o sei. Talvez o encarregada recolha seu acervo em galp\u00f5es em ru\u00ednas e lix\u00f5es.<\/p>\n<p>Resolvi inventar um detetive que descobria o verdadeiro culpado do crime: o m\u00e9dico, claro! O safado fez de tudo para incriminar o engenheiro, ficar com a herdeira, colocar seu advers\u00e1rio na cadeia, providenciar uma volta do sogro \u00e0 sua Londres querida (para evitar que se envolvesse mais no caso) , ficar com os escravos do alem\u00e3o e vender as terras devolutas para os imigrantes da Mold\u00e1via, Pol\u00f4nia Bohemia e de outras plagas, Cheio da gaita, mudou-se para Paris, onde viveu at\u00e9 os 104 anos. Ermengarda morreu misteriosamente num acidente de bonde quando fazia um passeio com algu\u00e9m que dizia ser o pr\u00f3prio Proust.<\/p>\n<p>N\u00e3o gostei, disse o editor. Est\u00e1 uma merda. N\u00e3o tem sexo embaixo desses panos? N\u00e3o tem detalhes de crueldades contra animais e escravos? Nada ambiental e politicamente correto? Ficas celebrando a vilania do m\u00e9dico, a perspic\u00e1cia do detetive, a idiotia do engenheiro e me deixas na m\u00e3o! Quero coisa melhor,quero uma obra-prima, n\u00e3o um livreco de detetive menor, um Raymond Chandler da praia.<\/p>\n<p>Aquilo me ofendeu profundamente. N\u00e3o por ter achado uma merda, mas por me comparar a Chandler, me diminuindo, foi demais. Ent\u00e3o ter\u00e1s apenas o making of, eu disse, aprorrinhado. E mandei este texto que voc\u00ea est\u00e1 lendo agora. Por e-mail. At\u00e9 agora n\u00e3o me respondeu nem me depositou a merreca mensal para eu pagar as contas Vou ter que voltar na biblioteca (se \u00e9 que ela n\u00e3o afundou de vez) e encontrar outro mote. Talvez algo que n\u00e3o precise trabalhar nada. Um Moby Dick esquecido. Um cora\u00e7\u00e3o das Trevas oculto. Um Dom Quixote das grotas. Quem sabe.\u00a0 Esta vida liter\u00e1ria \u00e9 cheia de truques.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Inventei uma biblioteca semi-submersa, guardada por um negro velho, que dormitava com os \u00f3culos comprados em camel\u00f4 pendurados no nariz, rodeado de algas, liquens e peixes. Havia uma craca de ostras no teto. Um resto de rede tapando quadros borrados nas paredes. Uma cabe\u00e7a de golfinho sorrindo sinistramente para mim. 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