{"id":46,"date":"2005-05-13T21:40:51","date_gmt":"2005-05-13T23:40:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=46"},"modified":"2009-12-20T20:35:28","modified_gmt":"2009-12-20T22:35:28","slug":"walter-firmo-a-aventura-do-olhar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/walter-firmo-a-aventura-do-olhar","title":{"rendered":"Walter Firmo: A aventura do Olhar"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Um criador n\u00e3o cruza os bra\u00e7os quando vira a mar\u00e9: procura pressionado pelas circunst\u00e2ncias, desenvolver seu garimpo obedecendo \u00e0 velha li\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, de praticar a arte do poss\u00edvel. No caso do fot\u00f3grafo Walter Firmo, carioca de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, 47 anos e 25 de profiss\u00e3o, a repress\u00e3o e a censura que se abateram sobre o trabalho jornal\u00edstico do Pa\u00eds chegaram tarde demais: ele j\u00e1 tinha provado o sal da aventura e da criatividade no in\u00edcio da sua carreira, na d\u00e9cada de 50, quando conseguiu uma vaga na \u00daltima Hora, do Rio, dirigida, na \u00e9poca, por Samuel Wainer.<\/p>\n<p>Os \u00eddolos da fotografia nessa fase anterior a 1964 eram os da revista Cruzeiro. Havia uma m\u00edstica no jornalismo, principalmnete o fotogr\u00e1fico, num tempo em que a televis\u00e3o n\u00e3o tinha nenhuma import\u00e2ncia no Brasil. Assim, quando a mar\u00e9 virou, Walter Firmo &#8211; que da \u00daltima Hora pulou para o Jornal do Brasil e, mais tarde, para as revistas semanais- j\u00e1 era um rep\u00f3rter fotogr\u00e1fico forjado numa luta que por um tempo funcionou como um projeto em todo o Pa\u00eds: o de desvendar a realidade brasileira, descobrir seu rosto, mudar a imagem que a popula\u00e7\u00e3o fazia de si mesma. Um projeto que, na \u00e1rea do foto jornalismo, pode ser resumido numa express\u00e3o, usada freq\u00fcentemente por Walter Firmo: o da descoloniza\u00e7\u00e3o do olhar.<\/p>\n<p>Se a censura e o arb\u00edtrio &#8211; mais alguns motivos importantes, como a crise do papel, a partir da segunda metada da d\u00e9cada de 60, que acabou restringindo o espa\u00e7o das fotos na imprensa &#8211; procuraram destruir esse projeto, o trabalho de Walter Firmo comprova o contr\u00e1rio. Os fot\u00f3grafos brasileiros foram obrigados a um recuo t\u00e1tico, que acabou completando o trabalho inicial : o impacto da \u00e9poca de O Cruzeiro e \u00daltima Hora, era, no fundo, apenas o primeiro plano de uma realidade muito mais complexa e que exigia uma aten\u00e7\u00e3o redobrada. Intuitivamente e dentro do combate poss\u00edvel, Walter Firmo acabou aprofundando essa perspectiva, explorando ao m\u00e1ximo as possibilidades do seu trabalho.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a imprensa modificada lan\u00e7ou-o em outras linhas de ataque: n\u00e3o eram mais os bastidores do futebol que ele fotografava, como no tempo da \u00daltima Hora; nem se tratava de apenas desvendar os segredos do Brasil, como na reportagem premiada com o Esso de Reportagem, em 1963, no Jornal do Brasil, &#8220;Cem anos da Amazonia de ningu\u00e9m&#8221; (onde tamb\u00e9m fez o texto). Walter Firmo, temperado pelo bom jornalismo da \u00e9poca democr\u00e1tica, foi visitar os m\u00fasicos, foi bater perna na cal\u00e7ada da cultura, descobriu uma est\u00e9tica luminosa, dilacerada no cotidiano popular cruzado cont\u00ednuamente pela impunidade da repress\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o apenas fotografou enterro de crian\u00e7as, favelas, prociss\u00f5es ou carnaval. Descobriu &#8211; e revelou &#8211; os infinitos desdobramentos de uma realidade criada por um povo m\u00faltiplo, um pa\u00eds surrealista, uma geografia transparente. Fixou o detalhe que a televis\u00e3o ignorou e viu que, em cada cena basileira, h\u00e1 um elemento fundamental de s\u00edntese de transced\u00eancia: a alegoria, trabalhada por Walter Firmo com uma obsess\u00e3o po\u00e9tica, e que confere ao seu trabalho um impacto dif\u00edcil de se livrar.<\/p>\n<p>O seu olhar abriu-se \u00e0s novas dimens\u00f5es do espa\u00e7o urbano e captou o &#8220;absurdo&#8221; do real. Como na foto Trem de Fantasia, por exemplo, de 1978, exposta no Masp, de 18 deste m\u00eas a 11 de novembro, junto com as obras mais significativas desses 25 anos de fotojornalismo: num trem de sub\u00farbio, usado diariamente para o trabalho, aglomeram-se as integrantes de uma escola de samba, vestidas a car\u00e1ter, como se os h\u00e1bitos populares da fantasia e do sonho servissem n\u00e3o s\u00f3 como contraponto a uma situa\u00e7\u00e3o social degradante, como tamb\u00e9m para sua supera\u00e7\u00e3o. Ou como no caso da foto C\u00edrio de Nazar\u00e9, tamb\u00e9m exposta no Masp ( a mostra ficar\u00e1 tamb\u00e9m de 8 de dezembro a 15 de janeiro no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro): um grupo de pessoas, agarradas a uma corda ( que n\u00e3o aparece), apresenta-se numa postura &#8220;irreal&#8221;, como se at\u00e9 o andar das pessoas, em determinadas ocasi\u00f5es, obedecesse a um outro tipo de movimento e se firmasse sobre um ponto desconhecido de equ\u00edlibrio.<\/p>\n<p>Muitos outros exemplos podem ser citados, como as fotos de brasileiros, ilustres, como Pixinguinha ou N\u00e9lson Rodrigues, ou a intimidade de uma solteirona de Bel\u00e9m.(Leito do Tempo, 1980) Mas o importante \u00e9 dar a palavra ao pr\u00f3prio Walter Firmo que v\u00ea essa mostra como o fim de um ciclo no seu trabalho, uma esp\u00e9cie de s\u00edntese aleg\u00f3rica de um combate que est\u00e1 longe de chegar ao fim. Pois Walter Firmo, filho \u00fanico de um portu\u00e1rio que um dia lhe trouxe de uma viagem uma Rolley-Flex leg\u00edtima, quer continuar sua aventura: acaba de ser contratado pela \u00daltima Hora, do Rio, que passa por uma importante fase de reformula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele promete: n\u00e3o vai ficar atr\u00e1s de uma mesa, chefiando uma equipe. Vai mesmo \u00e9 para a rua, o\u00adnde est\u00e3o expostas, dispon\u00edveis ao seu olhar descolonizado, as verdades de um pa\u00eds que se precisa conhecer melhor para dar certo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um criador n\u00e3o cruza os bra\u00e7os quando vira a mar\u00e9: procura pressionado pelas circunst\u00e2ncias, desenvolver seu garimpo obedecendo \u00e0 velha li\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, de praticar a arte do poss\u00edvel. No caso do fot\u00f3grafo Walter Firmo, carioca de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, 47 anos e 25 de profiss\u00e3o, a repress\u00e3o e a censura que se abateram sobre o trabalho jornal\u00edstico do Pa\u00eds chegaram tarde demais: ele j\u00e1 tinha provado o sal da aventura e da criatividade no in\u00edcio da sua carreira, na d\u00e9cada de 50, quando conseguiu uma vaga na \u00daltima Hora, do Rio, dirigida, na \u00e9poca, por Samuel Wainer.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1390,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46\/revisions\/1390"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}