{"id":3808,"date":"2014-01-19T09:21:54","date_gmt":"2014-01-19T11:21:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3808"},"modified":"2014-01-20T08:16:15","modified_gmt":"2014-01-20T10:16:15","slug":"trapaca-as-virtudes-do-mal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/trapaca-as-virtudes-do-mal","title":{"rendered":"TRAPA\u00c7A: AS VIRTUDES DO MAL"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A realidade \u00e9 uma trapa\u00e7a, como o cinema. Desempenhamos pap\u00e9is para sobreviver. Enganamos os interlocutores para que nos paguem por algo que oferecemos mas n\u00e3o entregamos. Temos vida dupla porque \u00e9 insuport\u00e1vel conformar-se a um s\u00f3 destino. Buscamos desesperados parcerias para que nos ajudem a dividir a carga de viver no mundo dedicado ao assassinato e ao logro. Tudo soa falso nesse universo intensificado pelo dinheiro que dribla o fisco e o sistema financeiro oficial. N\u00e3o somos culpados pois nosso \u00e1libi \u00e9 que todos est\u00e3o no mesmo barco e \u00e9 assim que o mundo funciona.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O \u00fanico cuidado \u00e9 n\u00e3o deixar-se apanhar por algu\u00e9m do mundo real que finge participar do jogo e que n\u00e3o passa de um agente federal, um sujeito da Lei. Este pode vencer por algum tempo mas acabar\u00e1 sucumbindo na armadilha que sabemos fazer melhor: captur\u00e1-lo no visgo da pr\u00f3pria ambi\u00e7\u00e3o de ser algu\u00e9m \u00e0 custa de uma corre\u00e7\u00e3o de fachada. Pois o mundo verdadeiro \u00e9 regido pelas leis da m\u00e1fia e a Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas um acordo no papel que enquadra os fracos. Viver n\u00e3o \u00e9 para amadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Custa caro dispor dos recursos expostos nas vitrines do mundo artificial. Voc\u00ea pode dispensar essa op\u00e7\u00e3o, fugir da tenta\u00e7\u00e3o, confinar-se num reduto de consci\u00eancia limpa, mas como poder\u00e1 garantir o futuro dos filhos, a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie? Como ter\u00e1 a mulher imposs\u00edvel que finge ser uma lady para mascarar sua origem pobre e convencer quem est\u00e1 endividado a empenhar seus \u00faltimos cinco mil d\u00f3lares em favor da perspectiva, fajuta, de conseguir 50 mil? A \u00fanica chance \u00e9 fazer parte dos ladr\u00f5es e se quiser manter-se ascendendo abrace o Mal, fa\u00e7a amizade com a demagogia criminosa e n\u00e3o tente enredar o chef\u00e3o da quadrilha e seus prepostos pol\u00edticos porque n\u00e3o vai adiantar. Acabar\u00e1s pegando peixes pequenos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os banqueiros j\u00e1 est\u00e3o com todas as na\u00e7\u00f5es e suas popula\u00e7\u00f5es na m\u00e3o. Cobram caro pelos investimentos. Para ter acesso ao dinheiro e gerar emprego num universo de exclus\u00e3o permanente \u00e9 preciso que a Caixa 2, a grana da corrup\u00e7\u00e3o e das drogas entre no circuito com sua miss\u00e3o \u201cmoral\u201d de distribuir a renda que fica entesourada pelos donos do mundo. Os bandidos n\u00e3o passam de laranjas que se submetem ao circuito escasso dos recursos que paradoxalmente parecem abundantes, mas s\u00e3o uma \u00ednfima por\u00e7\u00e3o do sequestro proporcionado pela ditadura financeira internacional, a geradora de crises para concentrar mais renda e remuneradora de meia d\u00fazia de tubar\u00f5es. Os bagrinhos s\u00e3o esses matadores de esquina a destruir a concorr\u00eancia de um n\u00famero crescente de trapaceiros que medram \u00e0 sombra do sistema perverso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nessa rota narrativa, Trapa\u00e7a (American Hustle, 2013), de David O. Russell \u00e9 pura m\u00e1gica de sub\u00farbio, ilusionismo de circo antigo, trapa\u00e7a da grossa. Usa uma sucess\u00e3o de cita\u00e7\u00f5es para parecer um filme cult, como a cena roubada do final de Casablanca, a ideia central de Golpe de Mestre, 1973, de George Roy Hill, pitadas de Embalos de S\u00e1bado \u00e0 Noite e performances dram\u00e1ticas espelhadas em Mike Nickols de Carnal Knowledge. Christian Bale n\u00e3o convence como gordo, sabemos que \u00e9 fake seu barrig\u00e3o, ele que foi mag\u00e9rrimo, musculoso e o falso garoto de Imp\u00e9rio do sol, quando iludiu Steven Spielberg que tinha 10 anos, quando j\u00e1 tinha mil.\u00a0 Amy Adams se esfor\u00e7a mas \u00e9 devorada por Jennifer Lawrence, t\u00e3o perigosa que \u00e9 capaz de levar novamente o Oscar. Ambas opostas e iguais como duas irm\u00e3s. A esposa que usa o filho para se manter sustentada e a amante que assume outra personalidade para ganhar dinheiro junto com o golpista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O amor \u00e9 uma trapa\u00e7a que tamb\u00e9m n\u00e3o convence pois como pode haver sentimento em vidas que contrariam o que \u00e9 humano? A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 exacerbar as performances para ganhar pr\u00eamio de interpreta\u00e7\u00e3o. Cenas de sexo que s\u00e3o explos\u00f5es artificiais de um erotismo de espet\u00e1culo e pretendem seduzir o espectador para algo que parece ser o \u00faltimo grito das rela\u00e7\u00f5es, misturando curra em banheiro de boate com entregas de beldades em balc\u00f5es mal iluminados a grupos engravatados de mafiosos carn\u00edvoros. O desfecho acaba celebrando a corrup\u00e7\u00e3o do casal protagonista, apresentados como sumidades dessa m\u00e1gica bandida de enganar os trouxas, inclusive os da lei e da pol\u00edtica, abra\u00e7ando-se aos meliantes que aqui encarnam a\u00a0 \u201cnormalidade\u201d cristalizada por clones de O Poderoso Chef\u00e3o de Coppola. S\u00f3 temos que escolher a m\u00e1fia para qual trabalhar e ver virtudes nela para que exista fam\u00edlia e vida digna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o modelo, o par\u00e2metro apresentado como um drama c\u00f4mico e que n\u00e3o passa de apela\u00e7\u00e3o pura e simples. Filme ser arte, mas \u00e9 com\u00e9rcio barato, 1,99 que promete negar suas inten\u00e7\u00f5es originais e agora quer ser virtuoso. Filme trai\u00e7oeiro que acaba dando tiro no pr\u00f3prio p\u00e9. Tenta nos ludibriar de que fazemos parte dessa perversidade, que reserva a gl\u00f3ria e o dinheiro para qu\u00e9m est\u00e1 na tela e nos transforma em insumo dessa ind\u00fastria. Ser\u00edamos os perdedores que devem se submeter \u00e0s evid\u00eancias, aplaudir tanta brutalidade e sentir tes\u00e3o pelo que nos oferecem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o somos assim, meus chapas e esse mundo que medrou \u00e0 sombra das guerras n\u00e3o veio para ficar. Ser\u00e1 destru\u00eddo n\u00e3o por nossas virtudes, mas por nossa necessidade de sobreviv\u00eancia, pois sabemos que n\u00e3o temos escolha: ou acabamos com isso ou morremos no final.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s &nbsp; A realidade \u00e9 uma trapa\u00e7a, como o cinema. Desempenhamos pap\u00e9is para sobreviver. Enganamos os interlocutores para que nos paguem por algo que oferecemos mas n\u00e3o entregamos. 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