{"id":425,"date":"2009-12-10T14:11:18","date_gmt":"2009-12-10T16:11:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=425"},"modified":"2009-12-22T00:30:28","modified_gmt":"2009-12-22T02:30:28","slug":"o-poeta-como-personagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-poeta-como-personagem","title":{"rendered":"O POETA COMO PERSONAGEM"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 o nerudismo, em dois vetores. Um, o \u00e9pico, em que voc\u00ea faz gestos largos e tem a voz tremida quando canta nuestramerica. Outro, o \u00edntimo, em que o crep\u00fasculo se deita como um cachorro a seus p\u00e9s. O \u00e9pico,depois da luta, recolhe-se em frente ao mar, a apascentar leitores a dist\u00e2ncia. L\u00e1 ele cultiva lembran\u00e7as, como o tempo em que tentou ser pragm\u00e1tico, quando celebrava a cebola e lamentava jamais ter constru\u00eddo nada com as m\u00e3os, nem mesmo uma vassoura. O \u00edntimo migra para o apaixonado, o amante viajador. Ambos usam bon\u00e9, imitado por todo mundo. \u00c9 uma estranha compuls\u00e3o. Parece que ao chegar a idade mais avan\u00e7ada, corre-se ao bon\u00e9 nerudiano de maneira obsessiva e misteriosa. Por que as senhoras idosas pintam o cabelo de azul? \u00c9 t\u00e3o enigm\u00e1tico quanto usar o bon\u00e9 de Neruda.<\/p>\n<p>Outra persona \u00e9 o poetinha, que tem Vinicius de Moraes como modelo supremo. Bebe u\u00edsque na banheira cheia com espuma, toma todas at\u00e9 amanhecer, quando sai de porta em porta pelas casas dos compositores a providenciar letras, como se fosse (o achado \u00e9 dele) um \u201cletreiro\u201d, esp\u00e9cie de leiteiro-poeta. O poetinha \u00e9 quase um Villa-Lobos, que ia ao concerto de chinelo por sofrer de gota. Fez carreira na diplomacia, mas esnoba. \u00c9 amigo de figuras populares. Trata todo mundo no diminutivo. Quando a crise aperta, faz shows. Levanta o copo para a plat\u00e9ia e sa\u00fada: sarav\u00e1! O poetinha \u00e9 o tipo inesquec\u00edvel que todos querem passar a m\u00e3o na cabe\u00e7a. Mas ele morde.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Cabral foi o anti-poeta, com sua anti-poesia, escrita de fora para dentro, a partir do andaime at\u00e9 chegar ao reboco. O poeta cabralino sofre de enxaqueca, tartamudeia nas entrevistas e se esconde a maior parte da vida em lugares ermos, como se fosse nosso homem em Havana antes da revolu\u00e7\u00e3o, ou um c\u00f4nsul em Angola avesso \u00e0s guerras, um adido no Senegal, vestindo linho branco. Em Sevilha, vai a touradas. Mant\u00e9m a luz lorqueana e \u00e0s vezes at\u00e9 sua m\u00fasica, mas, paradoxalmente, n\u00e3o faz concess\u00e3o a elas. Gosta de ser comparado a um engenheiro e usa terno e gravata o tempo todo. Quando era chefe de gabinete do MEC, Drummond de Andrade tinha uma persona cabralina, apesar de chamar de \u201cessas coisas\u201d a poesia de Jo\u00e3o Cabral.<\/p>\n<p>O poeta do avesso \u00e9 diferente do cabralino, que \u00e9 uma figura da alta burocracia. O poeta do avesso \u00e9 como Quintana, que trabalha para sobreviver e acaba vivendo de favor. Passa a maior parte da vida tentando mostrar que o poeta \u00e9 diferente do que dizem, n\u00e3o \u00e9 condoreiro como Neruda, ou \u00edntimo como o poetinha. \u00c9 uma esp\u00e9cie de bo\u00eamio diurno, a caminhar a esmo por ruas sem sentido, meio de banda, carregando os mortos, e olhando o azul das venezianas. N\u00e3o se identifica com nenhum ethos regional ou nacional. Nasceu na lua, vive ao Deus Dar\u00e1. \u00c9 reconhecido s\u00f3 depois dos setenta anos, mas, como Quintana, implora que n\u00e3o o chamem de septuagen\u00e1rio.<\/p>\n<p>O herdeiro \u00e9 outro tipo de poeta. Ele \u00e9 uma esp\u00e9cie de substituidor de talentos. Ocupa o lugar do seu \u00eddolo e, ao contr\u00e1rio deste, acaba na Academia. Tenta se diferenciar caindo no Mesmo, usando o bon\u00e9 de Neruda ou secando sua poesia at\u00e9 o osso. N\u00e3o pode ser confundido com qualquer leite derramado. Cerebral, foi por um tempo o queridinho dos estudos de p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Hoje acumula uma obra de uns cem t\u00edtulos e espera ser lembrado no minuto seguinte ao seu desaparecimento, o que \u00e9 altamente improv\u00e1vel.<\/p>\n<p>H\u00e1 o poeta cool, que tira fotos sentado no ch\u00e3o encerado da biblioteca do seu apartamento nos Jardins. Representa o Brasil, apesar da pouca idade, em eventos internacionais. Tem um p\u00e9 virtual em Nova York e um p\u00e9 real no engarrafamento. Cita os cl\u00e1ssicos. Gosta de poetas eruditos desconhecidos. Superou o leminskismo, o trocadilho que fica insosso na segunda leitura. Agora quebra o verso at\u00e9 virar uma pasta disforme. Prefere a s\u00edlaba \u00e0 palavra. Cala mais do que escreve. Isso na poesia. Nos tratados, \u00e9 boquirroto. Sabe tudo e mais um pouco.<\/p>\n<p>O poeta pobre \u00e9 o mais comum. Por falta de recursos, emprego ou patroc\u00ednio, n\u00e3o consegue ir ao Flip tomar umas birras. N\u00e3o \u00e9 convidado para eventos. N\u00e3o ganha o suficiente para negociar publica\u00e7\u00f5es. Mora em meio a gavetas e \u00e9 considerado um desperd\u00edcio. Esp\u00e9cie de extra-terrestre consentido, \u00e9 tido como b\u00f4bo pelas pessoas realmente pr\u00f3ximas . Cresce sob essa suspeita. Quando chega \u00e0 idade adulta, confirma o escrito e s\u00f3 faz bobagens. Como poesia, por exemplo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 o nerudismo, em dois vetores. Um, o \u00e9pico, em que voc\u00ea faz gestos largos e tem a voz tremida quando canta nuestramerica. Outro, o \u00edntimo, em que o crep\u00fasculo se deita como um cachorro a seus p\u00e9s. O \u00e9pico,depois da luta, recolhe-se em frente ao mar, a apascentar leitores a dist\u00e2ncia. L\u00e1 ele cultiva lembran\u00e7as, como o tempo em que tentou ser pragm\u00e1tico, quando celebrava a cebola e lamentava jamais ter constru\u00eddo nada com as m\u00e3os, nem mesmo uma vassoura. O \u00edntimo migra para o apaixonado, o amante viajador. 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