{"id":534,"date":"2009-12-11T11:33:30","date_gmt":"2009-12-11T13:33:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=534"},"modified":"2009-12-21T21:50:00","modified_gmt":"2009-12-21T23:50:00","slug":"o-texto-revolucionario-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-texto-revolucionario-na-america-latina","title":{"rendered":"O TEXTO REVOLUCION\u00c1RIO NA AM\u00c9RICA LATINA"},"content":{"rendered":"<p><em>Subcomandante Marcos e a linhagem do texto revolucion\u00e1rio<br \/>\n<\/em><br \/>\n<strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Por uma feliz disposi\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica dos textos selecionados para o curso, os documentos do Ex\u00e9rcito Zapatista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (EZLN) acabam se revelando como o estu\u00e1rio, a atualiza\u00e7\u00e3o e o apogeu de uma linhagem do texto revolucion\u00e1rio latino-americano. Pela voz do Subcomandante Marcos, est\u00e3o presentes alguns elementos importantes de Bol\u00edvar, Marti, Madero, Zapata, Sandino, vetores que se entrela\u00e7am e se transmutam, enriquecendo e dando consist\u00eancia a uma revela\u00e7\u00e3o renovada. Isso resgata uma tradi\u00e7\u00e3o que povoou o imagin\u00e1rio do continente no s\u00e9culo 20 e que, com o final da Guerra Fria, parecia condenada ao passado.<\/p>\n<p>Mas essa congrega\u00e7\u00e3o de valores hist\u00f3ricos n\u00e3o configura uma s\u00edntese ou uma mistura, j\u00e1 que Marcos tem sua especificidade como proposta e sua originalidade como autor. \u00c9 mais uma heran\u00e7a assumida, um referencial que refor\u00e7a a convoca\u00e7\u00e3o para a luta. Para identificar esses pontos de contato entre Marcos e seus ascendentes, \u00e9 importante mergulhar nos documentos e comunicados do EZLN, que se estruturam ao redor de um personagem-s\u00edmbolo. Seu nome de batismo \u00e9: Nosotros.<\/p>\n<p>Vamos seguir essa pista. Nosotros s\u00e3o os pequenos, os esquecidos, os despojados, os sem rosto e sem nome. Nos primeiros textos, Nosotros n\u00e3o chega a ser o povo, mas aquela parte dos oprimidos que resolveu lutar contra um governo ileg\u00edtimo, o revolucion\u00e1rio messi\u00e2nico, herdeiro da hist\u00f3ria, de uma luta de 500 anos e que encerra suas principais li\u00e7\u00f5es pelo exemplo dos her\u00f3is mortos.<\/p>\n<p>&#8220;Queremos saudar a mem\u00f3ria dos nossos mortos, que sob essa mesma terra nos cuidam e nos guiam&#8221;, diz o Subcomandante Marcos. O messianismo inspirado no esp\u00edrito dos her\u00f3is tem a for\u00e7a do cristianismo primitivo, de revela\u00e7\u00e3o herdada: &#8220;Vimos nosotros que es buena Ia palabra de nuestros muertos, vimos que hay verdade y dignidad em su consejo. &#8221; Trata-se de reviver os mortos que lutaram, reencarnar seu hero\u00edsmo. &#8220;Mandar obedecendo, para viver morremos e para nosotros, nada&#8221; s\u00e3o os lemas desse cristianismo primitivo sem Cristo, despojado, aut\u00eantico, fundado na heran\u00e7a dos mortos. Como nota John Womack J\u00fanior, Zapata, fonte inspiradora do ELZN, tamb\u00e9m buscava nos l\u00edderes do passado os precedentes e a inspira\u00e7\u00e3o. Para ele, o Plano de Ayala era uma outra declara\u00e7\u00e3o a mais na defesa dos povos.<\/p>\n<p>Com o tempo, a verdadeira identidade do personagem-s\u00edmbolo se revela. &#8220;Nosotros somos ind\u00edgenas mexicanos&#8221;. Ou, como diz claramente a declara\u00e7\u00e3o do EZLN ao povo mexicano por ocasi\u00e3o do 502 anivers\u00e1rio do descobrimento da Am\u00e9rica: &#8220;Nosotros, \u00edndios mexicanos. Nosotros, olvidados. Nosotros, humillados. Nosotros, enganados. Nosotros, maltratados. Nosotros, muertos. Nosotros, rebeldes. Nosotros, dignos. Nosotros, verdaderos. Nosotros, muertos vivos. Nosotros no nos rendimos.&#8221;<\/p>\n<p>O povo n\u00e3o representado agora fala e tem sua for\u00e7a na luta pela democracia, a liberdade e a justi\u00e7a. De armas na m\u00e3o &#8211; que s\u00e3o guiadas pela raz\u00e3o &#8211; as bases do EZLN, ind\u00edgenas em sua maioria, precisam da sociedade consciente para poder ganhar a luta contra o capitalismo. Contra as trevas do dinheiro, o EZLN \u00e9 a estrela de um povo em armas, que brilha na noite da opress\u00e3o e da mis\u00e9ria. &#8216;Tor suic\u00eddio o flisilamiento, Ia muerte dei actual sistema pol\u00edtico mexicano es condicion necesaria aunque no suficiente, dei transito de Ia democracia en nuestro pa\u00eds. Chiapas no tendr\u00e1 soluci\u00f3n si no se soluciona ei M\u00e9xico.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo os textos do EZLN, os inimigos que est\u00e3o no poder, exercido ilegitimamente pelo presidente Salinas e pelo PRI, s\u00e3o os mesmos que se opuseram a Hidalgo e Morelos. A revolu\u00e7\u00e3o inacabada do M\u00e9xico precisa concretizar-se, opondo-se a um l\u00edder (Salinas) que mente, usurpa o poder, que gera dor, raiva, humilha\u00e7\u00e3o e lamentos entre os oprimidos. &#8220;Nosotros queremos ser simplesmente Ia antesala dei mundo nuevo. Un mundo nuevo com una nueva forma de hacer pol\u00edtica, un nuevo tipo de pol\u00edtica de gente dei gobierno, de hombre s y mujeres que mandam obedeciendo.&#8221;<\/p>\n<p>Os pontos em comum entre os textos do ELZN e dos seus antecessores s\u00e3o: a afirma\u00e7\u00e3o de uma identidade revolucion\u00e1ria, a ilegitimidade do poder estabelecido, a argumenta\u00e7\u00e3o emocional &#8211; o cora\u00e7\u00e3o convoca para a luta, a revolta \u00e9 desencadeada pela indigna\u00e7\u00e3o, mais do que pela raz\u00e3o -, a cl\u00e1ssica refer\u00eancia \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o mexicana, a legitimidade da posse do territ\u00f3rio latino-americano pelos seus habitantes, o esp\u00edrito de sacrif\u00edcio etc.<\/p>\n<p>A emo\u00e7\u00e3o \u00e9 um insumo revolucion\u00e1rio na Am\u00e9rica Latina. Nota Maria Ligia Coelho Prado que &#8220;o circuito da mulher ou o campo em que se movia era o das emo\u00e7\u00f5es.&#8221; As mulheres combatentes estavam dispostas a sofrer pelo bem da p\u00e1tria. Na Am\u00e9rica Latina, vemos pelos textos, isso n\u00e3o era exclusivo das mulheres. Os guerreiros de Chiapas, os de &#8220;noturno passo, os que montanha somos&#8221; tamb\u00e9m se guiam pela emo\u00e7\u00e3o e o sacrif\u00edcio -&#8220;para nosotros, nada&#8221;.<\/p>\n<p>Basta ver que toda a argumenta\u00e7\u00e3o de Bol\u00edvar contra a Espanha \u00e9 fundada na emo\u00e7\u00e3o. Vamos pegar algumas palavras da Carta de Jamaica. Para descrever os espanh\u00f3is, os termos s\u00e3o &#8220;tormentos, destruidores, barbaridades, atos horrorosos, nocivos, imp\u00e9rio da domina\u00e7\u00e3o, Espanha madrasta&#8221;. Para falar dos revolucion\u00e1rios, os termos s\u00e3o &#8220;Novo Mundo comovido e armado, a luta purificou o territ\u00f3rio, os ind\u00f4mitos e livre araucanos, morigerados e bravos moradores do interior&#8221;. A luta legitima-se assim contra a ambi\u00e7\u00e3o, a vingan\u00e7a e a cobi\u00e7a da Espanha, endurecida e insens\u00edvel. Trata-se de uma justifica\u00e7\u00e3o que \u00e9 emocional e hist\u00f3rica, base de uma sustenta\u00e7\u00e3o ideologicamente correta e legitima. Esse enfoque rom\u00e2ntico da revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 fortemente enraizado no esp\u00edrito e na forma\u00e7\u00e3o de Bol\u00edvar, um homem do s\u00e9culo 19 que recebeu educa\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia.<\/p>\n<p>A linguagem emocional tamb\u00e9m est\u00e1 presente nos textos de Madero . &#8221; A virilidade do patriota resolvido a sacrificar-se, se for preciso, pra conquistar a liberdade e ajudar o povo a livrar-se da odiosa tirania que o oprime&#8221;, escreveu ele.<\/p>\n<p>O texto po\u00e9tico &#8211; comum a Bol\u00edvar, Marti, Marcos e Sandino &#8211; \u00e9 construtor de mitos. Falando da Virgem de Guadalupe e a import\u00e2ncia para a revolu\u00e7\u00e3o mexicana, Bolivar diz que &#8221; o entusiasmo pol\u00edtico mesclou-se com a religi\u00e3o, produzindo um veemente fervor pela sagrada causa da liberdade.&#8221; Em Marti, a revolu\u00e7\u00e3o cubana \u00e9 mitificada, idealizada:<\/p>\n<p>&#8220;E lindo ver a atua\u00e7\u00e3o unida do Partido Revolucion\u00e1rio Cubano, pela dignidade, jamais gerida por intrigas.&#8221; Sandino, ao batizar com seu nome uma cidade conquistada, tamb\u00e9m participa dessa constru\u00e7\u00e3o de mitos no fragor da luta.<\/p>\n<p>A Nuestra America de Marti precisa de l\u00edderes aut\u00eanticos, criativos, que conhecem os problemas reais da terra e do povo, que governa abrindo os bra\u00e7os para a diversidade do povo. Assim, a Am\u00e9rica Latina precisa agir com uma s\u00f3 alma, uma s\u00f3 mentalidade, dando-se a conhecer para evitar que a ignor\u00e2ncia e a prepot\u00eancia dos Estados Unidos sejam seus algozes. A unidade na diversidade na luta contra o capitalismo &#8211; eis algo de Marti que o ELZN assume inteiramente nos seus documentos.<\/p>\n<p>O programa do APRA &#8211; Alian\u00e7a Popular Revolucionaria Americana identificava-se com a Bol\u00edvar, ao pregar a unidade pol\u00edtica da Am\u00e9rica Latina, com Marti ao falar do perigo que amea\u00e7a a &#8220;nuestra America&#8221; (tamb\u00e9m batizada de Indoamerica), com a revolu\u00e7\u00e3o mexicana, ao propor a nacionaliza\u00e7\u00e3o das terras, e com o ELZN, ao reivindicar a realiza\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a e a alian\u00e7a com as classes m\u00e9dias.<\/p>\n<p>A solid\u00e3o do guerreiro latino-americano diante da opress\u00e3o interna e externa &#8211; que identifica Sandino e Marcos &#8211; \u00e9 a solid\u00e3o do homem que se sente injusti\u00e7ado e tra\u00eddo. Como ant\u00eddoto &#8211; e resultado &#8211; o texto po\u00e9tico serve como arma, para convocar, unir, lutar. As palavras &#8211; herdadas e criadas &#8211; formam uma revela\u00e7\u00e3o sempre renovada, que alimenta os mitos, reconstroi a religiosidade em novos termos e prepara os esp\u00edritos para uma definitiva salva\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a utopia latino-americana que a revolu\u00e7\u00e3o, aliada \u00e0 Hist\u00f3ria e \u00e0 poesia, procura instaurar, apesar das derrotas sucessivas.<\/p>\n<p>Nosotros \u00e9 filho de Nuestra America. \u00c9 o rosto da revolu\u00e7\u00e3o sem rosto, a identidade secreta, an\u00f4nima e aut\u00eantica de uma id\u00e9ia que reivindica terra para adquirir consist\u00eancia hist\u00f3rica, justi\u00e7a para recobrar a dignidade e liberdade para ocupar um lugar no futuro.<\/p>\n<p>Indica\u00e7\u00f5es bibliogr\u00e1ficas:<\/p>\n<p>El Pensamiento Vivo de Sandino. Colecci\u00f3n Rueda dei ti\u00e8mpo.<br \/>\nBol\u00edvar &#8211; Textos. Org. de Manoel Leio Belloto e Anna Maria Martinez Corr\u00eaa. SP, Atica.<br \/>\nEZLN &#8211; Documentos y Comunicados. Ediciones Era.<br \/>\nHaya de Ia Torre &#8211; El Antimperialismo y ei Apra.<br \/>\nHerzog, Jesus Silva &#8211; Breve Historia de ia Revoluci\u00f3n Mexicana. Fondo de Coltora<br \/>\nEcon\u00f4mica, M\u00e9xico.<br \/>\nJos\u00e9 Marti &#8211; Nossa Am\u00e9rica &#8211; Antologia. Huicitec, SP, 1991.<br \/>\nPrado, Maria Ligia Coelho &#8211; Em Busca da Participa\u00e7\u00e3o das Mulheres nas Lutas pela Independ\u00eancia Pol\u00edtica na Am\u00e9rica Latina. In Pol\u00edtica e Cultura, Marco Zero\/Anpuh.<br \/>\nWomack Jr., John. &#8211; Zapata y Ia Revoluci\u00f3n Mexicana. Siglo Veiteuno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por uma feliz disposi\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica dos textos selecionados para o curso, os documentos do Ex\u00e9rcito Zapatista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (EZLN) acabam se revelando como o estu\u00e1rio, a atualiza\u00e7\u00e3o e o apogeu de uma linhagem do texto revolucion\u00e1rio latino-americano. 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