{"id":544,"date":"2009-12-11T12:00:11","date_gmt":"2009-12-11T14:00:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/ditado"},"modified":"2009-12-21T23:49:55","modified_gmt":"2009-12-22T01:49:55","slug":"ditado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/ditado","title":{"rendered":"DITADO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nDia de ditado era uma tortura. A professora escandia as s\u00edlabas pronunciando um texto e n\u00f3s t\u00ednhamos que colocar no papel o que ouv\u00edamos, sem cometer erros. Por muito tempo me perguntei para que serviria um exerc\u00edcio aparentemente t\u00e3o sem sentido. Hoje, quando vejo mon\u00f3logos concomitantes em grupos autosuficientes, descubro tardiamente os benef\u00edcios desse treinamento ostensivo. Primeiro, t\u00ednhamos que entender o que era dito. Segundo, acostum\u00e1vamos o ritmo do ouvido ao ritmo do narrador. Terceiro, pod\u00edamos transformar cultura oral em escrita (e checar sua corre\u00e7\u00e3o comparando com o texto original, impresso, lido em aula).<\/p>\n<p>Mas o bom e velho ditado n\u00e3o pode servir de \u00e1libi para justificar toda a tralha fundamentalista da educa\u00e7\u00e3o baseada na press\u00e3o desumana sobre os estudantes. E sim lembrar o quanto era importante a presen\u00e7a de um professor esclarecido, num ambiente, por princ\u00edpio, disciplinador. Um med\u00edocre aproveitaria o clima de press\u00e3o para humilhar os estudantes e tentar encobrir a pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia. Mas uma alma com luzes faria do sil\u00eancio obrigat\u00f3rio uma viagem para o cultivo da introspec\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o um clima de paz no cemit\u00e9rio. Faria do respeito m\u00fatuo imposto pela disciplina uma porta para a gentileza e o interesse pelo Outro e n\u00e3o uma forma de se anular em p\u00fablico.<\/p>\n<p>No momento em que foram destru\u00eddas as bases do sistema, como a alfabetiza\u00e7\u00e3o por meios \u00e1rduos, o ensino de l\u00ednguas e de m\u00fasica, e a memoriza\u00e7\u00e3o, de fundamental import\u00e2ncia, colocada na vala comum da decoreba, foram tamb\u00e9m para o ralo as chances de um ensino formador de consci\u00eancias em regime de liberdade. Quando se transforma a sobriedade em aula em jogos l\u00fadicos de desrepress\u00e3o inconseq\u00fcente, instaura-se a educa\u00e7\u00e3o modelada pela superficialidade.<\/p>\n<p>Os estudantes, assim como os professores, tem fome de transcend\u00eancia. Sem ela, somos animaizinhos de estima\u00e7\u00e3o participando da m\u00e1quina de formar consumidores submissos. No lugar de cidad\u00e3os capazes de ditar os rumos do pa\u00eds em ru\u00ednas, estamos formando esp\u00e9cimes que abra\u00e7ar\u00e3o atividades datadas. Para isso, existe tanta faculdade especializada em of\u00edcios que n\u00e3o passam de sepulcros caiados, enquanto profiss\u00f5es fundamentais perdem o contato com a erudi\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 pode ser conseguida com esfor\u00e7o e maturidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia de ditado era uma tortura. A professora escandia as s\u00edlabas pronunciando um texto e n\u00f3s t\u00ednhamos que colocar no papel o que ouv\u00edamos, sem cometer erros. Por muito tempo me perguntei para que serviria um exerc\u00edcio aparentemente t\u00e3o sem sentido. Hoje, quando vejo mon\u00f3logos concomitantes em grupos autosuficientes, descubro tardiamente os benef\u00edcios desse treinamento ostensivo. Primeiro, t\u00ednhamos que entender o que era dito. 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