{"id":529,"date":"2009-12-11T11:30:23","date_gmt":"2009-12-11T13:30:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=529"},"modified":"2009-12-21T20:05:53","modified_gmt":"2009-12-21T22:05:53","slug":"michelet-inventa-a-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/michelet-inventa-a-historia","title":{"rendered":"MICHELET INVENTA A HIST\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<p>&#8211;\u00a0 <em>O que \u00e9 preciso ler para entender Shakespeare? perguntou uma professora do interior.<\/em><\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 <em>Leia Shakespeare, respondeu o poeta Mario Ouintana.<\/em><\/p>\n<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A an\u00e1lise dos sete primeiros cap\u00edtulos do cl\u00e1ssico de Jules Michelet, &#8220;A Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa&#8221;, propostos pelo curso, revelam uma vis\u00e3o rom\u00e2ntica e moderna de uma ci\u00eancia hoje em crise de identidade. A partir da obra do autor, vamos identificar seus elementos principais e, com a ajuda de Lucien Febvre e Jacques Ranci\u00e8re, sua g\u00eanese e atualidade. Seguindo o conselho de Mario Quintana, vamos come\u00e7ar pegando Michelet a unha.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">1. A raz\u00e3o vence a loucura.<\/span><\/p>\n<p>O povo foi, convocado pela aristocracia para as elei\u00e7\u00f5es de 1789. O objetivo era servir de massa de manobra no jogo pol\u00edtico da corte. Michelet destaca a inoc\u00eancia do povo, que atende ao chamado votando maci\u00e7amente, de maneira correta, nos eleitores certos, esperando deles a solu\u00e7\u00e3o para os problemas gerais.<\/p>\n<p>O truque narrativo do autor ainda pode ser encontrado hoje no cinema americano: o her\u00f3i s\u00f3 radicaliza depois que sofre a brutalidade dos inimigos, depois que se decepciona, quando sua boa f\u00e9 vira do avesso e transforma-se em arma de guerra. O texto tece essa inoc\u00eancia para imantar o Povo &#8211; que ao agir atrai para si a Raz\u00e3o. O povo jejuava &#8211; com a crise &#8211; aguardava pacientemente, pois tinha esperan\u00e7a nos Estados Gerais.<\/p>\n<p>O instrumento do Povo era o Terceiro Estado, que tradicionalmente sempre fora modesto, respeitoso, adestrado para concordar com o poder. Mas, desta vez, a popula\u00e7\u00e3o comportou-se de maneira diferente, elegendo, no interior, os padres aguerridos, que eram contra os bispos. E, para desespero de Roberto Darnton, que insiste, na sua obra, em subestimar a import\u00e2ncia do Iluminismo na Revolu\u00e7\u00e3o, &#8220;o povo das cidades, um pouco mais preparado, tendo recebido alguns lampejos da filosofia do s\u00e9culo, mostrou um admir\u00e1vel ardor, uma viva consci\u00eancia do seu direito&#8221;. Essa determina\u00e7\u00e3o definiu dois p\u00f3los opostos: a na\u00e7\u00e3o de um lado, o privil\u00e9gio do outro. A na\u00e7\u00e3o estava unida entre povo e burguesia, mas dividida entre letrados e iletrados. Vemos assim que Michelet identifica as ra\u00edzes da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa como conseq\u00fc\u00eancia direta do Iluminismo, uma vis\u00e3o \u00e9pica que hoje virou moda desmoralizar.<\/p>\n<p>&#8220;A Assembl\u00e9ia seguinte seria um Messias; bastava que ele falasse e as pedras se transformariam em p\u00e3o. &#8221; Ou: &#8220;Ah! Quem n\u00e3o ficaria comovido \u00e0 lembran\u00e7a desse momento \u00fanico, que foi nosso ponto de partida? Durou pouco, mas permanece para n\u00f3s o ideal a que sempre tenderemos, a esperan\u00e7a do futuro.&#8221; A emo\u00e7\u00e3o do historiador e a \u00e9tica do comportamento popular costuram o texto todo o tempo. Ao longo do relato, o povo \u00e9 honesto, revoltado, firme e esperan\u00e7oso.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 entre o povo, que est\u00e1 na legalidade &#8211; e portanto se distingue da popula\u00e7a, dos arruaceiros &#8211; e a aristocracia, que encarna a ilegalidade do privil\u00e9gio: &#8220;Os nobres da Bretanha haviam dado o exemplo de perturba\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es legais dos Estados provinciais, agitando os camponeses, lan\u00e7ando contra o povo uma popula\u00e7a entremeada de lacaios.&#8221; O povo encarna a lei, que tem legitima\u00e7\u00e3o divina e que ser\u00e1 hegem\u00f4nica no futuro. Segundo Michelet, o privil\u00e9gio est\u00e1 de um lado, o direito do outro. E, portanto, direito do povo transformar o<\/p>\n<p>Terceiro Estado em Assembl\u00e9ia Nacional soberana. Com isso, a Revolu\u00e7\u00e3o toma impulso e torna-se irrevers\u00edvel. E o povo representa toda a Na\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apenas parte dela.<\/p>\n<p>O Terceiro Estado representava o advento da lei. Ele era uma massa de homens &#8211; onde n\u00e3o se destacava nenhum grande inventor, nenhum her\u00f3i &#8211; que representava a p\u00e1tria acima de todas as classes. A paix\u00e3o e a aud\u00e1cia do Terceiro Estado opunha-se \u00e0 repulsa, ao \u00f3dio e \u00e0 arrog\u00e2ncia da aristocracia. O comportamento da nobreza \u00e9 fonte de fraqueza, e o do povo, de for\u00e7a. O Rei teve uma chance nesse momento, de aliar-se ao povo contra a nobreza, mas ignorou-o, apesar dos esfor\u00e7os do Terceiro Estado em manifestar lealdade. O Rei aliou-se aos privilegiados da nobreza e com isso decretou a pr\u00f3pria senten\u00e7a. Ele n\u00e3o encarna mais a na\u00e7\u00e3o, mas apenas o privil\u00e9gio, ou seja, a fraqueza, a ilegitimidade. Com a radicaliza\u00e7\u00e3o do processo, a Revolu\u00e7\u00e3o come\u00e7a a sua trajet\u00f3ria, como um navio em dire\u00e7\u00e3o ao futuro. Ou seja, a irreversibilidade da vit\u00f3ria da na\u00e7\u00e3o nasce desse antagonismo n\u00e3o resolvido.<\/p>\n<p>Para uma na\u00e7\u00e3o sens\u00edvel ao g\u00eanio da palavra, \u00e9 fundamental que a Revolu\u00e7\u00e3o aproprie-se da linguagem regia para tornar vis\u00edvel e exercer sua legitimidade temporal. Da legitimidade divina, cuida Michelet de identificar a Assembl\u00e9ia com uma manjedoura de Bel\u00e9m. Ela nasce como um novo cristianismo para substituir a religi\u00e3o. Os locais onde a Revolu\u00e7\u00e3o se manifestou pela primeira vez, s\u00e3o considerados sagrados pelo historiador. No processo narrado, evidencia-se a cautela da Fran\u00e7a, encarnada no seu povo, nos passos decisivos que est\u00e1 dando.<\/p>\n<p>Mas chega um momento em que, de posse da legitimidade, da raz\u00e3o, o povo revolucion\u00e1rio deixa a modera\u00e7\u00e3o de lado e investe contra a loucura, a desraz\u00e3o do privil\u00e9gio. Michelet descreve como a nobreza e o Rei v\u00e3o perdendo todas as chances ao tentar suprimir a liberdade depois de outorgar voz a milh\u00f5es de eleitores atrav\u00e9s das elei\u00e7\u00f5es. O legislador do lado da loucura, o legislador idiota acaba impelindo os acontecimentos para a viol\u00eancia, a for\u00e7a e a espada. Como diz Mirabeau: &#8220;Ide dizer \u00e0queles que vos enviam que estamos aqui pela vontade do povo e que daqui s\u00f3 nos arrancar\u00e3o pelo poder das baionetas.&#8221;<\/p>\n<p>Pela for\u00e7a da sua legitimidade, por ser instrumento da Raz\u00e3o, a Revolu\u00e7\u00e3o tem validade universal. Assim a Fran\u00e7a, &#8220;correndo todos os riscos, acertava as contas do g\u00eanero humano&#8221;. Ela tinha poder para mudar os homens, a selecionar aqueles que estavam ao lado da lei e da mudan\u00e7a, contra os outros, que aproveitavam a confus\u00e3o para defender interesses mesquinhos. Estes \u00e9 que difundiam a subliteratura. Ou seja, ao contr\u00e1rio do que Darnton sustenta, as brochuras da subliteratura instigavam o povo contra a Revolu\u00e7\u00e3o (pg. 135).<\/p>\n<p>O movimento tinha grandeza, tinha imensid\u00e3o. O povo agia de maneira transparente, contra a obscuridade da conspira\u00e7\u00e3o da nobreza. Como o fosso entre as duas posi\u00e7\u00f5es se aprofundava, a Revolu\u00e7\u00e3o avan\u00e7ava e o povo precisava se armar. Nessa fase, modera\u00e7\u00e3o era tida como trai\u00e7\u00e3o. Era preciso ousar. A insurrei\u00e7\u00e3o tornava-se o instrumento do patriotismo, j\u00e1 que a na\u00e7\u00e3o era o povo lutando pela liberdade. O povo armado defrontava-se com os soldados estrangeiros, mercen\u00e1rios em oposi\u00e7\u00e3o ao soldado cidad\u00e3o, franc\u00eas, que engajava-se na luta revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>A tomada da Bastilha &#8211; uma &#8220;pris\u00e3o do pensamento&#8221; &#8211; \u00e9 uma vit\u00f3ria contra a anarquia moral, \u00e9 um ato de f\u00e9 d\u00f2 &#8220;povo inteiro&#8221; (a na\u00e7\u00e3o unida), contra a arbitrariedade caprichosa, o despotismo fantasioso, a inquisi\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica e burocr\u00e1tica. No dia 14 de julho, a liberdade nasce num ber\u00e7o puro e sem m\u00e1cula. Essa pureza op\u00f5e-se \u00e0 m\u00e1 consci\u00eancia encarnada na Bastilha, sua loucura que acabou minando a pr\u00f3pria resist\u00eancia.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">2. Um historiador sem mestre.<\/span><\/p>\n<p>A for\u00e7a po\u00e9tica do texto de Michelet costuma contaminar a an\u00e1lise que se faz dele. E o que acontece com Lucien Febvre, ao decompor a g\u00eanese do historiador num curso dado em 1942. Mas a homenagem n\u00e3o obscurece a lucidez da an\u00e1lise, que est\u00e1 centrada na seguinte tese: a de que Michelet criou a Hist\u00f3ria porque n\u00e3o teve mestre. Ele faz parte de uma gera\u00e7\u00e3o cevada no<\/p>\n<p>silencio sobre os eventos da revolu\u00e7\u00e3o: &#8220;A ruptura com o passado e a tradi\u00e7\u00e3o foi total e n\u00e3o somente com a tradi\u00e7\u00e3o do Antigo Regime, mas tamb\u00e9m, propriamente, com o Novo. Porque, da revolu\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m falava jamais aos filhos que, nascidos por volta de 1795 (Michelet \u00e9 de 1798), cresciam sob o imp\u00e9rio. A palavra de ordem era o sil\u00eancio.&#8221;<\/p>\n<p>A ruptura deu-se na tradi\u00e7\u00e3o oral, na fam\u00edlia: &#8220;Guardar sil\u00eancio com os filhos \u00e9 romper a tradi\u00e7\u00e3o, quebrar o fio dos tempos.&#8221; Michelet precisou resgatar a hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio, atrav\u00e9s do seu amor pelos mortos e assumindo o Romantismo, que surgiu como rea\u00e7\u00e3o \u00e0 aridez da raz\u00e3o logicista e o c\u00e1lculo utilitarista do passado. Segundo Lucien Febvre, ele criou a Hist\u00f3ria porque primeiro a sentiu, porque captou com maravilhosa sensibilidade, todas as correntes que cruzavam a atmosfera da sua \u00e9poca. Os sinais dessa revolu\u00e7\u00e3o sentimental e moral seriam a reabilita\u00e7\u00e3o &#8211; e logo, a exalta\u00e7\u00e3o &#8211; da sensibilidade e da poesia.<\/p>\n<p>Como vemos na p\u00e1gina 121 do texto de Michelet, ele sentia-se em d\u00edvida com o passado: &#8220;Ah! O tempo n\u00e3o andou depressa, as gera\u00e7\u00f5es se sucederam, a obra pouco avan\u00e7ou&#8230; Quando pusemos os p\u00e9s sobre suas lajes vener\u00e1veis, a vergonha nos veio ao cora\u00e7\u00e3o pelo que somos, pelo pouco que fizemos. Sentimo-nos indignos e sa\u00edmos daquele lugar sagrado.&#8221; Na raiz da obra de Michelet est\u00e3o tamb\u00e9m as Confiss\u00f5es, de Rousseau. O historiador resgata a si mesmo quando resgata o passado. Ele procura conciliar os acontecimentos com sua identidade pessoal Os sentimentos, as emo\u00e7\u00f5es profundas da Hist\u00f3ria foram revividas por Michelet porque ele reviveu suas causas dentro de si.<\/p>\n<p>O historiador deve estar preparado interiormente para a grandeza da Hist\u00f3ria. Como diz Michelet na p\u00e1gina 134: &#8220;O \u00f3dio e o esp\u00edrito do partido rebaixaram tudo isso, desfiguraram essas grandes cenas, obscureceram a hist\u00f3ria a seu bel prazer. Apegaram-se a essa ou \u00e0 qual anedota rid\u00edcula. Digno divertimento de esp\u00edritos pequenos! Atribu\u00edram-se a esses movimentos imensos n\u00e3o sei quais miser\u00e1veis, quais impercept\u00edveis causas&#8230;Ah!, infelizes, explicai ent\u00e3o, pela palha que a vaga leva, a agita\u00e7\u00e3o do oceano.&#8221; Lucien Febvre reporta-se \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de historiadores entre 1870 e 1890 que &#8220;durante anos, n\u00e3o cessaram de trabalhar para apequenar a Hist\u00f3ria, para achat\u00e1-la em todos os sentidos da palavra, para faz\u00ea-la voltar ao ponto em que Michelet a tomou.&#8221; Como se v\u00ea, a s\u00edndrome de Darnton \u00e9 c\u00edclica na Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Insuflar vida aos arquivos, extrair sangue quente e vida dos papeis mortos exige exalta\u00e7\u00e3o, poesia. &#8220;Como eu gostaria de falar em prosa&#8221; escreve Michelet citado por Lucien Febvre. &#8220;O ritmo orat\u00f3rio me persegue e faz de mim um poeta abortado.&#8221; O poeta escolheu a filosofia como caminho para a hist\u00f3ria. Sua inten\u00e7\u00e3o era enfocar a evolu\u00e7\u00e3o dos costumes e das id\u00e9ias das sociedades desaparecidas. O historiador fil\u00f3sofo &#8220;queria romper com o esp\u00edrito do s\u00e9culo XVIII, com a filosofia das id\u00e9ias claras e da raz\u00e3o seca, numa palavra, com a maneira de Voltaire.&#8221; Esse passado foi rompido pela Revolu\u00e7\u00e3o: &#8220;A Hist\u00f3ria \u00e9 filha do Romantismo e da Revolu\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Lucien Febvre. &#8220;E o que fez a Revolu\u00e7\u00e3o? Promoveu o povo \u00e0 dignidade de agente e por conseguinte de sujeito mesmo da Hist\u00f3ria. &#8221; Num arroubo de puro Michelet, diz Lucien Febvre: &#8220;Digamos a palavra certa: a revolu\u00e7\u00e3o foi a na\u00e7\u00e3o tomando o poder na Fran\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>Homens sa\u00eddos do nada, como Danton, Robespierre e Napole\u00e3o, que n\u00e3o usurparam o poder antigo, mas se identificaram com o novo poder emergente, assomaram no cen\u00e1rio. Desse nada criador \u00e9 que Michelet tirou a Hist\u00f3ria. Os professores que sua gera\u00e7\u00e3o dispunha, do tempo do imp\u00e9rio napole\u00f4nico, eram extremas nulidades, segundo Lucien Febvre. S\u00f3 depois de 1815 \u00e9 que a surgiram os professores de verdade para uma Fran\u00e7a \u00e1vida por conhecimento. Nesse caldeir\u00e3o o jovem Michelet come\u00e7ou a se destacar.<\/p>\n<p>3. Paradoxos de uma obra moderna<\/p>\n<p>O que um poeta rom\u00e2ntico que se insurgiu contra o esquecimento e contra a aridez do passado tem de moderno? Jacques Ranci\u00e8re, a partir de Lucien Febvre, responde a essa pergunta, ao lembrar que este saudou Michelet como o pai fundador da Escola dos Annales: &#8220;Face ao modelo real-empirista, Michelet inventou um paradigma republicano-rom\u00e2ntico da hist\u00f3ria sobre a qual esta deve ainda regular-se quando quer permanecer uma hist\u00f3ria e n\u00e3o uma sociologia comparada ou um anexo da ci\u00eancia econ\u00f4mica ou pol\u00edtica.&#8221; Segundo Ranci\u00e8re, Michelet opera esta revolu\u00e7\u00e3o pela qual o relato do acontecimento tornar-se o relato do seu sentido. Sua modernidade, que fez Lucien Febvre transmitir seu estilo para a escola dos Annales, prov\u00e9m do fato de que ele soube definir uma estrutura po\u00e9tica essencial do novo saber hist\u00f3rico. &#8220;A hist\u00f3ria n\u00e3o pode tornar-se ci\u00eancia permanecendo hist\u00f3ria sen\u00e3o pelo desvio po\u00e9tico que d\u00e1 \u00e1 fala um regime de verdade.&#8221;<\/p>\n<p>Isso serve de li\u00e7\u00e3o para os historiadores de hoje, segundo Ranci\u00e8re: &#8220;\u00c9 no universo simb\u00f3lico estruturado pelas identidades ordenadoras do corpo real, da fala divina e da Musa po\u00e9tica que a hist\u00f3ria erudita da idade das massas deve ir buscar suas ancoragens. O problema n\u00e3o \u00e9, pois, saber se o historiador deve ou n\u00e3o fazer literatura, mas qual ele faz. O sacrif\u00edcio da hist\u00f3ria \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a cientificista levou ao fim de uma certa historicidade, o fim da cren\u00e7a na hist\u00f3ria como figura da racionalidade.&#8221;<\/p>\n<p>Conclui Ranci\u00e8re: &#8220;Nada amea\u00e7a a hist\u00f3ria sen\u00e3o seu pr\u00f3prio cansa\u00e7o relativamente ao tempo que a fez ou seu medo diante do que fez a mat\u00e9ria sens\u00edvel de seu objeto: o tempo, as palavras e a morte. A hist\u00f3ria n\u00e3o tem que se proteger contra nenhuma invas\u00e3o estrangeira. Ela tem necessidade apenas de se reconciliar com seu pr\u00f3prio nome&#8221;.<\/p>\n<p>O objetivo dessas cita\u00e7\u00f5es \u00e9 relatar o paradoxo criado por um historiador que inventou a ci\u00eancia hist\u00f3rica sendo poeta e rom\u00e2ntico e tornou-se mais atual do que nunca depois de um longo sil\u00eancio que a crise da modernidade nos condenou. Resgatar a grandeza da Hist\u00f3ria parece ser, \u00e0 moda de Michelet, a obra atual dos historiadores.<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA<\/p>\n<p>FEBVRE, LUCIEN &#8211; Michelet e a Renascen\u00e7a &#8211; SP, Scritta, 1995.<\/p>\n<p>MICHELET, JULES &#8211; A Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa &#8211; SP, Companhia das Letras, 1989. RANCI\u00c8RE, JACQUES &#8211; Os Nomes da Hist\u00f3ria &#8211; Um Ensaio de Po\u00e9tica do Saber &#8211; SP, Educ\/Pontes, 1994.<\/p>\n<p>v<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A an\u00e1lise dos sete primeiros cap\u00edtulos do cl\u00e1ssico de Jules Michelet, &#8220;A Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa&#8221;, propostos pelo curso, revelam uma vis\u00e3o rom\u00e2ntica e moderna de uma ci\u00eancia hoje em crise de identidade. 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