{"id":432,"date":"2009-12-10T14:15:09","date_gmt":"2009-12-10T16:15:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=432"},"modified":"2009-12-22T00:27:07","modified_gmt":"2009-12-22T02:27:07","slug":"frio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/frio","title":{"rendered":"FRIO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Inverno exige uma resposta \u00e0 altura. Para quem nasceu no Brasil profundo \u2013 a fronteira entre uma civiliza\u00e7\u00e3o poss\u00edvel e a natureza bruta \u2013 era necess\u00e1rio refugiar-se nas peles dos animais. Lembro do grande couro estendido na sala, \u00fanico lugar poss\u00edvel para brincar no ch\u00e3o. Ou do grande pelego de ovelha, trincheira contra as madrugadas polares batidas pelo vento. Ou ainda as campeiras, grossos casacos que cobriam costas e peitos; as meias e cal\u00e7as de l\u00e3, que devolviam vida a pernas e p\u00e9 condenados ao congelamento; e as boinas, que tiravam os cabelos do relento.<\/p>\n<p>Os grossos cobertores forravam as camas quando nos recolh\u00edamos precocemente a\u00ed pelas nove da noite, depois das narrativas dos adultos, veteranos de guerra. Na cabeceira, um r\u00e1dio salvador despejava m\u00fasica de todas as na\u00e7\u00f5es. Viv\u00edamos na diversidade cultural. N\u00e3o havia ainda o ganho de escala a qualquer custo, esse que, a exemplo das planta\u00e7\u00f5es de banana, produz em s\u00e9rie o providencial baticum ou a abobrinha datada.<\/p>\n<p>Existia tamb\u00e9m a margem para leituras, de prefer\u00eancia Monteiro Lobato, com as ilustra\u00e7\u00f5es inesquec\u00edveis de Le Blanc, que nos levavam no dorso do rinoceronte para a Gr\u00e9cia Cl\u00e1ssica. A ins\u00f4nia, rara, era povoada de hist\u00f3rias pessoais, inventadas entre faroestes e namoros. N\u00e3o cobi\u00e7\u00e1vamos estrelas de cinema, mas as beldades do burgo, esplendorosas em sua gra\u00e7a inating\u00edvel.<\/p>\n<p>O frio era um acontecimento matinal, de geada cobrindo o campo de futebol do col\u00e9gio, onde exercit\u00e1vamos a gin\u00e1stica sueca sob as ordens de um severo sargento do Ex\u00e9rcito. Os movimentos brutos antecediam um jogo de vale-tudo, territ\u00f3rio seletivo para futuros torneios e medalhas. Na manh\u00e3 r\u00f3sea e azul, ainda n\u00e3o ocupada pela claridade total do sol de junho, orelhas vermelhas recebiam o castigo aplicado com r\u00e9guas afiadas, manipuladas por grandalh\u00f5es prevalecidos.<\/p>\n<p>\u00c9ramos v\u00edtimas do frio, naquela \u00e9poca de casacos de pele que enfeitavam as senhoras distintas. Gost\u00e1vamos de abrir os arm\u00e1rios para passar a m\u00e3o no vison hoje condenado pela milit\u00e2ncia. Aquele gesto carinhoso na pele que dava charme e gl\u00f3ria a quem a usava faz parte do acervo abandonado do frio de outros tempos. Quando \u00e9ramos crian\u00e7as, ou seja, bichos em plena temporada de prova\u00e7\u00f5es, quando cultiv\u00e1vamos a esperan\u00e7a da pr\u00f3xima primavera.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Inverno exige uma resposta \u00e0 altura. Para quem nasceu no Brasil profundo \u2013 a fronteira entre uma civiliza\u00e7\u00e3o poss\u00edvel e a natureza bruta \u2013 era necess\u00e1rio refugiar-se nas peles dos animais. Lembro do grande couro estendido na sala, \u00fanico lugar poss\u00edvel para brincar no ch\u00e3o. Ou do grande pelego de ovelha, trincheira contra as madrugadas polares batidas pelo vento. 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